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Amor saco-roxo

Quando escrevi o texto sobre solidão masculina, falei muito sobre um movimento social silencioso de isolamento, tipicamente masculino e reforçado pelo discurso do machão autônomo, autossuficiente, que não precisa de ninguém.

Quero ampliar ainda mais esse olhar.

De forma geral, o homem é educado a buscar todas as conquistas que o mundo concreto pode oferecer. Para isso, ele é treinado, direta e indiretamente, consciente ou inconscientemente, a ignorar os estímulos, ritmos e pulsações do seu corpo e do seu coração. Chamo isso de negação da introspecção ou exteriorização patológica. Ele é exposto mais precocemente que as mulheres às competições, jogos, lideranças, trabalhos corporais etc. Por essa razão levamos a fama de amadurecer mais tarde que elas. Como não, já que estamos sempre sendo esparramados ao mundo exterior em detrimento do mundo interior?

Ignoramos com muita frequência uma camada sutil de vivências que acontecem em nosso mundo interior e que determinam nossa capacidade de usufruir e experimentar abertura e felicidade genuínas.

Homem de Lata
Homem de lata: sem coração

Temos um vício emocional que recai em duas formas comuns de filtrar a realidade: busca de poder e prazer.

Na sua saga de superação pessoal, esse homem emocionalmente limitado age segundo um delírio pessoal diferenciando os outros em amigos e inimigos. Nessa luta constante para se sobrepor em meio a guerra de egos sua reação quase sempre é instintiva: corre (fuga), ataca (luta) ou se acovarda (paralisia). Todas excludentes entre si.

De forma bem concreta, acaba sempre buscando meios de se sobrepor orgulhosamente aos outros homens para mostrar quem é o melhor. Quando se percebe incapaz de vencer por si mesmo, acaba entrando num mar de submissão e conformismo, ou então adotando uma mentalidade de rebanho na qual se empodera através de algo que o representa numa onipotência suprema. Um time de futebol, um gosto musical, uma identidade qualquer. Até o seu deus precisa ser o macho-alpha perto do deus alheio.

Outra distração cognitiva que reduz sua capacidade de ação ampla no mundo é a tendência em sexualizar as relações, principalmente com as mulheres. Elas se dividem entre comíveis e descartáveis, comíveis e casáveis, barangas e ignoradas. Há uma imensidão de emoções sutis que esse homem típico ignora. Está sempre no raso e toma decisões baseadas só nessas três vertentes. Raramente o homem típico consegue ver uma mulher e se relacionar com ela sob a perspectiva de que ela é um ser humano, uma profissional, e não apenas alguém com uma vagina. Por isso acaba sendo taxado de egoísta, frio e tarado.

Com outros homens, o quesito sexualidade proibida o impede de manifestar afeto livremente, sob o temor de ser visto como homossexual.

Conheço muitos homens que só vão se relacionar com emoções mais profundas como tristeza, medo, angústia e isolamento quando estiverem com algum tipo de doença, perderem seus empregos, arruinarem seus casamentos ou estiverem prestes a morrer.

Normalmente identificamos bem sentimentos de raiva e tesão, mas raras vezes percebemos que aquela birra que temos do parceiro de escritório pode ser mais uma tristeza por não se sentir tão competente do que raiva propriamente dita. Nem notamos que estamos tensos, angustiados e com medo, e logo agarramos a mulher que temos à mão para descarregar a tensão nela por meio do sexo. Fugimos do medo contínuo por meio do prazer ou de atividades arriscadas que logo se convertem em mais angústia, como consumo de drogas.

Para ter acesso a emoções mais humanas, como abraçar os amigos e sorrir, apelamos ao jogo de futebol.

Abraço
"Ae, porra! Nosso time ganhou, tá liberado se abraçar!"

Outro dia conversava com um paciente que está à frente de um grande negócio e sofre muitas pressões externas e internas para realizar seu trabalho. Ele me falava sobre seu sentimento de isolamento na posição de liderança e como as pessoas raras vezes o percebiam triste e angustiado. Argumentei que provavelmente é porque nem ele se deu a chance de perceber isso  pois só expressava sua raiva e dominância. Dificilmente pediria ajuda, que é um ato raro da parte dos homens. Resmungar, gritar e se embebedar faz parte do protocolo, mas reconhecer suas próprias necessidades e lembrar que pode contar com os outros está longe do seu olhar.

Esse paciente complementou: "só me sinto como um cachorro que precisa passear. Se alguém me levar, eu volto a ficar bem." Repliquei dizendo que, se ele parece um rottweiler, dificilmente alguém faria isso se ele não levasse a coleira na boca indicando sua necessidade. Ressaltei que era possível que muitas pessoas o amassem e só estivessem esperando uma única chance de fazer o impossível por ele. Nessa hora as lágrimas foram inevitáveis. Reconhecer o amor dos outros derruba qualquer gigante.

Pensem nos seus pais e avós, quantas aflições passaram, se endividando, aguentando desaforos profissionais, medos pelo sucesso e fracasso, e fechados nos seus mundos. Quanto dessa dor eles não descontavam nas esposas por meio de grosserias, sumiços, bebedeiras e violência? Quantos não buscaram amantes simplesmente para não ter que enfrentar sua sensação de derrota pessoal na frente da mulher que escolheram para si? Quantos problemas poderia ter evitado se não precisassem ser o machão inviolável? Se pudessem simplesmente dizer:

"Você está do meu lado esse tempo todo e eu nunca pedi sua ajuda. Queria que me escutasse um pouco sem me julgar ou crucificar, só me escute, me abrace e me ame."

Certa vez eu estava tão aflito com uma série de sobrecargas pessoais que nem notei como minha libido havia baixado. Nem soube o que dizer quando fui questionado pela minha mulher sobre o pouco fogo. Mas ao toque de carinho que recebi, desabei a chorar por cerca de 40 minutos. Só ouvia o doce embalo feminino: "eu estou aqui, estou aqui, tem alguém ao seu lado".

As mulheres, gostemos de admitir ou não, são mais parceiras quando o assunto é aguentar pressões e permanecer ao nosso lado. Nós, homens, aparentemente nos condicionamos a buscar o caminho mais curto, que evite todo tipo de sofrimento. Somos mimados e queremos alívio imediato, sem muito esforço ou complicação. Nossa resiliência é pequena e apelamos com mais rapidez a emoções pouco autênticas para administrar nossos receios.

Poderíamos sentir alegria com coisas simples, mas só conseguimos experimentar euforias esportivas regadas a muito álcool, socos, chutes e sangue.

Traduzimos a tristeza que nos abala profundamente com sinais de cansaço físico e desgaste profissional.

O amor e a compaixão que sentimos pela mulher que escolhemos se converte em trepada. Só nos conectamos à delicadeza do amor com nosso pau.

É nesse nível de pobreza interior que transitamos. Estamos completamente anestesiados. Não é à toa que nos identificamos com seriados que tratam de zumbis -- somos uma horda deles caminhando sem vida genuína.

Lembre daquela vivacidade autêntica da infância em que sorrir com o riso e chorar com o choro era natural. Você reconhece os sonhos que deixamos no meio do caminho para preservar nosso orgulho pessoal?

Fotos

Se enganam os homens que veem nisso uma inversão de papéis, uma vulnerabilização ou rendição. Discordo completamente. A real conexão com as emoções autênticas podem nos possibilitar uma transformação do mundo em que vivemos. Identificar as emoções que costumamos ignorar nos coloca um passo à frente. Qualquer dificuldade se desmancha quando temos acesso ao mundo emocional. Sentimos a real coexistência sem obstáculos.

Para acessar as emoções, precisamos saber nomear, aceitar e nos render a cada uma delas, e para isso é necessário fazer uma observação silenciosa, seja pela autoánálise racional ou por alguma prática meditativa. Diminuir o volume da vida para conseguir ouvir o sutil som do coração e começar a manejar seus arranjos e melodias com maestria.

Os homens que dominam esse campo são mais carismáticos, atraentes e energizados. Eles criam livre fluxo com os outros, de tal forma que se tornam pessoas admiráveis e inspiradoras.

Suas emoções não derrubarão você. Pelo contrário, reerguerão sua capacidade de presença autêntica no mundo.

* * *

Novidade no perímetro: em breve vamos inaugurar uma coluna de perguntas e respostas chamada Dr. Id, assinada pelo nosso autor e psicólogo Fred Mattos.

Mandem suas perguntas para contato@papodehomem.com.br, colocando "Dr. Id" como assunto.


publicado em 30 de Julho de 2012, 13:45
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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