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Por que nos apaixonamos por quem nos faz sofrer?

Você é do tipo que só se mete em relacionamentos problemáticos? Eis o porquê.

"Eu me apaixonei pela pessoa errada", já diriam os poetas do Exaltasamba. 

A música pode até ter um certo tom de comédia, mas a realidade está mais próxima disso do que parece. Não somos muito bons em escolher parceiros.

Basta olhar pro lado. Quantas vezes não vimos nossos amigos entrando em dinâmicas de relacionamento obviamente aflitivas, com consequências que fazem a gente botar a mão na cabeça e gritar, desesperados, "cara, eu não acredito que você está fazendo isso!".

Pois é, mas pra cada amigo que já olhamos dessa forma, tem outros dez olhando pra nós do mesmo jeito. Não estamos imunes a cair nessas dinâmicas e fazer um monte de besteira que não é útil pra ninguém.

O Alain de Botton publicou no canal da School Of Life um vídeo baseado em um capítulo de um de seus livros, o The Book of Life, o qual trata desse tema: por que insistimos em escolher parceiros complicados para nos relacionar?

Eu traduzi o capítulo, mas para quem deseja assistir, também coloco o vídeo. É só dar o play ou ler o que está em seguida.

Link Youtube

Por que escolhemos parceiros difíceis?(Alain de Botton)

Teoricamente, somos livres pra escolher o tipo de pessoas que amamos. Nós devemos ter escolhido alguém, não estamos sendo forçados a entrar em um relacionamento por convenções sociais, casamentos arranjados ou imperativos de dinastia. 

Mas na realidade, nossa escolha é menos livre do que imaginamos.

Algumas restrições muito reais sobre sobre quem podemos amar e nos atrair vem de um lugar no qual nós podemos não pensar em olhar: nossas infâncias. Nosso histórico psicológico nos predispõe fortemente a nos apaixonar apenas por certos tipos de pessoas.

Nós amamos segundo caminhos formados na infância. Procuramos por pessoas que de muitas maneiras recriam os sentimentos de amor que conhecemos quando éramos pequenos. O problema é que o amor que recebemos na infância dificilmente é composto de generosidade, carinho e bondade. 

Dada a forma como o mundo é, o amor tende a  vir entranhado com certos aspectos dolorosos: um sentimento de não ser bom o bastante; um amor por um parente que era frágil ou deprimido; um senso de que não se pode ser totalmente vulnerável perto de um cuidador. 

Isso nos predispõe a procurar na idade adulta por parceiros que não necessariamente serão gentis conosco mas que vão - mais importante do que isso - nos parecer familiares; o que pode ser sutil, mas é importantemente diferente.

Podemos ser levados a desviar o olhar de potenciais candidatos por que eles não satisfazem um anseio pelas complexidades que associamos ao amor. Podemos descrever alguém como "não sexy" ou "chato" quando na verdade, queremos dizer: "dificilmente vai me fazer sofrer na do jeito que eu preciso para sentir que o amor é real". 

É comum aconselharmos pessoas que estão atraídas por candidatos complicados a simplesmente deixá-los e tentar encontrar alguém mais saudável. Isso é, ao mesmo tempo, atrativo na teoria e muitas vezes impossível na prática. 

Não podemos magicamente redirecionar os ventos da atração. Ao invés de mirar por uma transformação nos tipos de pessoas aos quais nos atraímos, pode ser mais sábio simplesmente ajustar como respondemos e nos comportamos ao redor das ocasionais características difíceis de quem nosso passado ordena que vamos achar atraentes.

Nossos problemas são frequentemente gerados por que continuamos a responder a pessoas atraentes da forma como aprendemos a nos comportar quando crianças ao redor desses modelos. Por exemplo, talvez nós tivemos pais raivosos que costumavam levantar a voz. Nós os amávamos e reagíamos sentindo que quando eles estavam com raiva, nós deveríamos nos sentir culpados. Ficamos tímidos e retraídos. 

Agora, se um parceiro (por quem estamos atraídos) fica irritado, respondemos como crianças abatidas: nos entristecemos, sentimos que é nossa culpa, nos sentimos merecedores do criticismo, geramos um monte de ressentimento. Talvez, tenhamos nos atraído por alguém com pavio curto - o que nos faz estourar também. Ou, se tivemos um pai ou mãe vulnerável, que se machucava fácil, nós prontamente terminamos com um parceiro que também é um tanto fraco e demanda que tomemos conta dele; mas então, ficamos frustrados com a sua fraqueza - nós o estimulamos, tentamos encorajá-lo e tranquilizá-lo (como fazíamos quando éramos pequenos) mas também condenamos essa pessoa por não ser merecedora.

Nós provavelmente não podemos mudar nossos modelos de atração. Mas ao invés de procurar reprojetar nossos instintos, o que podemos fazer é tentar aprender a reagir a candidatos atraentes não como fazíamos quando crianças, mas de formas mais maduras e construtivas como um adulto racional reagiria. Existe uma oportunidade enorme de mudarmos nossa resposta em relação às dificuldades às quais nos atraímos de um padrão infantil para um mais adulto.

É quase certeza que estamos com alguém com um conjunto particular de questões que desencadeiam nossos desejos e nossos movimentos defensivos infantis. A resposta não é terminar o relacionamento, mas sim lidar com os desafios com um pouco da sabedoria que não fomos capazes de ter quando nos deparamos pela primeira vez com eles, na forma dos nossos pais ou cuidadores. Provavelmente não está ao nosso alcance uma pessoa totalmente adulta. Mas está sempre ao nosso alcance nos comportarmos de formas mais adultas quando perto dos traços menos maduros dos nossos parceiros.


publicado em 20 de Março de 2018, 00:00
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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