A conversa sobre paternidade é uma das mais importantes do nosso tempo. Venha para o PAI: Os desafios da paternidade atual, discutir e colocar em prática o tema.
Compre já o seu ingresso!

Para que servem as tendências de moda?

Eis aqui um assunto que não desperta bons pensamentos em grande parte dos homens. Fazendo esta pergunta aos meus amigos que não são da área de moda, obtenho respostas sempre curtas.

Antes mesmo de entenderem, refletirem ou assimilarem o assunto, é bastante comum me responderem:

“— Pra vender roupa.”
“— Ei, qualé, boiolagem não é comigo.”
“— Pra você ficar sabendo qual camisa azul de bolinha combina com sua calça nova marrom. Isso não me interessa”

E por fim a mais ouvida de todas:

“-Não sigo tendências, tenho meu próprio estilo.”

Um grande homem e seu grande estilo
“Uhn, entendi. Realmente, pra que tendência? É muito estilo transbordando em um cara só, fera!”

Podemos notar que as tendências de moda não são muito queridas (nem entendidas) pela maioria do público masculino brasileiro. Aliás, é interessante citar que grande parte dos profissionais de moda também não entende como este movimento de previsão comportamental funciona.

Não pretendo, neste artigo, direcionar sua opinião a ser a favor ou contra as tendências, apenas anseio trazer as explicações necessárias para que você entenda realmente do que se trata o assunto e assim domine melhor o uso desta excelente ferramenta social que é a moda.

Primeiro, o básico.

O que é tendência de moda?

É a identificação de comportamentos sociais específicos que ainda não atingiram seu auge e que terão influência sobre grande parte da população, sendo exponenciados por suas expressões estéticas. Estas expressões são estudadas, decupadas e delas são extraídas características visuais primárias, como cor, proporção e matéria prima. Além das características físicas, são extraídas também qualidades conceituais, tais como atmosfera, discurso, causa e oposição.

Como funciona o processo dentro da Indústria?

Antes que você pense que os grandes “culpados” sejam os estilistas, saiba que esta cadeia é feita também de eventos muito anteriores a eles. O caminho tradicional tem início nas tecelagens. Este é o primeiro setor do processo que vai atrás de informações comportamentais. Normalmente um bureaux de tendências é contratado para mapear quais são os novos anseios do público alvo.

Darei dois exemplos superficiais apenas para tornar mais tátil esta parte do processo:

1. Se a situação econômica tende a ficar cada vez pior e se espera que a taxa de desemprego do público alvo suba, então, é provável que os pigmentos escolhidos terão menos saturação (intensidade cromática) e também menor valor (claro/escuro). Desta maneira, os estilistas deverão criar peças ainda atraentes para a venda, porém com cores mais sóbrias.

2. Se for identificado no público alvo um retorno pelo interesse em atividades manuais em contraponto com a saturação tecnológica que vivemos, é possível que o bureaux sugira a criação de uma quantidade maior de tecidos que tenham em sua trama um destaque na textura, talvez algo que se assemelhe a um tecido feito à mão, podendo utilizar uma trama irregular ou mesmo uma que tenha aquelas bolinhas de linha saltadas que pareçam defeitos.

É claro que nem só de estudo comportamental vive a criação. Mesmo nesta etapa inicial de feitura dos tecidos, outros fatores podem pesar no resultado final.

Dentre estas variáveis, existem três principais:

1. Tecnologia. Exemplo: no começo dos anos 90, um número grande de tecidos sintéticos foi criado por avanços tecnológicos da indústria, acarretando numa enxurrada deste tipo de material no comércio.

2. Política . Exemplo: no auge da Segunda Guerra, em 1942, em Paris, (já um dos grande berços da moda ocidental), o couro era um matéria prima importante destinada para as vestes dos soldados. Foi então que a população começou a ter que utilizar com mais freqüência a madeira na sola dos calçados. Cintos de couro também foram proibidos e novas peças chegavam no mercado feitas de materiais diversos.

3. Clima. Exemplo: em 2010, importantes safras de algodão (como no Paquistão – quarto maior produtor mundial) não renderam o esperado e acarretaram em uma alta de preços muito grande. Parte da indústria resolveu, então, apostar em tecidos híbridos, com a justificativa de que se tratavam de avanços tecnológicos. Sim, realmente alguns eram, mas o mote principal em grande parte da escolha de importantes tecelagens foi a questão financeira acarretada pela alteração climática.

Agora que você já sabe como são concebidos os tecidos.

Hora de irmos para a parte seguinte desta cadeia de produção, marcas e estilistas.

“Uhn, entendi. Realmente, pra que tendência? é muito estilo transbordando em um cara só, fera!”
"Fala."

Se engana quem pensa que nessa etapa a criação ocorra por combustão espontânea. Também nessa fase são utilizados os estudos dos bureauxs de tendência. A diferença é que agora as opções são subdivididas e segmentadas de acordo com o público alvo de cada empresa.

Dentro das Macro Tendências existem várias Micro Tendências. Os estilistas que dispõem desta ferramenta de pesquisa a utilizam para definir quais são as opções que mais se encaixam no público que desejam atingir, exemplo:

O Handmade é a Macro tendência. Dentro dele se encontram variáveis (micro) como estampas localizadas desenhadas à mão ou tecidos já estampados com padronagens irregulares. Cabe ao estilista identificar quais destas características serão mais bem aceitas dentro do perfil de sua marca. Se for uma marca jovem, é provável que as estampas localizadas tenham mais apelo, se for uma marca adulta, a escolha óbvia será a padronagem.

Nota importante: este exemplo foi extremamente simplificado para que fosse possível o entendimento desta etapa do processo. Tanto as Macro Tendências quanto as Micro, são muito mais elaboradas e ricas em conceito e em estética.

Após as peças serem produzidas, o marketing da empresa se encarrega de acentuar ainda mais as qualidades definidas pelo estilista através da maneira com que veicula a campanha e também através da campanha em si.

Jabalizando: esta é a campanha da Conto Figueira (minha marca). Considero o processo de criação de moda semelhante ao da Arte, por isso, criei uma escultura para ser o modelo. Assim, encaixo a campanha dentro uma tendência (Artsy) que tenha significado real para a marca e torno o discurso mais coerente , claro e incisivo
3 opção b

Pra que servem mesmo as tendências?

Agora que você sabe como se dá (num campo ideal) o desenvolvimento de produtos na moda e qual o papel das tendências nele, é possível voltarmos à questão inicial. Para que raios servem as tendências?

Fica claro que elas têm dois grandes objetivos:

1. Serem a resposta estética aos anseios da população, servindo como importantes definidores do espírito do tempo de uma sociedade.

2. Vender. Sim, básico desse jeito. A tendência, se bem usada, é com certeza a melhor ferramenta de venda que uma marca de vestuário pode ter, pois se baseia na empatia entre produto e usuário. Quanto mais clara e bem escolhida é a mensagem transmitida, maior será o grau de desejo a ser despertado no consumidor.

É claro que nem só de rosas vivem os campos. Existe uma grande parcela de compradores aficionados por moda que enxergam mais importância no portador da mensagem do que no discurso em si. São, estes, alguns dos grandes responsáveis pela moda ser enxergada como alienada e fútil.

Compradores que vão de um estilo a outro, não apenas são suscetíveis a quaisquer discursos, mas principalmente a quaisquer marcas, desde que estas sejam grandes e poderosas.

Este tipo de legitimação por autoridade e não por ideologia é a grande falha do consumidor e antes que critiquemos este tipo de comportamento, que tal olharmos para a moda como o espelho da sociedade que ela é e notarmos as ações que também podem ser as nossas?

Se pararmos para analisar, veremos que este tipo de pensamento é recorrente em diversas frentes e que ele é fruto de um grande mal atual da sociedade – a falta de reflexão.

"Agora a gente entendeu."
"Agora a gente entendeu."

É como quando vemos (ou participamos) de uma discussão entre partidos políticos. Muitas vezes o debate consiste muito mais em deslegitimar a opinião do opositor através da justificativa de ela ser emitida pelo partido adversário ao nosso.

É claro que o histórico dos locutores nos ajuda a acelerar nosso posicionamento em uma discussão, mas tornar o locutor mais importante que a mensagem é, ao meu ver, um grande equívoco.

Não se engane pensando que somente os leigos serão alvos de nossa analogia. Uma parte considerável dos estilistas tem o olhar viciado e criam somente olhando para outros estilistas, quando na verdade deveriam fazê-lo olhando para a sociedade. Com certeza, é mais fácil enxergar o que já está mastigado.

Um grande criador sempre analisa sua área, mas nunca deve fazê-lo em busca de inspiração. Se ele fizer isso, estará eternamente a um passo atrás, será como aquela fome que cresceu a tal ponto que já foi saciada e hoje é inócua.

Homens que só agem a partir de movimentos já estabelecidos em suas áreas, mesmo que cercados de boas intenções, com certeza não vão fazer grandes transformações em seus campos de atuação. E um dos motivos principais é por que não enxergam seus meios como meios, mas sim como fins.

Quem sabe esta seja uma lição que a moda, suas tendências e os grandes estilistas tenham a ensinar. A de que grandes criações – e por conseqüência, transformações – só ocorram a partir de pensamentos que tenham a sociedade como alvo principal e não os concorrentes do seu segmento.

E por hoje é só, pessoal. Como sempre, espero que tenha sido útil ou, ao menos, divertido.


publicado em 18 de Maio de 2014, 12:15
11304492 1107811912567819 865753018 n

Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura