A conversa sobre paternidade é uma das mais importantes do nosso tempo. Venha para o PAI: Os desafios da paternidade atual, discutir e colocar em prática o tema.
Compre já o seu ingresso!

Por que fazer o simples é tão difícil?

No empreendedorismo, no design e até na tecnologia, as soluções simples são sempre as melhores, mas nem sempre é tão simples encontrá-las

A gente adora complicar.

Quem de nós nunca passou por um problema, pediu ajuda pra outra pessoa e ouviu: "simplifique" ou "você complica demais"? A gente adora complicar.

Eu não estava aqui, mas me contaram que na época da mudança do PapodeHomem da antiga plataforma para esta os debates sobre como as coisas deveriam funcionar foram muitos, mas uma coisa estava muito clara: ela deve ser simples, instintiva.

O resultado você, caro leitor, pode atestar melhor do que nós. Ainda estamos tentando resolver alguns bugs, mas descobrimos que a receita simples era a melhor: letra preta, fundo branco, tela limpa, bom conteúdo e a galera topa sim ler textos enormes na internet. Desde então é isso que procuramos fazer. Não textos enormes, mas bom conteúdo. Vocês me entenderam.

Mas sabemos que não é fácil conseguir isso e que, além do mais, nem todo mundo sabe disso. Quando encontramos esse texto escrito por Jory MacKay no blog da Crew, não pensamos duas vezes, pedimos pra Julia Barreto traduzir e aqui está ele para sua apreciação.

Deixe suas impressões sobre o texto (e sobre sua experiência na nossa plataforma) nos comentários, por favor.

A psicologia do simples, por Jory MacKay

Para um conceito que todos nós entendemos, “simples” é algo surpreendentemente difícil de definir.

Nós talvez “saberemos quando virmos”, mas para fazer um produto ou site simples, precisa-se mais do que só instinto.

Nas palavra de Steve Jobs:

“O simples pode ser mais difícil que o complexo: você precisa trabalhar muito para fazer com que sua mente esteja limpa o suficiente para tornar as coisas simples. Mas vale a pena no final, porque uma vez que chega lá, você pode mover montanhas.”

Se há tanto poder em criar coisas simples, por que tantos de nós falhamos?

Por que o simples é, assim, tão complexo?

Como a maioria das coisas na vida, vai além da aparente superficialidade da simplicidade. Aqui vai uma amostra de como o nosso cérebro compreende informações novas, porque algumas parecem mais simples que as outras e como podemos usar essas ideias em seu próximo projeto.

Fluência cognitiva e a preferência por protótipos

Em sua TED Talk Towards a science of simplicity, o professor de Harvard George Whitesides desconstrói “simples” em três características:

  • são previsíveis;

  • são acessíveis;

  • servem como tijolos;

A maneira mais fácil de começar é com a previsibilidade. Amamos coisas simples porque são fáceis para o nosso cérebro — ele não precisa trabalhar tanto para entendê-las. O que é ótimo porque nossas mentes trabalham em um ritmo alucinado.

Em um estudo de 2012 do Google e da Universidade de Basel, pesquisadores descobriram que os usuários julgam a beleza estética e a funcionalidade de um site de 1/20 a 1/50 de segundo. Em menos tempo do que precisamos para estalar os dedos, julgamos algo tão complexo quanto um website.

Os julgamentos que fazemos acontecem de maneira tão rápida que frequentemente parecem mais instintivos ou emocionais do que um processo mental.

Mas esses julgamentos estão sendo feitos pelo nosso cérebro. Só que não de um jeito que estejamos totalmente cientes.

Humanos são geneticamente programados para tomar decisões rápidas. O que se desenvolveu como parte da nossa reação de lutar ou fugir (para nos salvar de predadores na selva, obrigado, evolução) continua a ter uma influência tremenda nas nossas primeiras impressões de novos estímulos. Para nos ajudar a tomar essas decisões rapidamente, nosso cérebro cria atalhos baseados em expectativas ou elementos prototípicos.

Aqui está um exemplo do que estou falando: se eu perguntasse a vocês que cor você associa a meninos, a maioria iria instantaneamente imaginar azul (e rosa para as meninas). Você não precisa pensar ativamente na resposta. Está lá. Seu cérebro já fez essa conexão tantas vezes que acaba criando um atalho. Menino = azul acaba virando um protótipo.

“Tudo deve ser o mais simples possível, mas não mais simples que isso” — Albert Eistein

Psicólogos chamam essa preferência do cérebro por protótipos de fluência cognitiva. Ela é um fator importantíssimo do que faz algo parecer “simples”.

Fluência cognitiva é como nos sentimos sobre novas informações. É a experiência subjetiva da facilidade ou dificuldade de completar uma tarefa mental.

Se nós sentimos que é fácil (como saber que azul é para garotos), assumimos que é fácil. É por isso que Harmut Esslingen, o designer alemão que ajudou a desenvolver a icônica aparência dos produtos Apple nos anos 1980, seguia o princípio “a forma segue a emoção”.

Vamos usar um site como exemplo. Quando você visita um site pela primeira vez, há certos elementos prototípicos que você espera ver: coisas como a barra de navegação no alto ou a barra de rolagem, ou um “sair” no canto direito se for um site de e-commerce. Cada “tipo” de site, de uma revista on-line a um blog de moda, tem esses elementos prototípicos.

Quando um site não vai de encontro com essas expectativas, fica mais difícil para os nossos cérebros decodificá-lo, e quase automaticamente o julgamos como complexo demais ou com um design ruim.

Aprendendo a linguagem do simples

Existem outros fatores em jogo além da preferência por elementos prototípicos quando se trata do quanto um design simples é apelativo.

Desde os anos 1960, psicólogos vêm estudando o efeito de mera exposição a ideia de que o número de vezes que somos expostos a um certo estímulo afeta o quão positivamente nos sentimos sobre ele. É um daqueles conceitos que publicitários adoram explorar (é só pensar nos lugares terríveis que ficavam as produtos nos filmes De volta para o futuro), porque você não precisa necessariamente reconhecer conscientemente que já viu aquele estímulo antes.

Em um estudo de 2013, os psicólogos italianos Stefano Ruggieri e Stefano Boca dividiram 78 estudantes do Ensino Médio em dois grupos e os fizeram assistir trechos de filmes famosos. Para um grupo foram mostradas versões com os nomes dos produtos visíveis, enquanto o outro grupo assistia a uma versão que mascarava todas as identificações dos produtos. Depois do estudo, os grupos responderam perguntas sobre os filmes e sobre suas preferências de algumas marcas.

O grupo que viu a disposição dos produtos declarou uma preferência maior pelas marcas, mesmo quando as pessoas não as reconheceram nos filmes, quando comparado ao grupo de controle.

Contudo, não é só a exposição a elementos sozinhos que dita como nos sentimos. Outro fenômeno — o efeito beleza-na-média — mostrou que também somos mais atraídos a estímulos que incluem uma quantidade de elementos comuns. Vários estudos mostraram que rostos geralmente ficam mais atraentes quando são misturados (combinados) com outros, ou quando eles são alterados para ficarem mais parecidos com a média da população.

Média de 15 rostos femininos “atraentes”

A combinação de elementos prototípicos familiares é mais atrativa para o nosso cérebro, e mais fácil de entender, do que algo completamente único.

Simples — a combinação de beleza e funcionalidade

Fazer algo simples pode começar com fluência cognitiva, mas termina com facilidade de uso e acessibilidade.

Quando manipulamos ativamente informação, como ao acessar um novo site ou ao aprender a usar um novo produto, usamos uma parte do nosso cérebro chamada memória de trabalho. O único problema é que a memória de trabalho é uma coisinha enjoada. Como qualquer pessoa que perde o foco facilmente pode atestar, é difícil pensar em grandes quantidades de informações de uma vez. Na verdade, psicólogos descobriram que a nossa memória de trabalho geralmente suporta cerca de 7 “itens” de informação.

Usar esse conhecimento em seu design pode ser uma maneira poderosa de garantir que ele é o mais simples possível em seu uso.

Aqui vai um exemplo:

Quando a Apple estava desenvolvendo seu primeiro iPod, Steve Jobs aplicou um teste severo: se ele quisesse acessar uma música ou função, deveria conseguir em três cliques. E ele insistia que os cliques fossem intuitivos.

Apesar de toda a complexidade dentro de um iPod, Jobs sabia que para que nós, consumidores, nos sentíssemos imediatamente confortável com ele, o aparelho teria que ser ridiculamente simples. Isso significava ser familiar tanto em sua aparência quanto em seu uso (mesmo nós nunca tendo o visto antes). Não só fez a 'click wheel' nos passar simplicidade por sua ação ser prototípica, como usar a interface não era nem um pouco desafiador para nossa memória de trabalho.

Coisas simples tem uma barreira psicológica de entrada baixa. Somos capazes de usá-las sem nenhum tipo de treinamento.

Como aproveitar o poder do simples

Entender como o cérebro considera algo simples é um ótimo começo, mas de que outro jeito você pode garantir que o que você está fazendo seja visto como simples?

1. Roube do passado

Como já deve estar claro (espero) até aqui, elementos prototípicos são a base da simplicidade. Isso significa ter um conhecimento aprofundado das expectativas dos usuários.

Olhe para os produtos ou site de seu concorrente. Quais são os elementos em comum? O que as pessoas esperam ver (ou ler ou ouvir) quando vêm até você? Defina esses elementos e os alavanque para fazer com que seu produto seja instantaneamente familiar e fácil.

2. Crie suas próprias disposições de produto

Tudo que você faz, do seu website até o seu logo ou histórico no Twitter, transmite uma mensagem sobre você e sobre sua marca. Cada um desses elementos também é uma oportunidade única para criar familiaridade visual em torno de sua empresa (lembra do efeito de mera exposição?).

Use um quadro de humores para criar um guia de estilo de design. Use fotos da mesma fonte em todos os seus post e sites. Crie uma paleta de cor que você use em todas as mídias.

O que quer que você faça, mantenha em mente que quanto mais familiaridade você desenvolver com a sua audiência, mais simples e atraente eles vão te achar.

3. Seja “o mesmo mesmo, mas diferente”

Essa é uma das minhas frases favoritas, que aprendi com as crianças da Indonésia tentando vender de tudo, de braceletes a scooters.

“O mesmo mas diferente” basicamente significa algo que é parecido o suficiente com o que você quer (ou está acostumado), mas tem sua própria característica comercial única (que faz com que você queira mais). Nos termos do simples, isso significa usar aqueles elementos prototípicos que são tão importantes, mas ainda adicionando inovação e singularidade para que a sua versão se destaque em nossas memórias. Uma pequena divergência pode ser uma coisa boa.

O título do primeiro panfleto de marketing da Apple, em 1977, proclamava: “Simplicidade é a sofisticação máxima”.

Mas acho que eles entenderam ligeiramente errado.

Simplicidade não é necessariamente sofisticação, mas sim conforto. É o único amigo em uma festa. É o enroladinho de salsicha numa mesa de aperitivos. É as pequenas coisas que te acalmam imediatamente.

Ache um jeito de usar o simples em sua vantagem e deixe seus usuários ou audiência instantaneamente confortáveis. Pense em quais são as expectativas deles e como você pode alavancar os atalhos mentais para criar algo simples, bonito e o mesmo mesmo, mas diferente.

Crédito das imagens: Nelly Volkovich, Ars Techinca, Greg Shield, The Face Research Lab.

Levamos o simples muito a sério no Crew. Clique aqui para se juntar às  7,034 pessoas que recebem nossa newsletter semanal com maneiras simples de trabalhar de maneira mais inteligente e redefinir sua criatividade e produtividade.


publicado em 28 de Agosto de 2016, 00:10
Breno franca jpg

Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura