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Plágio e semelhança de textos: como lidar

- Suspeita de plágio? - perguntei, surpreso.

Era terça passada, mais pro final do dia. O Fagundes comentou comigo sobre um perfil no twitter que estava travando contato conosco à respeito disso. Fiquei confuso, mas não dei muita atenção. Normalmente é o contrário, os textos do PdH são chupados e repostados web afora, sem muito pudor. Porém, não seria a primeira vez em que a suspeita cai do nosso lado. É corriqueiro no mundo da escrita.

Pulei de reunião em reunião, finalizando tarefas e planejamentos pra mantermos a casa de pé. Tempos turbulentos no QG. À noite, fui direto pra minha prática esportiva.

Ao retornar, estava armado o circo. O texto em questão era o "Sobre o Dia Mundial de Porra Nenhuma", do Eduardo Amuri. O plagiado seria o "Igualdade e Falsas Simetrias", do Tulio Vianna. Leiam ambos com calma antes de continuar ou nada fará sentido. Os dois partem de um mesmo mote e usam exemplos específicos que coincidem.

Os ânimos estavam exaltados de lado a lado. Dava pra sentir claramente na troca de emails que li na sequência, nos tweets públicos e no post feito pelo Amuri em seu blog pessoal.

Comecei perguntando, "Já perguntaram ao Eduardo se ele conhecia o Tulio ou o blog dele?". Não, nem conhecia o nome. O Eduardo é autor de grande confiança da casa, e palavra é palavra. Aqui dentro, isso nos basta.

Fui então ler a cronologia dos tweets:

Tulio é advogado, professor, Mestre e Doutor reputado. Estava puto diante do que entendeu como possível plágio.

Eduardo logicamente puto por ter sua ética questionada.

Demais editores do PdH nada satisfeitos. Afinal, questionar a ética do conteúdo é atacar a base de nosso trabalho.

O circo, prestes a detonar, era feito de ruídos. Entrei na conversa por email e respondi da seguinte maneira:


Tulio, tomo a liberdade de entrar na conversa.

Sou o fundador do PapodeHomem. Em cópia, além do próprio autor do texto publicado em nosso site, está o Gustavo Gitti, Diretor de Conteúdo do PdH.
Primeiro, é um prazer travar esse contato. Não é a primeira e nem será a última rusga envolvendo o PdH. Afinal de contas, o projeto foi criado com essa intenção. Viemos para nos comunicar de maneira ampla, provocar, questionar e expandir os caixotes nos quais os homens andam vivendo. Cada conflito é sinal de que estamos fazendo nosso dever de casa. Mais, é sinal de aprendizado chegando.
Seguindo, vou compartilhar contigo a cronologia dos fatos, como eles se apresentaram a mim:

  • no final do dia, o Fred Fagundes, um de nossos editores, diz que um perfil no Twitter está nos mandando vários replies

  • segundo esses replies, há uma suspeita de plágio caindo sobre um de nossos autores

  • o autor é o Eduardo Amuri, de puta confiança. pergunto ao Fred se já falou com o Eduardo.

  • o Eduardo confirma que não conhecia você ou seu blog.


Como todos sabemos, a web é o templo dos ruídos de comunicação.
Fui analisar o caso todo com calma. Encontrei os tweets apontando para o texto. Alguns deles já em tom acusatório. Normal, a tendência humana é formar turbas e partir pra conflitos sem pensar muito. Uga buga. Assim se fazem as guerras.
Reli o texto do Eduardo. Li seu texto duas vezes.
E voltei ao passado... 
Me formei em Jornalismo e Publicidade na UFMG, onde você se tornou Mestre. Fui monitor de redação em incontáveis aulas. Assim como me dediquei a inúmeras disciplinas de criação, no curso de Publicidade.
Uma das primeiras e mais marcantes aulas, ainda no ciclo básico, foi ministrada pelo professor de Criação Publicitária. Muito malandro, ele nos deu o seguinte exercício. A sala foi dividida em grupos e cada um recebeu um briefing escrito num papel dobrado. Tivemos 1 hora para trabalhar em nossa criação. Na sequência, cada grupo apresentou o resultado.
A pegadinha era: todos receberam a mesma porra de briefing, sem saber.
O resultado: as criações foram ridiculamente parecidas - em ideia e até mesmo em execução.
Isso num ecossistema de 10 grupos.
Para os alunos, foi uma surpresa. Para o professor, um filme que está acostumado há assistir nas últimas décadas. Pessoas com repertório similar, em condições sócio-econômicas similares, tendem a compartilhar uma quantidade bem maior do que imaginam de referenciais. Pra elas é uma merda, se descobrem mais comuns do que gostariam. Ninguém gosta de sentir comum.
As coincidências acontecem naturalmente - escritores, jornalistas e publicitários de ofício cansaram de passar por situações como essa. O bom publicitário/escritor/jornalista vai trabalhar para se tornar um sujeito capaz de ir além desses clichês tanto quanto possível. É um talento que demanda anos para ser lapidado.
Retomando o fio da meada, poderíamos então supor alguma semelhança entre você o Eduardo?
O Eduardo é um cara inteligente pra caralho. Você também. Afinal, Doutor, Mestre e Professor não são títulos irrisórios em nenhum canto do planeta. Falo sem qualquer ironia.
Qual o histórico do PapodeHomem? Faço questão de explicitar, pois não imagino que seja nosso leitor. Aqui um breve overview de Nossa História.
Temos um comprometimento quase xiita com a transparência, com questionamentos e com o pensamento crítico.
Um Professor, Doutor e Mestre também nutre tal compromisso. Ou não seria bom educador, creio. Primeira semelhança.
Dentro disso, ambos resolveram trabalhar um mesmo mote. Perfeitamente plausível, considerando a data. Segunda semelhança.
Usaram os mesmos exemplos. Mais plausível ainda:

Esses temas são recorrentes no PapodeHomem, coloquei um link de artigo nosso ao lado de cada um. Assim como devem ser recorrentes em sua sala de aula. Mais uma semelhança.
O que os tweets publicados por seus alunos e você deram a entender ser plágio me parece apenas uma coincidência baseada em um contexto pra lá de similar. E mais, espaçados por dois anos.
Os artigos terem o mesmo mote, a mesma argumentação e exemplos é um elogio tanto para nosso autor como para você, ambos compartilham uma visão afiada. Eu, por ex, compartilho a mesma visão e já usei os MESMOS exemplos em n conversas de bar.
A má notícia é que ambos são menos originais do que supunham. Nem tudo é perfeito.
Do nosso lado, poderíamos ficar irados e resolver partir pra uma boba contenda virtual.
Mas e aí?
O que ganharíamos com isso? O que ganharíamos xingando alguém que sequer conhecemos? Alguém cuja história e legado não conhecemos?
Do seu lado, vale o mesmo pensamento. Quais os louros a se conquistar?
Eu, você, o Eduardo, o Gitti, o time de conteúdo do PdH e a torcida do Corinthians somos bem menos especiais e ainda menos originais do que gostaríamos de admitir. A ideia que surgiu aqui, surgiu em tantos outros lugares, em tantos outros momentos.
O próprio PapodeHomem não é uma explosão de originalidade. Somos um espaço para homens conversarem e publicarem textos sobre assuntos que os interessam, livres de amarras tão típicas dos meios de comunicação tradicionais. Vida que segue.
Portanto, parto da premissa de boa fé em ambas as partes. O resto é mero ruído.
Caso queira conversar por telefone, será ótimo. Meu cel é (xx) xxxx-xxxx. Também posso ligar em número e horário de sua conveniência. Valorizo conversas diretas, sem intermediários ou teclas envolvidas.
Por fim, ofereço enviar um livro do PapodeHomem para compartilhar mais de nosso trabalho e nossa jornada. Não temos o menor pudor em falar sobre pisadas de bolas, construções e os sonhos por trás do projeto.
Aguardamos seu retorno, Tulio. Pretendo tornar nosso posicionamento público ainda amanhã. Não deixamos nenhuma situação que envolva questionamentos éticos sobre nossa postura passar em branco, jamais.
É isso. Grande abraço!

À noite, outra surpresa. O Alex Castro, um de nossos editores, me procurou falando...

Guilherme, o Tulio é meu grande amigo e advogado dos mais reputados nesse Brasil! Que está acontecendo?

Dei risada. Olha que coisa boa? O embate cada vez mais esvaziado. Não era possível que um sujeito tão bem recomendado pelo Alex pudesse ser um fdp. Na sequência, o Alex me enviou um post publicado em seu blog com o seguinte trecho escrito pelo Tulio.

O Diabo: de Primeiro Rebelde a Grão-Malvado
"Não há uma conduta que possa ser considerada crime ou mesmo imoral em qualquer cultura. Somente a desobediência à norma possui a universalidade necessária para tamanha popularização do mito. ... Lúcifer não foi um homicida serial, um sádico torturador ou um maníaco sexual. Nenhuma destas condutas o teria tornado o símbolo da maldade. Lúcifer desobedeceu a uma norma; desafiou o poder hegemônico; recusou-se a obedecer àquele que tudo vê, tudo sabe, tudo pode. É isso que faz dele o símbolo da maldade. ...
A rebeldia se transforma em maldade. Paralelamente a esta transformação simbólica do arquétipo da resistência em símbolo da maldade, ocorre também a transformação do arquétipo do controle no símbolo da bondade. Deus é bom, por inventar as normas. A bondade é corolário do poder, do saber e do ver.
O mito da queda de Lúcifer é a passagem simbólica que marca a invenção da ética nas sociedades ocidentais. O bem se confunde com o controle; o mal com a resistência. O mito de Lúcifer é também o mito da legitimação do poder."
Mais sobre o livro aqui.

Porra, isso é primoroso! Novamente, é difícil pensar num fdp capaz de parir uma visão de mundo como essa.

Pois bem, o Tulio respondeu na manhã seguinte, bem cedo. Marcamos de nos falar pelo telefone à tarde. Liguei pontualmente às 16h e conversamos longamente. Me apresentei com calma, contei um pouco mais do PapodeHomem, do que pensamos e como fazemos as coisas. Escutei dele como trabalha, o que pensa, como estava enxergando a coisa toda. O entendimento foi rápido.

Nada é melhor do que olho no olho, voz com voz, aperto de mão. Procuro resolver dessa maneira sempre.

Descobri que o Tulio é bastante interessado por direito autoral e propriedade intelectual, dois temas que venho estudando. São preocupações cada vez maiores em tudo que fazemos no PdH. Ele me indicou textos de sua autoria, que recomendo a todos agora. Encerramos em ótimo tom, e escutei dele:

"Saiba que se eu não gostar, vou criticar e meter o pau! Mas há males que vêem para bem."

E que assim seja! Estamos de acordo.

Me comprometi, perante o Eduardo, Tulio, Alex e Gitti, escrever um texto sobre plágios e semelhanças de textos que se torne referência para quando essa questão ressurgir no horizonte. Esse é, portanto, um relato honesto mostrando como uma quase-briga se transforma no começo de um relacionamento de respeito mútuo.

Aguardo as opiniões de cada um.

Conclusão: como resolver casos futuros...

Manual em um único passo: use a porra do telefone e faça contato direto.

Você plagiou o PdH? Acredita que nós plagiamos você? Quer nos reportar ou acusar de algo? Faça contato. Estamos aqui pra conversar e nos entender. O resto é resto.

Grande abraço!


publicado em 17 de Agosto de 2011, 16:20
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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