Por que o cinema não assume a sua nudez?

Gente pelada na tela do cinema sempre gera falatório, mas Hollywood parece não ter muito orgulho disso.

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A indústria cinematográfica vive se fazendo de transgressora, moderninha, diferentona, cheia das novidades, colocando ações cada vez mais quentes nas telonas dos cinemas… O público vai à loucura quando suas atrizes e atores preferidos estreiam uma nova cena escandalosa. A bilheteria e o diretor agradecem, os jornalistas, por sua vez, ficam desvairados só de pensar nas manchetes que poderão criar sobre todas aquelas cenas despudoradas e os atores, esses se preocupam.

O jornalista pergunta: “O público quer saber? Como foi fazer aquela cena? Aquela em que você aparece nua? Você usou dublê? Foi computação? E seu marido? Como ele lidou com o fato de você ter de se relacionar com outro homem? Você deixaria seus filhos assistirem?”

Depois de cenas quentes em Amizade Colorida, Mila Kunis responde que, claro, usou dublê de bunda, afinal “já tinha mostrado o ladinho do seio e não dá pra mostrar tudo de uma vez. Tem que ir liberando aos poucos.” Natalie Portman também usou dublê de bunda porque “não tinha um traseiro assim, igual o da moça”.

Mesmo no mundinho elevado do cinema, as dublês de corpo sustentam o velho jogo da donzela: a atriz resguarda sua pureza para barganhar melhores dotes, enquanto outra mulher aceita menos para atender as demandas das salas de cinema. No caso da Natalie Portman, e de mais algumas centenas de atrizes e atores, o dublê entra em jogo nem tanto pra guardar o corpo pra depois, mas, em partes por vaidade e, principalmente, pra poupar uma encheção de saco. Imagina se o Chris Hemsworth aparece de cueca, com aquele corpão todo, sem um volume tão grande quanto seu peitoral pra preencher o pacote?

Pessoalmente, nada contra, mas os jornalistas vão falar, e o público vai falar, e o ator não tá afim de responder, então, chama logo o outro cara.

Conforme os filmes vão ficando mais quentes os recursos vão ficando cada vez mais tecnológicos. Em Ninfomaníaca, a cena de sexo oral no trem foi feita com uma prótese, as outras, em que aparecia aquilo naquilo sem lençol para cobrir, eram montagens que enfiaram a cabeça dos figurões do cinema nos corpos de atores pornôs. Em Azul é a cor mais quente, a longa sequência em que Adele e Emma se descobrem na cama também, claro, foi gravada com prótese (por mais que não pareça…).

Não é nenhuma notícia quente falar que diversos diretores já aproveitaram e continuam aproveitando do seu poder de chefe do set pra abusar de atrizes. Nesse sentido, usar as próteses traz um conforto porque protege as profissionais de algumas intimidades. Ajuda, mas também não garante que não existam outros abusos. Lea Saydoux falou que o diretor obrigava as duas meninas a ficarem nuas durante dias e a repetir a cena constantemente, mesmo usando prótese. Acaba que essa história de recobrir a genitália real por uma de silicone caríssimo cria, sobretudo, uma proteção moral.

Os filmes são assim, pequenas banheiras de hoteis nas quais mergulhamos e nos deleitamos esquecendo por uma hora ou duas que aquilo não é parte da realidade e do dia a dia. Ali vivemos prazeres e vemos coisas que nem cogitamos fazer na vida real: os sexos mais loucos, com manteiga, aos prantos, em público, usando algemas, segurando picadores de gelo etc. Mas tão logo sobem os créditos e, sabendo que é uma atuação, o espectador se coloca nos sapatos dos atores e imagina como seria representar aquilo. Porque é preciso fazer ao menos parte do que se mostra, não? Então começa uma corrida incessante por respostas e justificativas.

O público quer ver? Claro que quer. Mas quer depois a garantia de que suas estrelas idolatradas ainda são pessoas de bem, sabe? Que não se sujeitam a esse tipo de coisas sem recorrer a truques de efeitos especiais. “Claro que não! A fulana é casada com o ciclano, ele também é ator e entende que tem beijos técnicos, cenas românticas, mas essa cena… sabia que tinha truque! Ela é uma ótima atriz, não precisa se sujeitar a essas coisas!”

Matilde Mastrangi, das atrizes brasileiras que mais filmou pornochanchada (A Noite das Taras, Erótica, Fêmea sensual e mais outros 30 títulos), tinha de tirar a roupa todinha e confiar na angulação e na luz dos seus diretores. Nos estúdios da boca do lixo, com equipes de menos de uma dúzia de pessoas, três refletores e uma câmera, não havia orçamento para resguardar honras e vaidades. As cenas provocantes da pornochanchada não chegavam ao explícito, mas abusavam das insinuações. O corpo era instrumento de trabalho e estratégias de marketing, tudo ao mesmo tempo. Mamilos, cofrinhos e torsos descamisados iam pros cartazes, as celulite e pentelhos ficavam pro escurinho do cinema.

Poucas foram as atrizes de chanchada que foram parar na TV (como a Vera Fischer e a Xuxa). Matilde não foi famosa da TV. Ela, assim como outras atrizes da pornochanchada, não pertenceram a ambientes luxuosos de estrelas. A fama vinha só mesmo pelo público, povão, que assistia um filme atrás do outro e saia falando.

Durante séculos, atrizes, cantoras e prostitutas pertenceram a uma mesma categoria: a das mulheres da noite, da vida. A briga foi tanta para consagrar a primeira e a segunda como profissões de respeito, que até hoje é preciso um esforço enorme para manter distância da terceira.

É nessa tentativa constante de justificar e separar o joio do trigo, o nu artístico do pelado-pelado-mesmo, que a indústria do cinema deixa à mostra suas pequenas caretices.

Ou será que, no fundo, no fundo, o conservadorismo dos produtores, diretores e atores nada mais é do que uma armadura para se proteger das críticas e julgamentos que vem de fora?

Mecenas: Magnífica 70

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Quando a realidade se torna insustentável, a ficção é a única saída.

A década de 1970 representou anos incríveis: se a realidade era dura, a solução era encontrar fugas. Fossem elas as músicas de Jimi Hendrix; as atuações de Marlon Brando; as jogadas de Pelé; ou a liberdade sexual. Imersa nessa atmosfera, Magnífica 70 mostra o confronto entre o desejado e o proibido, a vontade e a repressão, a liberdade e o preconceito.

Na primeira temporada disponível na HBO GO, Vicente é um paulistano que leva uma vida acomodada e reprimida até começar a trabalhar na produtora de filmes Magnífica e se envolver em golpes e triângulos amorosos. Mas Dora, uma atriz sedutora e viciada, retorna nesta segunda temporada para enfrentar seus dilemas, tentar se livrar da polícia e entregar a conta da farra.

A segunda temporada de Magnífica 70 será transmitida todos os domingos às 22h na HBO Brasil, e os episódios também estarão disponíveis na HBO GO simultaneamente.


publicado em 07 de Novembro de 2016, 11:54
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Gabriella Feola

Jornalista, viajante, apaixonada por músicas latinas e acredita que sexo deveria ser tão conversado quanto esportes.


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