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Outsiders: Aberrações Gentis, 3 filmes | WTF #42

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Este texto faz parte de uma série sobre outsiders, os marginais, não conformistas, freaks, desajustados, mavericks, ovelhas-negras, malditos, divergentes, iconoclastas e provocadores que nos impactam por seus exemplos extremos positivos ou negativos, mas cuja intensa alteridade e impossibilidade geral de pertencimento evocam em todos o impacto sobre a reflexão de nosso próprio lugar no mundo.

Retrospectivamente, o texto sobre gurus falsos e o segundo texto sobre teleologia fazem parte dessa série)

* * *

Aristóteles, na Poética, disse que “apreciamos contemplar imagens cuja visão nos é dolorosa”. Em nossa própria época, são muitas vezes os monstros morais que nos atraem, psicopatas como Hannibal Lecter e Dexter. Porém, por muitos séculos, nossos circos mostravam seres cuja simples estranheza física nos causava o que, devidamente, hoje chamamos de curiosidade doentia ou mórbida.

Deformidades, deficiências particularmente gráficas, síndromes raras -- e em alguns casos a mera alteridade étnica -- faziam com que essas pessoas (e alguns animais) fossem exibidos e explorados comercialmente.

Os avanços da medicina e a progressiva educação moral da sociedade nos colocou em outro tipo de relação com os destinos trágicos daqueles que vivem a deformidade. Hoje buscamos, ao menos em nossos contatos superficiais, incluir a todos igualmente -- enquanto que a curiosidade mórbida segue no sensacionalismo dos tabloides e nas buscas inconsequentes de meninos na internet.

Em certo sentido, não desviar o rosto e efetivamente reconhecer o que há de comum com alguém que tem uma aparência extremamente repulsiva, faz parte de nosso próprio crescimento pessoal. Se a feiura é um obstáculo intransponível, é porque nossa empatia é atrofiada -- aquela feiura não é um obstáculo externo que está no outro, mas é um obstáculo interno que nos impede de ver o outro.

A feiura é interna.

E mais do que isso, todos vivemos incontáveis tragédias cotidianas, ainda assim, nos deparar com alguém que vive 24 horas por dia na alteridade extrema nos faz ver nossos ridículos “problemas de classe média” sob outro ângulo. Mas não necessariamente é um ângulo confortável, porque entender que tal tragédia existe no mundo não tem solução fácil.

Mas não devemos virar o rosto. Estes três filmes sobre o tema são bastante diversos, mas cada um deles é indispensável.

O Homem Elefante (1980)

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Straight Story

Quem aprecia o trabalho de David Lynch e não viu esse filme, pode imaginar que se trate do terror psicológico usual do diretor. Esta, porém, é uma película cuja sensibilidade ele não igualou em nenhum outro que dirigiu, com exceção, talvez, de . O filme foi produzido, curiosamente, por Mel Brooks -- que nos anos 80 produziu alguns bons dramas -- e Anthony Hopkins e John Hurt fazem suas atuações impecáveis usuais.

Que Michael Jackson, alguém que sofria de dismorfofobia, tenha comprado os restos mortais de Joseph Merrick (que por algum motivo mais louco ainda estavam em uma coleção privada e podiam ser vendidos!), é talvez indicativo de várias síndromes modernas.

A celebridade não seria ela mesma algum tipo de neoplasia da cultura? De todo modo, mesmo com toda a aberração, e talvez efetiva monstruosidade moral de Michael Jackson, ele, como Merrick, é enfim percebido por todos nós como algum tipo de vítima gentil.

Mas Merrick, ao contrário talvez de Jackson, era sem dúvida apenas uma vítima de circunstâncias terrivelmente desafortunadas. Esta é uma tragédia da natureza, mas também da cultura; Merrick foi sujeitado a todo tipo da exploração usual a que “aberrações” eram sujeitadas na época, mais o escrutínio abusivo da curiosidade científica.

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Ele, como Olaudah Equiano -- ainda que não tivessem o direito a própria subjetividade por motivos bem diversos -- a garantiram sendo perfeitos em um mundo que normalmente não os reconheceria dessa forma. O filme de Lynch consegue passar bem todo o espectro de sofrimento e humanidade dessa vida peculiar.

Marcas do Destino (1985)

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Um melodrama dirigido por Peter Bodganovich, e estrelado por Cher. Eric Stoltz, como John Hurt no filme anterior, sofre a sina de todo ator que atua com maquiagem tão pesada que o torna irreconhecível -- isto é, ter sua performance reconhecida. Ainda assim ambos fazem seus personagens, pessoas reais adaptadas para o cinema, inesquecíveis.

Rocky é um menino que sofre do mesmo problema genético do Homem Elefante, mas agora a ação (também uma história real) é transposta para o fim dos anos 70 nos EUA.

E o que encontramos? A mãe de Rocky, Cher, em uma interpretação exagerada (obviamente) mas sensível, é ela mesma, do seu próprio jeito, uma freak, uma aberração. Ela é uma viciada em drogas que anda com motoqueiros -- e o termo “freak” também se aplicava aos hippies e Hell’s Angels -- e tanto Jimi Hendrix quanto David Crosby cantavam erguer suas bandeiras freak cada vez mais alto.

Novamente temos a conexão da aberração neoplásica trágica, biológica, com a aberração na cultura, com a expressão da tensão geracional e da intensa transição cultural da época em celebridades ícones. E vejamos bem: Bogdanovich, Cher, Laura Dern -- é sem dúvida uma genealogia “freak” na música e no cinema.

Mas o Rocky de Eric Stoltz (que quase foi o Marty McFly de De Volta para o Futuro, no mesmo ano!) é de um carisma inesquecível. Ele é como a figura absoluta do “cair na real” que coloca todos os freaks ao redor em seus lugares: bullies na escola, médicos, professores, família, motoqueiros, mãe. Ele não titubeia, consegue transformar positivamente todas as situações, e não parece sofrer, senão com as terríveis dores de cabeça que seu crânio distorcido produz.

Claro, daí o melodrama: a graça do filme é ficarmos tão cativados por esse jovem difícil de encarar de tão monstruoso, só para chorarmos muito no final juntamente com sua mãe.

A feiura de Quasimodo só aumentava o amor de seu pai adotivo, Frolo. E nós adoramos um underdog (um “desfavorecido”) para amar. Mas Rocky e Merrick não são exatamente como o Sloth de Goonies ou Quasimodo, que possuem a bondade moral e fidelidade de um cachorro, além da feiura extrema.

Também não se tratam de Davis que boleteiam seus Golias. Rocky e Merrick são seres sensíveis totais, eles possuem uma humanidade completa por trás da feiura. Rocky em particular não nos permite o simples reconhecimento como underdog.

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Meu Pé Esquerdo
As Sessões

Em parte os grandes filmes sobre deficiência, como ou , também seguem essa mesma linha: a de nos fazer reconhecer a pessoa (e a riqueza de uma vida) em meio ao que, para nós, a princípio, é só tragédia.

A diferença da situação de um Merrick (que também tinha um grau de deficiência ou comorbidades complicadas) ou Rocky (cuja feiura e estranheza aparente eram a principal deficiência até quase o momento da morte) é evidenciada pela interessante situação com Laura Dern, que faz uma menina cega no filme -- embora ela pareça bastante interessada no gentil e charmoso Rocky, alguém que vive uma situação de exclusão como a que ela vive, os pais não conseguem aceitar um monstro como pretendente da filha -- por mais que sua aparência seja totalmente irrelevante para a menina.

Freaks (1932)

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Esse filme de Tod Browning é citado por todos os grandes cineastas e é um marco de um tipo de cinema contraventor e desafiador que, com todas as irrupções tentativas ao longo das décadas, só viria a florescer bem, e se transformar em algo relativamente mainstream, nos anos 70.

Aqui não temos atores representando as aberrações de um circo: aberrações reais da época encenam o filme, fazem seus próprios papéis. É gente do show business dos anos 30. Parte do politicamente incorreto do filme é que ele, ao contrário dos dois acima, explora também a curiosidade doentia do espectador.

Mas não é tão simples caracterizar o filme apenas por esse aspecto.

Em primeiro lugar, talvez faça sentido hoje criticar, por exemplo, Felini por usar uma mulher absurdamente alta (e atriz amadora) em seu Casanova – uma mulher que se sentia desconfortável com a própria aparência. Nossa preocupação moderna é com a exploração, via curiosidade doentia, das deficiências e defeitos das pessoas.

Mas Freaks já mostra que não é bem assim, porque embora essa exploração e essa curiosidade doentia existam, há também o “pertencimento freak”, e muitas “pessoas-curiosidade” ao longo das últimas décadas confessam que gostariam de estar no show business -- que isso fazia parte de uma forma de existência que eles não sentiam como necessariamente degradante.

Nosso cuidado cheio de dedos hoje é que parece limitar algo de um orgulho freak que porventura poderia existir. E fabricamos, de fato, freaks adoráveis como Edward Mãos de Tesoura -- e exploramos a curiosidade mórbida com filmes como A Mosca. Então simplesmente excluímos essa “quota” de freaks com uma motivação paternalista bastante pegajosa -- só usar gente normal, só que maquiada de freak se necessário.

Quer dizer, isso se esquecemos que o maior herói de uma vasta camada da população é um cara com nanismo no Game of Thrones! (E que brinca com a circunstância anã no excelente Living in Oblivion, de 1995.)

“One of us!” (“Você é uma de nós”) é o coro ao final de Freaks. A mocinha, normalóide, ao casar com um Freak, a princípio por interesse­ -- passa a pertencer à comunidade. Esse é parte da mistura altamente bizarra de terror com a ação das aberrações em sua defesa, ao mesmo tempo heróica e assustadora, bem como com ela mesma se reconhecer uma freak (aliás, Os Sonhadores de Bertolucci e O Lobo de Wall Street de Scorsese referenciam diretamente esse coro).

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Em certo sentido, qualquer alteridade a que aceitamos pertencer, ou em que nos reconhecemos, é, de fato, um tipo de aberração, que começa pela nossa família, e segue por nossas relações de amizade, carreira, nacionalidade, gostos. Nada de errado com isso, uma hora se precisa reconhecer que se é “um de nós”.

O interessante nos freaks é que a alteridade deles seja, aparentemente (e aparentemente mesmo, pela aparência) extrema. E assim demoramos a nos reconhecer como família.


publicado em 06 de Agosto de 2014, 21:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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