Perco o controle das emoções | ID #44

"A raiva está longe de ser uma emoção incontrolável."

"Senhores,

Não sei se já foi publicado algo sobre o meu problema.

Resumidamente, é o seguinte:

Em condições normais de temperatura e pressão sou considerado um cara legal, tranquilo, boa praça etc.

No entanto, de vez em quando sou acometido por um surto psicótico de ira e raiva, talvez o que chamam de transtorno bipolar.

Isso ocorre de vez em quando, em duas circunstâncias, basicamente.

A primeira é com pessoas mais próximas (mulher, sócios, condôminos - sou síndico de um condomínio, acreditem se quiser).

A segunda é quando o fato é taxado por mim como muito grave.

Um detalhe interessante é que de um modo geral vou tolerando as coisas. Parece que quando o copo enche ai transborda e aí vira merda.

Eu gostaria de passar por uma reforma geral, em especial, para ir xingando aos poucos, para não acumular, para quem sabe transformar um pouco as pessoas mais próximas, pois tenho a sensação de que, por ser tolerante até certo ponto as pessoas abusam. Então, quando o meu copo enche, despejo tudo de uma vez e sem controle.

Gostaria de ler coisas, muitas coisas sobre isso.

Abraços.
I.H."

Caro I.H., sua preocupação é digna, afinal, a raiva, por mais fortalecedora que pareça diante de um impasse ou sofrimento, acaba corroendo sua habilidade em resolver problemas de verdade.

As pessoas o temem, evitam e até toleram, mas no fundo sustentam uma barreira de distanciamento afetivo que você não nota.

Transtorno bipolar não é assim como você descreve. Bem resumidamente, ele oscila entre quadros de depressão (apatia, perda de capacidade de sentir prazer e prejuízo das funções pessoais) com fases de mania (euforia, onipotência, aceleração e comportamentos inapropriadamente exagerados ou excêntricos).

Sem excluir ou pender para nenhuma ousadia diagnóstica vou me deter ao fato de que você seja uma pessoa sem transtornos subjacentes.

Raiva é emocional ou racional?

A raiva está longe de ser uma emoção incontrolável.

Ela é resultado de um ciclo que envolve raciocínio, análise da realidade e uma escolha consciente pelo ato agressivo.

O arrependimento posterior é parte do ciclo de culpa/bom comportamento/latência/indignação do bom garoto que sente a pressão, sentimento de injustiça e desejo de corrigir os outros.

O que está por trás da raiva é um percurso emocional muito anterior à explosão que deu margem ao problema. A raiva bebe da suposta sensação de injustiça diante de um comportamento adequado do raivoso. Ele se mune da legitimação moral para ter o direito de explodir.

A raiva é racional, uma pessoa é capaz de deliberar um grito com uma pessoa que morde seu sofá (pois pressupõe intenção moral), mas perdoa um cachorro. É na suposição de dolo moral, confirmada ou não, que a raiva se alimenta.

Numa fração de segundos o viés raivoso avalia se seu alvo tem consciência moral, se sim a raiva é liberada, fosse uma criança, um deficiente, um idoso ou qualquer pessoa que ele julgasse menos capaz, a ira seria poupada (a menos que não poupe ninguém de sua trovoada julgadora).

O raivoso é o correto

Nunca vi nenhum raivoso se sentir errado, todos são mais inteligentes, ágeis, espertos, morais, honestos e sociáveis que os demais e, por esses motivos espartanos, se sentem blindados para agir como justiceiros. Sua raiva furiosa é um jeito "delicado" de corrigir a lentidão/burrice do mundo que o cerca.

Veja o trânsito. O raivoso é capaz de dirigir 365 dias no ano crente que cruzará com seres treinados pelo FBI para direção defensiva e afiados como uma estrela ninja para atuar no volante. Ele desconsidera completamente a quantidade de pessoas cansadas, distraídas, com medo, tristeza, desesperança e tão apressadas quanto ele para chegar em casa.

Ele vê apenas carros intrusos no meio de seu caminho, mas esquece que são pessoas como seu pai, sua mãe, seus amigos e seus filhos que povoam as ruas. Sua capacidade de xingar impessoalmente cada motorista é de uma total incapacidade de aceitar a realidade como é. Ele briga para não se entregar ao conformismo, justificaria.

A gravidade, portanto, é sempre avaliada no tribunal interno do raivoso. As penas são sempre desproporcionais, inclusive contra o próprio raivoso que não raro é um tirano consigo mesmo.

Expectativa e realidade

Os raivosos são sonhadores inveterados, vivem num mundo que só existe na mente deles. Sofrem e fazem sofrer por cada coisa que está fora do lugar.

O problema é que já viciou o seu sistema operacional de tantos contra-ataques que ele próprio virou uma máquina de bater justificado pela suposta violência que sofreria. Ele agride para não ser feito de trouxa e sua paranoia cria a narrativa na qual tentará se confortar depois que abrir mão do controle.

A cada expectativa frustrada ele pré-delibera o seu futuro impulso raivoso. Ao final do dia ou da semana já tem uma lista de indignações acumuladas para que possam extravasar.

Normalmente, a figura escolhida é alguém que ele percebe como inofensivo no campo de suas relações mais íntimas.

Raramente ele se meteria a besta com alguém maior que ele, a não ser que tenha um instinto de auto-destruição subliminar. De modo geral, suas vítimas favoritas são a mãe, a pessoa amada (se já estiver devidamente conquistada e confirmada), o animal de estimação, os filhos, um amigo tolerante ou um funcionário que "merece".

No mundo do raivoso, todo mundo merece ouvir uma "boas verdades", e ele tem uma verdade (que só existe no seu mundo irreal que funciona como nado sincronizado) para todos. Ele adora cuspir "franqueza" na cara dos outros, afinal ele é sempre o correto feito de besta.

Não se iluda, I.H., a vida é um tanto pouco orquestrada e sua ira não transformará a sequência interminável e incontrolável de eventos desastrados do cotidiano. Diminua suas expectativas antes de infartar.

O controle da raiva

O treino para driblar a raiva vem muito antes dela. É preciso fazer as pazes com o mundo e consigo mesmo. Essa é a hora de parar de autopiedade e abrir mão dos seus privilégios, o mundo não é um berçário e vai desapontá-lo constantemente.

Ao invés de brigar com aquilo que está fora de seu controle, seja generoso com o descompasso. As pessoas precisam de ajuda, assim como você.

A raiva esconde uma estratégia aflitiva para evitar o medo e a tristeza. Todo ataque esconde um sentimento de vulnerabilidade e um pedido de ajuda implícito.

No trânsito, você está pedindo por compreensão dos colegas motoristas, quer chegar em casa e está aflito por sentir que sua vida tem sido uma perda de tempo.

Na briga amorosa você quer mais acolhimento e menos cobrança, crítica ou pressão. Quer espaço para ser mais juvenil, alegre ou livre.

No trabalho, só quer mais colaboração dos colegas para sentir que produz o suficiente para se sentir competente e não decepcionar as pessoas que ama, pagar suas contas e guardar dinheiro para a viagem de férias.

Como você expressa tudo isso? Gritando.

Não, você não terá mais carros se abrindo, amores durando e empregos fluindo. Você acumulará um mar de mágoa, gastrite e solidão. A raiva machuca e não comunica os seus valores mais profundos. Ela cria a profecia que teme acontecer no futuro.

Ao se agitar no carro, a sensação psicológica parece dobrar o tempo de engarrafamento. Ao gritar por reconhecimento afetivo, você vai bloquear o canal de comunicação com seu amor e fazer que essa pessoa o odeie. Ao esbravejar no escritório, seu colega irá colaborar muito menos com sua antipatia.

A cura da raiva é o cuidado consigo mesmo, é ouvir seus apelos profundos ao mesmo tempo que cria uma harmonia com a selva humana e deixa de brigar com os contratempos. É um profundo treino de aceitação ativa em relação aos impasses. É aquele momento da vida que se abre mão de qualquer esperança por privilégio e colaboração. É quando você espera receber menos e doar mais, infinitamente, sem contabilizar cada coisa que deu ou não recebeu.

Raiva se combate com entrega, com a mudança de uma visão ressentida com as pessoas e que nutre um oposicionismo crônico com cada divergência. É aceitar que o mundo não é você e que você não precisa se sobrecarregar no papel de referência para o mundo. Aceitar que a vida é bonita nessa imperfeição bizarra.

Ao invés de raiva peça ajuda, mesmo que ela não venha, lute contra sua tendência a colecionar inimigos, tente penetrar nas necessidades profundas dos outros, facilite a vida alheia mais do que quer ver a sua facilitada. Quando você oferece livre de desejo de retorno, a vida parece mais leve, fluida e afetiva.

Você provavelmente já intua tudo isso, o que falta agora é treinar compaixão diária com você mesmo e com outros. Dê carinho e peça claramente e notará estranhamente que as pessoas dão de volta aquilo que lhe damos.

* * *

Nota: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br.


publicado em 28 de Abril de 2015, 15:58
File

Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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