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Por que o empreendedorismo talvez não seja a solução dos nossos problemas

Uma análise rasa pode indicar que o empreendedorismo é a solução, mas se você for mais fundo perceberá que não é bem assim

Nota da edição: este artigo surgiu a partir do comentário de um dos nossos textos. Se você também quiser publicar no PapodeHomem, neste link explicamos o que você deve fazer.

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Na busca por soluções para os mais diversos tipos de problemas, o empreendedorismo vem ganhando uma atenção crescente suportado por alguns discursos quase proselitistas, cujos impactos já foram abordados aqui no PapodeHomem. Ele consegue atender às expectativas tanto daqueles que buscam se realocar no mercado de trabalho quanto dos que trabalham pra edificar um mundo com oportunidades mais justas e facilidades melhor distribuídas a todos, sendo valorizado por sua agilidade e flexibilidade.

Apesar de ser inegável o potencial da ação empreendedora, aqui pretendemos contrapor a visão de muitos de que ela por si só é capaz de resolver todos os problemas para os quais é proposta, basicamente através de duas abordagens: o emprego e o bem-estar social.

O problema do emprego, parte 1: o empreendedor

Empreender é quase sempre visto como uma solução para a escassez de empregos na nossa sociedade. Toda vez que alguém é demitido do lugar onde trabalhava durante anos, logo vem aquele velho conselho: "por que você não pega essa grana que recebeu e abre o próprio negócio?"

Numa vertente mais tradicional da noção de empreendedor – onde este abre uma empresa para atender a seus clientes – é impossível uma sociedade em que todos sejam empreendedores, pelo problema básico do “muito cacique pra pouca tribo.”

Imagine a seguinte situação: diversos empreendedores decidem viver numa aldeia onde eles consomem mutuamente seus produtos. Não demora muito e começa a faltar tempo para que cada membro dessa comunidade hipotética consiga usufruir das dezenas de bens fornecidos pelos seus pares. Não bastasse isso, eles logo se dão conta de que ninguém se preocupou ou conseguiu oferecer serviços de telecomunicações, energia elétrica e alguns bens de consumo, pois estes dependem de cadeias muito complexas de produção.

"Quem vai cuidar da transmissão de energia elétrica?"

O empreendedor dessa vertente mais tradicional necessita de empregados que o auxiliem no seu trabalho, seja em uma padaria ou em uma franquia. Adicionando isso ao capital inicial primordial para a abertura de uma pequena empresa, vemos que além dessa modalidade de empreendedorismo não ser uma solução para todos, ela só poderá sê-la para pouquíssimos.

O problema do emprego, parte 2: o freelancer

Uma segunda vertente mais moderna do empreendedorismo é o freelancing, onde o empreendedor presta serviços a outra empresa, substituindo uma rígida relação patrão-empregado por uma alternativa supostamente mais fluida fornecedor-consumidor. Nesse contexto o freelancer teria a possibilidade de trabalhar para múltiplos patrões, de forma remota –chegando até ao trabalho nômade –, flexibilizando também seus expedientes.

Todavia, uma inserção precária nesse mercado reserva aos freelancers trabalhos por ordenados baixíssimos ou nulos – apenas como forma de divulgação –, inexistência de garantias trabalhistas – como descanso semanal, férias remuneradas, aposentadoria –, entre outros.

É engraçado pensar que alguns dos fatores que vão diferenciar se a inserção no mercado será positiva ou precária são: (1) a reputação, (2) a dependência que o contratante terá do trabalho do freelancer e (3) o quão facilmente ele pode ser substituído.

Acontece que o caminho para a construção de uma reputação no mercado passa muitas vezes pela aceitação de trabalhos com remunerações e prazos exíguos e são poucos que terão condição de passar por essa fase de vacas magras. Paradoxalmente, uma forma segura de se construir uma reputação, até sugerida em artigos especializados, é ter trabalhado em um emprego tradicional anteriormente.

Os jornalistas ainda precisam estar em determinados lugares para construir reputação.

Pense em um jornalista que trabalhou por anos em uma empresa eminente dessa área e pôde construir uma identidade de seus textos perante aos pares e ao público, além de uma rede de fontes para suas matérias. Ao entrar na carreira de freelancer ele vai desfrutar de uma imagem a qual o destaca no meio de todos os jornalistas freelancers disponíveis, o que facilitará para ele a negociação de seus trabalhos.

Entretanto, a abundância de trabalhos operacionais, onde é fácil a troca de profissionais, e a desproporção de poder entre contratante e contratado são indicativos de que o freelancing apresenta-se apenas como uma experiência de precarização do trabalho para essa maior parcela de trabalhadores.

O caso dos motoristas do Uber norte-americanos que estão se sindicalizando e promovendo greves é bastante emblemático nesse sentido. Eles questionam temas como o aumento no repasse feito à plataforma, baixos valores de corridas a ponto deles ganharem menos do que um salário mínimo e os riscos que os motoristas têm que assumir como seguro e a manutenção dos carros. Essa matéria mostra muito bem como é o cenário para os motoristas do Uber em metrópoles dos Estados Unidos.

"Uber, economizando às custas dos motoristas desde 2010."

A busca pelo bem-estar social

O caso mais famoso do empreendedorismo social é o Grameen Bank. Fundado pelo professor Muhammad Yunus, ele faz microempréstimos a pessoas pobres para que elas possam investir em negócios próprios. Iniciado em Bangladesh, país de origem de Yunus, os empréstimos tiraram várias pessoas das mãos de agiotas, empoderou mulheres que viviam oprimidas em um regime patriarcal e desenvolveu economias regionais que estavam estagnadas pela pobreza extrema. Isso tudo gerou bem-estar para milhares de impactados e essa iniciativa e seu autor foram premiados em 2006 com o Prêmio Nobel da Paz.

Entretanto é difícil imaginar o empreendedorismo social resolvendo, sem articulação com o estado e em grande escala, questões de suma importância como saneamento básico, educação, segurança e saúde pública. O empreendedorismo social tem uma ação mais aguda em um determinado nicho e para alcançar estágios maiores passa por investimentos diretos e indiretos do estado. Os problemas citados necessitam de fortes investimentos em infraestrutura, qualificação e remuneração dos profissionais envolvidos.

Vamos exemplificar melhor esses dois pontos.

O GRAAC, uma das mais eminentes instituições de empreendedorismo social no Brasil, atende a crianças e adolescentes com câncer. Ele possui um centro de pesquisa que trabalha em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e um hospital em Botucatu atendendo três mil pessoas/ano.

O impacto que traz ao tratamento e à vida dos seus pacientes é essencial, todavia o tamanho do público e o seu escopo representam um pequeno percentual em um sistema de saúde de um país com mais de 200 milhões de habitantes.

O GRAAC recebe verbas diretas do SUS, além de doações empresariais feitas através de renúncia fiscal – que seriam os investimentos indiretos do estado.

Já o sistema educacional da Finlândia, de qualidade reconhecida por indicadores internacionais como o Pisa, também serve como exemplo e tem seu sucesso baseado em múltiplos fatores dentre os quais uma estratégia uniforme bem definida pelo governo local, oferta gratuita, boa remuneração e qualificação dos docentes, já que é mandatória para a função a conclusão do mestrado. Nesses casos, a intervenção estatal é imprescindível, apesar da ineficiência dele em alguns casos. A existência da ineficiência estatal não significa que ela seja inerente.

Sistema Educacional da Finlândia é um exemplo serviço público que depende de altos investimentos em infraestrutura, qualificação e remuneração.

A ação empreendedora é ágil e bastante inovadora, contrastando com a burocracia de grandes instituições e do Estado. Entretanto, devemos ser cautelosos com o poder que ela tem na resolução de problemas altamente complexos como emprego, saúde, educação, questões que necessitam de análises profundas e soluções igualmente complexas.

O crescente hype em cima do empreendedorismo pode causar nebulosidade na discussão desses problemas, apontando para soluções de baixa eficácia. O empreendedorismo deve ser estimulado, mas longe de um discurso panfletário que o projete como a panaceia do mundo neste início de século 21.


publicado em 07 de Março de 2016, 14:37
Gustavo barreto

Gustavo Barreto

Interessado em como o trabalho pode promover saúde às pessoas, em uma miríade de esportes e em novas formas de se jogar conversa fora. Pode ser encontrado no Facebook.


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