Papo de homem ou conversa de padre?

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Nota do editor: Hoje o PapodeHomem faz 5 anos. Em vez de publicarmos aquele clássico texto exaltando nossa jornada (recheado de links para os melhores momentos), resolvemos compartilhar um dos melhores presentes que recebemos nessa semana, algo que nos ajudará nos próximos 5 anos.

Tenho acompanhado o PapodeHomem nas últimas semanas. Há coisas legais, coisas menos legais, e coisas nada legais. Não vou posar de gênio ou de a última grande descoberta da crônica brasileira desde Rubem Braga, mas acho que andam a levantar demais a bola para alguns, que estão se acostumando a bater no vácuo pensando que assim marcam pontos.

Tem faltado texto crítico, e sobrado autoajuda. Pílulas de sabedoria. Tesouros de bom senso. Conversa de padre. Faça assim, assado. Olha a autoestima. Não esqueça das realizações da vida. Preste atenção nessa frase, que ela poderá ser seu lema para toda a vida. Dirija um automóvel. Corrija sua postura.

Mas nunca deixe, preste atenção, nunca deixe mesmo de olhar para o vizinho que está fazendo tudo errado, e coloque-se, diante dele, como exemplo, uma espécie de quase-guru pós-moderno, sobretudo pós-macho e novo homem. O cara sensível que sabe que mulher gosta mesmo é de apanhar. O sujeito legal que disputa o poder numa boa, na base do budismo canalha de quem vê o inimigo fodido como alguém que precisa pagar o seu karma.

Nosso leitor à espreita

Calma, Cleusa!, diria mas não direi, pois é contigo mesmo que eu tô falando. Toda vez que aparecem receitas de savoir vivre, podem apostar, lá vem indigestão. Autocomiseração, autocomplacência, demagogia e muita, muita sensaboria.

Pensava que o PapodeHomem era obra de cronistas. De quem dá uma olhada para o mundo com mais atenção e, quando pode, pinça um detalhe que não é comumente visto, pensado, revisto e criticado. Olhado com precisão e ironia. Pensava que o PapodeHomem privilegiaria a visão crítica, contrária à deformação da mídia em geral e ao desespero de formar personalidades com um grau de sofisticação apropriado aos salões de chá.

Mas tenho lido coisas de me fazer rir de nervoso. Pô, peraí, o cara me vem com essa de conselheiro? Dizer que ele pensa assado e quem pensa assim tá errado, é um babaca e não percebeu a merda em que tá se metendo? Tava legal quando alguém te chamava de otário e assumia idêntica condição não por associativismo demagógico, mas por reconhecimento de sua condição humana de mané.

Então por que, ultimamente, essa enxurrada de preceitinhos para revista Claudia nenhuma botar defeito? Para encontrar os leitores que enchem de elogios nos comentários e repetem fórmulas fajutas de felicidade burguesa? Argh, que saco, hein?

Ok, ainda tem uns textos legais, uns caras bacanas que mantém um mínimo de salubridade, e tocam em assuntos mais desagradáveis sem tirar conclusões bobocas, ou simplesmente conclamam a algumas ações cidadãs necessárias, um engajamento político que não é partidário e em um tom não professoral e metido a besta.

O que gostaria de expor é apenas esse desconforto com quem procura o conforto, com quem acha que o desconforto é tão desconfortável que não custa nada conclamar as pessoas a proceder conforme certas fórmulas compensadoras aos espíritos mais iluminados. Que podem se guiar por Freud ou Marx como poderiam ter como mestres Cristo ou Buda, mas só nos mostram o quanto a vida pode ser chata quando enquadrada em preceitos tatibitates que se pretendem perspicazes.

Além do que, quando você escreve um comentário ao avesso do texto, ele é limado, sem mais aquela. Nem mandam pra você um aviso; ei, cara, você, estraga prazeres de merda, não vem com essa tua visão distorcida e contrária ao nosso comentarista, que aqui não é lugar de controvérsia babaca – cresça e apareça!

É claro que os doutos pregadores continuarão a escrever suas mensagens de amor e táticas para se dar bem na vida com a leveza de um beija-flor cheirador de cocaína. É claro que esse texto merecerá a lata do lixo. É claro que a linha editorial seguirá inalterada, mesmo porque há tantos comentários legais do gênero “curti” que só podemos estar no caminho certo, enquanto esse babaca é todo errado e pretende tão somente nos levar para o mesmo caminho.

Mas estamos aí, pois, como tá valendo a corruptela do ditado, contra os chatos não há argumentos, e tenho dito para desdizer o sacramentar.


publicado em 04 de Dezembro de 2011, 07:31
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Marcos Nunes

Carioca, brasileiro, desertor. Chato pra caralho, não gosta de ler textos marcados com canetinha cor de rosa. Seu negócio é literatura desagradável, não querer consertar o mundo de acordo com suas visões, o que só pode dar merda para todo o resto do mundo. Embora pau mandado não tema lema, ele tem o seu: "Perplexidade aflita sob a perspectiva caótica".


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