Por mais mulheres nos estádios de futebol

Isso pode se tornar a solução para mais de um problema

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Esse ano saiu uma matéria no globoesporte.com sobre a porcentagem de mulheres sócias nos clubes brasileiros.

Essa matéria informa que nos dois times gaúchos da série A do Brasileirão o gênero feminino representa 25% dos associados. Há tempos queria escrever sobre isso, mas como não estava conseguindo achar os números, fui deixando pra depois.

Todas às vezes que vou a outro estado assistir a jogos de futebol vejo a mesma cara de espanto das pessoas. Uma mulher, viajar pra ver um jogo ou ir sozinha num estádio em uma cidade que nunca desbravou, só pra conhecer, é algo normalmente muito estranho para as pessoas de fora do Rio Grande do Sul e isso sempre me intrigou.

Sempre vi mulheres em número considerável nos jogos aqui. Vou sozinha pro estádio desde os 17 anos e achava estranho tantas perguntas e tanto espanto. Mas indo nos jogos de outros times comecei a perceber que, realmente, as mulheres do Rio Grande do Sul se envolvem mais com o futebol. Fui a um Vasco x Nova Iguaçú esse ano e vi pouquíssimas torcedoras. Botafogo x Grêmio no Maracanã, no ano passado, idem.

No Morumbi? Acho que só vi uma mulher no meu setor de torcida visitante (que não era da torcida do Grêmio, mas do Botafogo-SP).

Em Salvador, cheguei a ganhar uma camisa do Bahia, tamanha a surpresa dos torcedores de lá ao descobrirem uma mulher fanática por futebol.

No Grêmio, clube do qual sou sócia, o quadro social tem 25% de sócios do sexo feminino. Nosso rival possui a mesma porcentagem. 

De 2006 pra cá, eu tenho notado um aumento da presença feminina nos jogos do Grêmio. Dessa época até agora, vejo uma diminuição da violência no estádio também. E eu acho que isso é muito relacionado. Tanto para as mulheres irem aos jogos quanto para a galera acalmar os ânimos por lá. Uma coisa leva a outra. Aliás, com mais mulheres no estádio, acredito que aumentaria o número de crianças, o que também ajuda a inibir a violência e formaria novos torcedores.

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Eu tenho absoluta certeza que com campanhas de incentivo a presença feminina aumentaria consideravelmente. E o que chamo de campanha de incentivo não é colocar cabeleireiro na Arena, como algumas pessoas já me sugeriram e eu tive que respirar fundo. Mas simplesmente ter um calção que sirva decentemente em uma mulher que joga futebol, já ajuda muito. Tenho calção do Grêmio masculino tamanho P e me vejo obrigada a jogar no estilo Gilberto Silva, com o calção amarrado com toda a força na altura da cintura pra não ficar caindo.

Só uso ele porque quero MUITO usar produtos do Grêmio e incentivar que outras pessoas façam isso e consumam produtos do Clube. Mas me sentindo desconfortável? É complicado. Sei que existe um calção feminino pra vender na Grêmio Mania, mas perdi as contas de quantas vezes entrei lá e não encontrei o produto.

Em uma pesquisa realizada em 2013 com 7.302 respondentes, dos quais 52% eram mulheres, o Grêmio foi apontado como resposta por 3,34% para a pergunta “Para qual time de futebol o Sr(a) MAIS torce ou simpatiza no Brasil?”. Tudo bem, não temos como saber quantas mulheres responderam que simpatizam com o Grêmio nessa pesquisa, mas é só pensar que no Rio Grande do Sul temos 392 mil mulheres a mais do que homens. Mais mulheres que homens no estado do nosso time. Porque não trazê-las para dentro do estádio?

Muitas pessoas me perguntam se eu acho que mulher deve ser isenta simplesmente por ter um gênero “diferente” do que vemos habitualmente nas arquibancadas. Não acho que deva ser isenta, mas se o Grêmio tivesse a meta de fidelizar torcedoras, acho que valeria à pena um plano de sócio mais barato para mulheres. Que cobrem R$20,00 por mês e ofereçam o ingresso com um bom desconto na bilheteria por 2 anos. Tenho absoluta certeza que muitas mulheres vão querer continuar sendo sócias depois que o plano acabar. Mulheres são muito fidelizadas à marcas.

Vou dar um exemplo.

Jogo futebol nas segundas-feiras com guris (e mais duas amigas) e na terça-feira com gurias. Nos dois dias somos mensalistas. Na segunda, somos 12 mensalistas. Dificilmente temos todos os pagantes nos jogos. As meninas são em 14 mensalistas e só não jogam por lesão ou aniversário da Mãe, de namoro, etc. E elas são malucas por isso. Marcam jogos extras durante a semana, marcam de ver os jogos juntas, avisam quando estão indo pro estádio, mas são poucas as sócias nesse grupo. 

Por que meninas tão fanáticas por futebol ainda não estão nos estádios? Acho que vale, sim, um período de experiência e incentivo.

Há quem ache que o estádio vai ficar mais monótono, sem tanta vibração. É o que achavam na Turquia, quando o Fenerbahce foi punido por uma invasão de campo e agressão a jornalistas em partida pela Copa dos Campeões da Europa contra o Shakhtar Donetsk, em 2011. A punição foi a proibição da entrada de torcedores do gênero masculino acima de 12 anos de idade no estádio por alguns jogos.

Apenas mulheres e crianças assistiram às partidas e o resultado foi mais de 46 mil pessoas no estádio em uma festa elogiada pelos jogadores. A iniciativa deu tão certo que a associação de futebol da Turquia resolveu reservar alguns ingressos para serem doados a mulheres e crianças com menos de 16 anos na temporada seguinte.

 

Teria inúmeros pontos para destacar aqui sobre como os estádios se tornariam mais agradáveis com um número maior de meninas neles. O Grêmio tem potencial para ter um quadro-social, no mínimo, com 40/60 na proporção mulheres-homens. E acho que esse incentivo para a mulherada se tornar sócia, enquanto não vem do Grêmio e dos outros times brasileiros, pode vir da torcida mesmo.

Levem as amigas, namoradas, filhas, sobrinhas e enteadas pra Arena. O fator estádio é de extrema importância na escolha de um time. Levem as crianças. Precisamos de mais sócios, de mais torcedores apaixonados e de mais tranquilidade nas arquibancadas. E acho que esse é um ótimo caminho para se conseguir tudo isso.

***

Nota editorial: esse excelente texto saiu originalmente no site Grêmio Libertador, mas gostamos tanto e consideramos a conversa tão relevante que resolvemos republicar. Agradecemos à Julia por nos autorizar.


publicado em 13 de Dezembro de 2015, 00:05
Autora

Julia Poloni

Diretora de arte que prefere escrever.


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