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Por quê?

Tanto eu quanto você, enquanto éramos crianças, passamos pela fase do por quê. Essa pergunta de duas palavras e seis letras era a nossa única ferramenta para entender o mundo e os fenômenos.

Por que o céu é azul? Por que você e a mãe se beijam? Por que aquele passarinho consegue voar? Por que está chovendo?

Quando chegamos na adolescência, fomos tomados por uma ridícula noção de que sabíamos de tudo. Não era mais necessário perguntar por quê. Mais do que desnecessário, era vergonhoso. Como assim você não sabe?

Por algum motivo, essa visão permanece com muitos de nós através da vida adulta. Paramos de perguntar. Temos medo de admitir que não sabemos. Parece feio assumirmos uma posição de principiante e admitir que queremos aprender o tempo todo. Não só na faculdade, não só naquele curso. Não só durante os três meses do período de experiência em um emprego novo, mas durante toda a vida.

Por isso eu tomei por hábito perguntar "por quê?". Assim, a seco. Faço isso sempre que uma abertura surge. Minhas conversas quase sempre começam com o bom e velho e aí, como é que você está?, mas pode ter certeza que quando eu conversar com você eu vou tentar arranjar uma brecha pra dar uma pausa e perguntar: "por quê?"

"Questione tudo" "Por quê?"

Talvez seja só impressão minha, mas eu vejo que fazer essa pergunta é como começar a brincar com uma matryoshka. É deixar claro que você quer ir além do nível superficial. Que você quer realmente ir mais ao centro das vida da outra pessoa, do que ela pensa, sente e está disposta a te contar.

As pessoas não esperam isso. Elas se assustam. Mas geralmente gostam. É como ir um nível mais a fundo nos sonhos de alguém -- e isso pode, ou não, ser uma referência ao filme A Origem.

Melhor ainda é quando me perguntam. Um "por que?" bem colocado, perguntado com um sorriso genuíno, ainda que tímido, é uma pergunta que me deixa sem saída. É me abrir ou me abrir. Eu posso escolher o quanto, mas alguma resposta eu tenho que dar, algum nível de abertura eu preciso conceder, diante de um interesse tão direto. E assim cria-se ou fortalece-se um laço que pode já durar ou anos ou ter começado há poucos minutos.

O "por que" é inimigo da superficialidade nas relações. Quando ele aparece, ficamos mais transparentes, menos protegidos.

Por quê? Não sei. Mas é uma boa pergunta.


publicado em 23 de Fevereiro de 2012, 12:30
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Fabio Bracht

Toca guitarra e bateria, respira música, já mochilou pela Europa, conhece todos os memes, idolatra Jack White. Segue sendo um aprendiz de cara legal.\r\n\r\n[Facebook | Twitter]


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