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Por que só é permitido entrar na Câmara dos Deputados de paletó e gravata?

Existe uma regra -- escapa da minha compreensão se por força de lei ou pura falta do que fazer -- que impede a entrada de qualquer um ao Congresso sem um traje "apropriado". Leia-se: paletó e gravata, o chamado "passeio completo". Esta regra já seria estúpida se fosse aplicada somente aos parlamentares, mas ela beira o ridículo quando é aplicada indistintamente entre todos os que por lá passam.

A Casa do Povo (ou partes dela) só pode ser visitada por aqueles com condições financeiras para arcar com ao menos um terno e uma gravata. Mesmo os modelos mais simples corresponderiam a um considerável rombo no bolso de um cidadão humilde.

Ele é a resistência, abestado

A intenção da regra é absolutamente clara: é censitária. Só podem adentrar à Casa do Povo aqueles que os parlamentares consideram povo. Ou seja, os de sua classe, os capazes de arcar com os custos do privilégio de se estar no centro de poder do país.

Índios, pobres, ribeirinhos, camponeses, enfim, o verdadeiro povo brasileiro, não é bem vindo à casa. Que, por lei e por direito, é sua.

Vez ou outra algum rebelde descumpre as regras, mas muitas vezes paga o preço por isso. O deputado Estadual de Minas Gerais Fred Costa (PHS) quase enfrentou processo por quebra de decoro -- isso mesmo, quebra de decoro -- por aparecer de tênis, jeans e camiseta em uma reunião de uma das comissões da casa.

Ele teve ainda o desplante, segundo contam, de afirmar que “Quanto mais pobre o circo, mais enfeitados os palhaços. Precisamos aqui é nos ater à produtividade”. E está correto. Mas o fundo de sua reclamação, porém, ou sua justificativa, é o calor que faz no Brasil, o que tornaria insuportável o uso do paletó.

Não há como discordar, mas é fato que o problema é mais embaixo. Muito mais.

O controverso Tiririca, como você viu acima, é outro que causou (e ainda causa) polêmica por não abrir mão do jeans, mesmo usando o paletó e a gravata. Só não foi barrado porque a regra, pasmem, não é escrita. No Senado, porém, a regra é escrita, sim, e cumprida à risca. A tentativa do Senador Gerson Camata (PMDB) de tentar mudá-la foi rejeitada pela mesa em 2008. Lembrando que trata-se de uma regra interna e não de uma lei. Ou seja, é apenas uma demonstração de estupidez localizada, ainda que valha a mesma regra, mesmo que oralmente, para assembleias/câmaras dos estados e municípios.

Acrescentando, as mulheres também devem se vestir apenas com tailleur ou vestido. (Só a partir de 1997 elas ganharam o direito de usar calças sociais!) Patriarcalismo e sexismo elevados à máxima potência.

Mudando de mulheres para índios, veja abaixo uma foto do Cacique Juruna, o primeiro (e até hoje único) indígena a entrar na Câmara dos Deputados.

Tribo estranha

O fato de ser o único indígena a "chegar lá" já nos diz muita coisa, mas reparem na quase comicidade de sua figura usando um traje que não tem qualquer relação com sua cultura, estranho, que não lhe cai bem. E digo que é cômico não num sentido engraçado, de fazer rir, mas numa forma trágica, como mais uma imposição absurda da cultura branca sobre os povos originários do país.

Por que é vedado ao cacique, ou a qualquer outro que porventura "chegue lá", o uso de trajes típicos de sua cultura? Por que Juruna, representante legítimo de seu povo, não tem o direito de, se quiser, entrar pintado, com cores e formas cerimoniais, vestindo qualquer coisa que simbolize sua cultura?

Por que ele e outros são forçados a usar um uniforme padronizado alheio à(s) sua(s) cultura(s) apenas para garantir a conformidade de uma regra sem qualquer sentido prático?

Pode parecer algo pequeno. Alguns podem pensar "mas tanto barulho por uma roupa". Mas, sim, é uma questão fundamental. Ela perpassa pela própria diversidade cultural e pela necessidade de se forjar uma identidade "branca", normativa, em um país onde não há qualquer tipo de conflito cultural visível.

O problema, como dito antes, é muito mais embaixo. A obrigação do uso do "passeio completo" não é uma tentativa sádica de fazer os parlamentares sofrerem no sol tropical do Brasil, nem uma forma de identificar mais facilmente os burocratas que vivem do nosso dinheiro. É para impedir que se manifeste a pluralidade de culturas e costumes do Brasil. Além de, obviamente, impedir acesso aos mais pobres e de diferenciar uma casta privilegiada.

É a tentativa de perpetuar a imagem do país branco, rico, burocrata e burocrático, onde mesmo as minorias parecem se conformar com o "jogo democrático" de poucos e viver em uma harmonia forjada por anos de escravidão e de falsa reconciliação e de continuado genocídio contra negros e índios.


publicado em 29 de Fevereiro de 2012, 07:04
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Raphael Tsavkko

Raphael Tsavkko Garcia é blogueiro e jornalista-sem-diploma, graduado em Relações Internacionais, mestrando em Comunicação. Ciberativista, só sabe escrever sobre política e é vascaíno!


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