Por que resolvi viajar pelo Brasil

Um percurso sobre como viajar mais pelo Brasil e entender que temos muito, mas muito mais do que pensamos a oferecer em viagem e turismo

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Eu estava há horas sozinho na praia mais bonita do mundo. Depois de boiar por alguns minutos nas águas esverdeadas, mergulhei. Assim que voltei à superfície, ouvi um barulho. Alguém tinha entrado na água. Olhei para o lado e me surpreendi. Minha companhia não era gente, mas uma simpática tartaruga. E das grandes.

Essa experiência, uma das mais marcantes que já tive em viagens. Não foi numa praia paradisíaca da Ásia ou em alguma ilha perdida no Pacífico. Foi no Brasil. Eu estava na Baía dos Porcos, em Fernando de Noronha, apontada diversas vezes por veículos de comunicação como a mais bonita do planeta.

Baía dos Porcos, Fernando de Noronha

E concordo. Quando o assunto é praia, nunca pisei num lugar mais lindo. Noronha é imbatível. Sem bairrismo, vence até as praias da Tailândia e da Indonésia, seja por conta das paisagens espetaculares ou da vida marinha, que encanta quem resolve mergulhar e fazer snorkeling.

A busca pelo novo, pelo diferente, nos leva a cruzar fronteiras. Entendo bem o desejo de conhecer outras culturas e povos, tanto é que viajei por duas dezenas de países antes de voltar os olhos para o Brasil. Até 2015 eu conhecia pouquíssimos lugares em nosso país, mas já tinha percorrido longamente países como Itália, Argentina e Índia. Mas, desde o ano passado, mudei as rotas das minhas viagens, por motivos profissionais e por conta da desvalorização do real frente ao dólar. Passei a viajar mais por terras verde e amarelas. Viciei - e não pretendo parar tão cedo.

Que falar das Cataratas do Iguaçu, na fronteira com a Argentina? Quando eu estive lá, fiquei sem palavras. Mas não foi essa a reação de todos os viajantes. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, o primeiro ocidental a ver as Cataratas, soltou um “Santa Maria, mas que beleza!”, isso em 1541.

Santos Dumont teria se equilibrado no galho de uma árvore, tudo para garantir uma vista melhor, enquanto Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos, soltou um “Pobre Niágara”, ao comparar as caratas sul-americanas com as da fronteira dos Estados Unidos com o Canadá.

Tudo isso serve para explicar um número. Segundo o Fórum Econômico Mundial, o Brasil é o país com maior potencial turístico em recursos naturais do mundo, na frente de Austrália e Estados Unidos. Nossos 71 parques nacionais guardam belezas incríveis, mas que poucos brasileiros já conheceram.

Cachoeira Fumacinha, Chapada Diamantina

Ao viajar pelo Brasil, me deitei numa rede, na beira da praia, e curti o vento formar ondas nas lagoas de Jericoacoara, no Ceará. Vi a imensidão alaranjada do Jalapão, com a Serra do Espírito Santo de fundo. Essa região do Tocantins é maior que o Sergipe e tem uma das menores densidades populacionais do Brasil - apenas 0,8 pessoas por km². O Jalapão é nosso Monument Valley, nosso Velho Norte.

Me emocionei com a Amazônia e seus superlativos: rios que parecem mar, ilhas maiores que países inteiros, viagens de barco que levam dias e sabores que boa parte dos brasileiros (infelizmente) não faz ideia que existem. A Amazônia é o Brasil quente, úmido e sul-americano.

Conheci vilas coloniais no sul do país, onde os traços de imigração ainda são fortíssimos, vi de perto a beleza das cachoeiras de nossas chapadas, como o próprio Jalapão, mas também a dos Veadeiros, em Goiás, e suas quedas d’água de cores surreais.

E, por mais que você viaje anos pelas estradas do quinto maior país do globo, ainda faltarão lugares incríveis para conhecer. Falta falar das intermináveis praias, das cidades históricas mineiras, das chapadas Dimantina, das Mesas e dos Guimarães. Da Serra do Cipó, do Pico da Bandeira, do Pantanal e de Bonito, dos nossos cânions, como o do Xingó, no Sergipe, e o de Capitólio, em Minas Gerais. E do Monte Roraima.  

Parque Estadual do Jalapão, em Palmas

É preciso todo o tempo do mundo para conhecer profundamente as belezas, gastronomia e vida noturna de nossas capitais, seja São Paulo, Porto Alegre, Belém ou Rio de Janeiro. Regiões metropolitanas que guardam lugares e segredos que não foram visitados por muitos de seus moradores. Não falta morador do Rio que nunca viu de perto o Cristo Redentor; não falta belo-horizontino que nunca deu as caras em Inhotim.

E ainda tem a Serra da Capivara, no Piauí, um lugar que eu sonho há anos em conhecer, mas que, como acontece com todos nós, vai ficando para trás na listinha de desejos viajantes por causa daquela complicada necessidade de fazer escolhas. A Serra da Capivara tem 800 sítios arqueológicos catalogados,  quase 30 mil pinturas rupestres, uma das maiores coleções do tipo ao ar livre do mundo. O paraíso para qualquer fã do Indiana Jones e uma das provas de que sim, a nossa História começou muito antes do desembarque dos portugueses.  

Por falar no Piauí, o estado faz parte de uma triste listinha de destinos que ainda não foram descobertos pelos turistas brasileiros - e olha que lá fica também o Delta do Parnaíba, que, junto, com Jeri e os Lençóis Maranhenses, faz parte da Rota das Emoções, um roteiro incrível e simples de seguir, passando por três estados.

Os Lençóis Maranhenses

Assim como o Piauí, o Espírito Santo é outro segredo a ser revelado. Um estado que junta serra e praias lindas a curtas viagens de carro de Vitória, que tem gastronomia para conquistar todos os gostos, vilas coloniais, praias paradisíacas e muita, muita história para contar.

Do Espírito Santo para o Centro-Oeste, para o Norte, para Sul ou para os pontos nem tão conhecidos assim do Nordeste e do Sudeste: ainda temos muitos lugares, sabores e cores para conhecer. E bastou encarar a estrada para derrubar um mito que há anos eu cultivava, uma espécie de justificativa para viajar mais pelo exterior que pelo meu próprio país: eu descobri que passar as férias no Brasil não é necessariamente caro.

Sabe aquela história de que passar uma semana no nordeste custa mais do que viajar para a Europa, para o Caribe ou para os Estados Unidos? Pode acontecer, mas não precisa ser assim. É obvio que viajar pelo Brasil poderia - e deveria -  ser mais barato.  Até o Ministério do Turismo, a Embratur e o IBGE já assumiram isso. Mas a verdade é que com planejamento tudo fica mais em conta.

A única viagem realmente cara que fiz pelo Brasil foi para Fernando de Noronha. Bonito e Monte Roraima, que ainda não conheço, também não têm fama de serem destinos baratinhos, mas, em geral, nunca gastei absurdos para fazer viagens pelo Brasil. Até a Amazônia eu conheci gastando pouco - menos de R$ 300 pelas passagens para Belém, com taxas, e valores super aceitáveis para ficar em hotéis e hostels no norte do país.

A Ilha de Marajó, no Pará

Para economizar é preciso ter planejamento, na mesma medida que costumamos ter quando viajamos para outros países. Ao viajar para o exterior, é normal comprar as passagens meses antes, reservar hotéis com antecedência e até mesmo estar disposto a fazer certas economias durante a viagem. Por outro lado, muitas vezes não queremos fazer o mesmo esforço ao viajar pelo Brasil. É claro que uma passagem comprada de última hora para o nordeste, em pleno carnaval, vai ser caríssima. É claro que às vezes uma viagem de ônibus pode ser uma opção mais barata que o avião.

Se, na ponta do lápis, dinheiro não é a grande questão, fica a certeza: nosso país, apesar da quantidade absurda de problemas, desafios e dificuldades típicas do mundo em desenvolvimento, vale cada quilômetro rodado. Que bom que são muitos.

Este é o primeiro texto de uma série que vai sair quinzenalmente aqui no PapodeHomem. A ideia é dar o passo-a-passo para viajarmos pelo nosso país. Nos próximos textos, falaremos sobre como viajar pelo Brasil de forma econômica, como pensar roteiros de viagens e sugestões de lugares interessantes por terras verde e amarelas.


publicado em 03 de Agosto de 2016, 00:10
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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