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Para Miguel, a vida só é boa quando cheira a alho e cebola

Dos tempos de guri, suas principais lembranças eram chuva e terra molhada. A comida saindo do forno à lenha da avó Ângela e o almoço dominical da mãe, Dona Carmelita, também voltavam vez ou outra.

Dos salgados da cantina da escola, escolheu esquecer. Miguel preferia não se dar conta, mas, por mais que se orgulhasse da frieza que demonstrava como advogado nos tribunais, nunca foi a razão que lhe dominou a vida. Foram as narinas.

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Na natureza, uma gazela foge ao sentir minimamente o cheiro de um felino à distância. De maneira semelhante, Miguel farejava pessoas, sentimentos, emoções e cidades. Há dez anos, ainda recém chegado a São Paulo vindo do interior do Paraná, se espantara com a mistura de odores da capital bandeirante.

Por mais que a terra batida, as árvores e os cantos dos pássaros no Parque do Ibirapuera resgatassem as fragrâncias da sua União da Vitória, era a mistura de embreagem e diesel queimado da Marginal Tietê que impregnava seu olfato.

Se deixou apaixonar pelo cinza mesmo assim, mas prédios, metrôs e carreira não foram as únicas paixões que encontrou por ali.

Desde que conhecera Luiza, o perfume que ela usava e o cheiro de sexo estavam tão presentes na sua cabeça quanto o aroma de tempero recém cortado que vazava da cozinha da aspirante a chef. Pena que a porta dela ficava do outro lado do corredor.

Do seu lado do prédio, e também na cama, quem morava era Ana, a namoradinha de faculdade que o acompanhara desde o Paraná. Viviam uma crise que se arrastava há alguns anos, mas Miguel era cabeça dura demais para farejar o fracasso.

Enquanto esperava a noiva voltar da viagem a trabalho que já durava mais de uma semana, Miguel se deu uma noite de folga. Afastou a papelada para o lado, saiu mais cedo do escritório e foi para casa abrir uma das garrafas de sua coleção de vinhos.

Apanhou uma carta que haviam colocado embaixo da porta, serviu uma taça e ligou a televisão em um daqueles canais de ciência. Na tela, um documentário sobre cientistas italianos explicava que que um relacionamento começa a acabar quando a mente deixa de identificar os cheiros do casal como algo prazeroso. O nariz sente a tensão no ar antes mesmo que você se dê conta de qualquer outra coisa.

Mudou de canal para evitar pensar naquilo, lembrou-se do envelope e o abriu. Tinha a letra de Ana. Ela dizia que era grata por tudo o que haviam vivido e ainda o amava, embora mais como um amigo do que qualquer outra coisa. Decidira aceitar uma oferta para trabalhar no Rio de Janeiro e perguntava quando é que poderia voltar para buscar seus pertences.

Miguel colocou o papel na mesa, desligou a televisão e abriu a porta. Sentiu o cheiro de alho e cebola do outro lado do corredor e decidiu tocar a campainha.

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Antes que a vizinha abrisse a porta com o sorriso de sempre, Miguel pensou consigo mesmo: no fim das contas, tudo é uma questão de onde você decide meter o nariz.


publicado em 24 de Abril de 2014, 08:58
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Ismael dos Anjos

Ismael dos Anjos é mineiro, jornalista e fotógrafo. Acredita que uma boa história, não importa o formato escolhido, tem o poder de fomentar diálogos, humanizar, provocar empatia, educar, inspirar e fazer das pessoas protagonistas de suas próprias narrativas. Siga-o no Instagram.


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