Pai e filho dançando juntos

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Quem olhasse de fora começaria a ficar irritado. A repetição era mesmo de enervar até os mais lúcidos. Olhava para a tela do computador, batia uns dedos em teclas aleatórias, olhava para a agenda do lado, batia o punho na mesa três malditas vezes, olhava para a janela e ficava a acompanhar com os olhos o movimento lúgubre das folhas na árvore. Aquele dia acinzentado de começo de agosto, o inverno ainda labutava.

Olho na janela, dedos no teclado, murros abafados na mesa. A sequência se repetia e a cabeça pra lá de Marraquéxe. Na verdade, sua mente ficou na noite anterior que passou quase que em branco.

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Seu filho estava sofrendo. Um garoto de porte atlético e dentes bem alinhados, cara quadrada, sobrancelhas grossas e uma barba constantemente rala que teimava em nascer à tarde mesmo passando o aparador pela manhã. Tinha recentemente recebido sua carteira de motorista e estava há poucas semanas andando com o carro do pai quando, na noite anterior, o pai ouviu o estalo da colisão na garagem.

Desceu para ver o que era e se deu com o veículo batido no fundo da garagem, farol quebrado, portão elétrico fechado e o garoto dentro do carro, com o rosto enterrado no volante. Deu a volta meio afobado de preocupação, abriu a porta e encontrou seu filho chorando. Sobravam lágrimas e faltava ar quando o menino se virou buscando o colo do pai que prontamente recebeu a tristeza e já pediu para si, silenciosamente, parte do sofrimento. Botou o filho entre os braços, conferiu se não havia nada mais grave para cuidar do acidente e o conduziu para entrar em casa.

Sentados na cozinha, o pai de pijamas e o menino vestido de mágoas. A chaleira que fervia a água já apitava e nenhuma palavra ainda fora dita. O garoto botou os braços entre as pernas, coluna dobrada em um quase ângulo reto e os olhos desenhando as sujeiras do tênis.

O pai terminou de passar o café e serviu um par de xícaras na mesa. "Vai, toma que tá forte". O garoto olhou para a mesa, voltou com os olhos para o chão.  O pai esperou pacientemente quando o choro voltou e cessou mais uma vez.

Era de lembrar dessas dores do seu moleque que, no trabalho, iniciara o loop  de dedo e teclado e olhos na árvore e murros abafados na mesa. Sabia que iria passar logo, tentava se justificar com a afirmação de que era coisa de gente jovem mesmo, que todo mundo passa. Mas sabia que, na verdade, não conseguia não ficar angustiado. Acontecia com todo mundo e era doído em cem porcento dos casos.

Na noite anterior, o menino finalmente pegou o café com as duas mãos, assoprou e, antes do primeiro gole, disse ao pai o porquê de toda a situação. O Caio, amigo desde o começo do colégio, havia terminado com ele. Estavam juntos há pouco mais de um ano, mas a entrada na faculdade modificou o cotidiano, modificou o amor, modificou o Caio.

Claro, quando se conheceram e ficaram amigos e se apaixonaram e começaram a namorar eram ainda dois fedelhos, adolescentes crentes do amor repetitivo e eterno. Quando os mundos se ampliaram e dois moços viraram adultos, já não eram mais as mesmas pessoas. O pai montava toda essa trajetória natural na cabeça enquanto o filho contava como seu namoro acabou.

Eles estavam, o menino e seu namorado, o Caio, em uma festa da faculdade dele, umas dessas reuniões em alguma república com muita bebida, pouca luz e nenhuma noção. Garotos e garotas enchendo a cara e conversando e se conhecendo. Todo mundo dançava, todo mundo se pegava. Tudo tranquilo e tudo gostoso até que, em um canto e depois de ir pegar bebida para eles, o Caio perguntou: Você está feliz? Com isso, com o que temos?".

Um belo começo de fim. Duro, contrastando completamente com a leveza de uma festa de faculdade.

Conversa longa, cachaça entrando e verdades saindo, desculpas e ofensas e a ruptura. O Caio também não ficou na festa, mas pegou carona com uma amiga. O filho foi embora sozinho e o caminho terminou com o farol quebrado no fundo da garagem.

O pai ouvia toda a história com olhos atentos, já no segundo café. Deixou o garoto contar os detalhes, soluçar entre uma afirmação e outra. Ao final, disse ao filho: "Filho, o pai te ama, a mãe te ama e o Caio não te ama. E eu sei que isso dói muito".

No trabalho, entre teclar de modo aleatório e olhar para a janela, o pai ficou pensando na conversa com o garoto, misturava coisas que queria ter dito com situações que viveu quando sua vida adulta também estava começando, as mulheres que ele magoou, as vezes que ele saiu machucado com algum fim de relacionamento com alguma delas.

Queria dizer para o filho que aquele seria só o primeiros de muitos dissabores, que existiam muitos outros Caios muito melhores que aquele dando sopa por aí e, sabendo que nada disso acalentaria o coração do filho naquele momento, naquela última noite, preferiu desferir apenas a primeira frase e um resto de silêncio.

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Segurou a mão do garoto, ouviu mais reflexões bagunçadas dele, ofereceu mais café. Deixou que a exaustão fizesse seu trabalho e o filho fosse se deitar para dormir, forças ausentes. Dormiu em dois minutos.

Ele não. Ficou mais algumas horas acordado zapeando qualquer coisa na tevê. Abriu um livro, mas não leu página alguma. Lembranças de frustrações vieram à tona, nada que o entristecesse, na verdade foram esses fracassos e desgostos que, em certa medida boa, fizeram dele o que ele é.

Só preferia -- e sabia bem que esse não era um pensamento exclusivo só dele como pai -- que o filho pudesse não passar pela metade do que ele passou.

Não entendia, ele, o pai, que havia entrado na mesma dança do filho. O garoto, pela pureza de enfrentar o primeiro pé na bunda do namoradinho. O pai, pela pureza tardia de querer proteger o filho das mazelas do mundo.

Ambos na valsa do acaso.

E como seria diferente?


publicado em 10 de Agosto de 2014, 21:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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