Pintas

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Emudeceu.

Desde o dia em que Pilar disse seu adeus de estiagem.

Às vinte e duas horas e doze minutos, sentada na cama, ela se entrincheirou nas próprias pernas, baixou os ombros como contrapeso do suspiro descarregado e avisou que não podia mais. Que estava lá sem ela mesma, que precisava catalogar as lembranças e inventariar os medos. Que era preciso se acautelar da pressa, não atropelar as coisas, desfazer a carroça com os bois ainda à frente. Tudo não demorou mais do que vinte minutos e treze dias e as últimas palavras foram ranhuras desmanchadas com os olhos, Te amo, e a boca quis dizer, Não se engane. Mas não disse, não precisou, ele soube, e ela, por saber que ele soube, não disse.

Nesse dia, como em todos os outros, Pilar dormiu no escuro. No breu absoluto. Antes, jogou as roupas no chão, reviu a desordem do quarto, os livros por ler e o copo pela metade. Ao se deitar, inundada pela falta de cor, vagueou a mão pela beira e agarrou o segundo travesseiro. Não se esforçou para não se mexer, como também não se esforçou para não pensar: nunca fora mulher de pôr atalhos em questionamentos. O que lhe sofria eram as dúvidas, e tanto pior se fossem mais sobre si do que sobre o mundo, cujo retrato trazia bem desenhado e aceitava borrachas. Quando finalmente conseguiu dormir, não pôde ver, ali no escuro, se chorava ou não.

Acir não dormiu. Desmembrado no canto do quarto, encolhido sobre fragmentos, não tirava os olhos da cama e Pilar tinha sete pintas do lado esquerdo do rosto. As luzes acesas, a janela aberta e o ronronar invasivo da rua, da gente, do carro, da velha, da festa, do vento. As duas mãos escorriam pela barba e paravam na boca trêmula, e ele via a incredulidade de um lado a outro, deslizando pela cama, e Pilar tinha sete pintas do lado esquerdo do rosto. Há dias, arrumara pela segunda vez em menos de mês sua estante de livros: o que não leu e sabia que não leria foi desabitado, junto com certas fotografias antigas e as fantasias de carnaval que usaria até o fim da vida. Ostentou com brio a lata transbordada, que regurgitava aquele seu lixo, todo seu. Sorriu para atender ao telefone e contar para Pilar, De novo a estante, ela perguntou.

A noite, o dia, seguiu, e Acir emudeceu. Os olhos caíam pelos ângulos e afundavam como náufragos de um mar em calmaria, a barba crescia pelas bochechas, pelo queixo e pelos cílios, as unhas se encavalavam nos nós dos dedos, os gestos, ronceiros, o sorriso, constante, o chapéu, a boina, o boné, o gorro. Parou de usar óculos e meias.

Desnamorados

Disseram que não havia nada de novo no silêncio, que a mágoa se ressente se não vem. Pilar quis conviver. Acir deixou de dizer que não podia, mas não foi ao encontro, pôs em tinta branca o recado e arrendou seu tempo.

Há um minuto, recebeu uma carta curta de Pilar. Despiu em uma jorrada o murmúrio represado como um oceano na barragem da nova usina:

– Pilar tem sete pintas do lado esquerdo do rosto.

* * *

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publicado em 17 de Abril de 2014, 14:37
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Anna Haddad

Acredita no poder de articulação das pessoas e numa educação livre e desestruturada. Entrou em crise com o mundo dos diplomas e fundou a plataforma de aprendizagem colaborativa Cinese. Tá por aí, nas ruas e nas redes.


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