Porque fãs de esporte precisam de vilões

Torcer pelo mocinho nem sempre é tão legal quanto torcer contra o vilão, seja nos filmes, seja nos reallity shows, seja na NBA

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O Natal está chegando!

Aquela data boa de juntar os parentes em casa, ter uma boa desculpa para comer como se não houvesse amanhã, assistir os filmes repetidos que só passam nessa época do ano, mas que passam todo ano, aquela ressaca batendo de quem exagerou na ceia de ontem, as crianças brincando com os presentes novos, uma delas chorando porque já quebrou o brinquedo enquanto o pai culpado vai em pleno domingo-feriado-dia-do-nascimento-de-Cristo no maior país católico do mundo procurar uma loja de brinquedo aberta só pra ver se o filho sossega e dá um descanso para família, enquanto ele volta e descobre que a criança já está conformado só com a gelatina colorida que avó deu pra ele. Que data, meus amigos!

Mas se você passa por tudo isso todo ano e se interessa minimamente por esportes, já deu uma olhada na programação da NBA para essa data tão querida?

Os caras reservam, toda temporada, alguns dos melhores jogos do ano – entre eles a reedição da última final – para transmitir no natal, já sabendo que todo mundo tá de saco cheio do show do Roberto Carlos.

Foi então que pensei que seria uma boa ideia traduzir esse artigo do Vassilis Dalakas originalmente publicado em inglês no The Conversation a respeito da nossa necessidade de ter vilões no esporte para que possamos torcer contra. Se você quiser, é uma boa narrativa pra acompanhar na partida de hoje do Golden State Warriors contra o Cleveland Cavaliers.

A tradução é de Julia Barreto.

Porque fãs de esporte precisam de vilões

Enquanto a nova temporada da NBA começa, os Golden State Warriors se veem num papel não familiar: vilões.

Depois dos Warriors terem draftado Stephen Curry da desconhecida Davidson College em 2009, fãs de todo o país se enamoraram por seu estilo excitante de jogar. Com o passar dos anos, o time acrescentou jogadores para complementar a proeza de pontuação de Curry — Klay Thompson, Draymond Green e Andre Iguodala. Em 2015, eles ganharam o campeonato da NBA, acabando com a seca da franquia de mais de 40 anos. Ano passado, bateram o recorde do Chicago Bulls do maior número de vitórias na temporada regular.

Mas quando o superstar Kevin Durant deixou o Oklahoma City Thunder para assinar com os Warriors neste último verão — tornando um time já dominante em um “supertime” — o retrocesso foi rápido: “Os Warriors foram de heróis para vilões em tempo recorde”, declarou o The Ringer.

Da mesma maneira, Durant, antes um jogador benquisto, se tornou um “vilão renegado”.

“Veja o aumento exponencial no veneno lançado na direção deles [aos Warriors] esse ano”, escreveu o jornalista esportivo no The San Jose Mercury News.

Venho estudando marketing esportivo e a psicologia dos fãs de esporte por vários anos. Fãs e executivos frequentemente lamentam a formação de “supertimes”, dizendo que isso é ruim para o equilíbrio da competição e mal aos negócios. Mas enquanto esses times se tornam odiados rapidamente, uma pesquisa de psicologia mostrou que seus jogos também têm mais chances de serem vistos — para nos deleitarmos com a alegria de vê-los perder.

De queridinhos a odiados

Entre fãs do esporte, como um time estimado se torna um vilão? Como a mudança pode ser tão repentina, a antipatia tão afiada?

Os acadêmicos David Tyler e Joe Cobbs estudaram dúzias de rivalidades diferentes para identificar os fatos que contribuem para rivalidades especialmente intensas e emotivas. Eles descobriram que ela se intensifica quando um time se torna dominante, mas também quando se acredita que há uma vantagem injusta.

Vimos isso no rancor dirigido aos New England Patriots, um time que chegou aos playoffs 13 vezes nos últimos 15 anos mas também foi acusado de distorcerem as regras nos escândalos de Spygate e Deflategate. E também vimos isso quando LeBron James foi para o Miami em 2010, criando um “supertime” com Dewayne Wade e Chris Bosh.

No caso dos Warriors, nem Durant nem a diretoria quebraram nenhuma regra. No entanto, não é surpresa que uma superestrela se juntando a um time rival já cheio de outras superestrelas — incluindo o atual MVP — possa parecer uma vantagem injusta.

Os ricos se tornaram ainda mais ricos, enquanto críticos acusaram Durant de pular covardemente no trem da alegria do campeonato.

Com a adição de  Kevin Durant, os Warriors parecem invencíveis. USA Today/Reuters

O apelo de um vilão

Se um time se enche de talento e se torna detestado, você pensaria que isso tornaria menos provável que fãs de outros times ligassem a TV: a probabilidade de seu time favorito ganhar o campeonato é bem menor. Na verdade, os Warriors eram, na pré-temporada, os grande favoritos para ganhar o campeonato da NBA, o que significa que tinham uma chance maior do que 50% de ganhar. (A última vez que isso aconteceu foi no reinado de Michael Jordan no Chicago Bull na metade dos anos 1990.)

Depois que Durant se juntou aos Warriors, o representante da NBA, Adam Silver disse que não gosta de “supertimes” porque afetam no equilíbrio competitivo da liga, algo que executivos de ligas de esportes profissionais normalmente lutam para alcançar. A lógica é que um maior número de fãs irá se interessar se eles acharem que seu time favorito tem uma chance de ganhar.

No entanto, o dono do Dallas Mavericks Mark Cuban rapidamente apontou que um time marcado irá gerar um interesse e uma audiência maiores. De acordo com Cuban, fãs que agora odeiam o Warriors irão segui-los mais de perto, torcendo para que percam.

A teoria de disposição afetiva dá suporte para a posição de Cuban. Originalmente apresentada pelo psicólogo especializado em entretenimento Dolf Zillmann, ela é baseada na ideia de que o engajamento emocional das pessoas numa competição se torna mais forte quando elas escolhem um lado. No entretenimento e nos esportes (e até na política), o espectador determina quem são os “mocinhos” e os “vilões” — e torcem de acordo.

Enquanto isso pode significar ligar a TV para torcer pelo mocinho, isso também pode significar ligar a TV para torcer contra o vilão.

Muitos filmes usam essa simples fórmula para capitalizar a ideia: um protagonista adorado, um vilão desprezado, uma disputa entre os dois e, eventualmente, uma vitória triunfante do herói. É claro que é muito mais fácil o mocinho vencer no filme do que num evento esportivo. Mas isso também pode aumentar a excitação sobre a derrota do vilão nos esportes: os espectadores sabem que isso não foi escrito previamente.

Dos anos 1990 até o começo dos anos 2000, o time de baseball New York Yankees era um “supertime”; como os Warriors, muitos fãs os viam como os vilões. Antes da American League Championship Series (ALCS) de 2001 entre os New York Yankees e os Seattle Mariners, a ESPN criou uma enquete em seu site perguntando aos fãs “Qual das seguintes constatações descreve melhor seu interesse na ALCS?”. A frase com a maior porcentagem de votos (32,5%) foi “odeio os Yankees”. Uma porcentagem adicional de 14,1% indicava “torcer contra (mas admirar secretamente) os Yankees”.

Das 31.544 pessoas que votaram, quase metade delas declarou que iriam acompanhar a série por causa do forte desagrado pelos Yankees.

O time de baseball New York Yankees dominou o final dos anos 1990, ganhador o Série Mundial em 1996, 1998, 1999 e 2000. Reuters

Naquele ano, os Yankees perderiam a Série Mundial, e a audiência do jogo 7 continua sendo a maior para um jogo decisivo da série desde 1991. Na verdade, os Yankees jogaram sete World Series nos últimos vinte anos. E todas elas estão no top 10 de Séries Mundiais mais assistidas durante esse mesmo período. Três estão no top 5.

Amando odiar

Ao evocar fortes emoções, pensar nos times como heróis e vilões nos torna mais propensos a ligar a TV. Isso também afeta o nosso nível de prazer da experiência de assistir: enquanto ficamos felizes quando coisas boas acontecem com os times que gostamos, também ficamos felizes quando coisas ruins acontecem com os times e jogadores que desgostamos.

Existe uma palavra alemã, Schadenfreude – prazer com a desgraça dos outros – para essa emoção.

Alguns anos atrás conduzi um estudo com o meu colega Jeff Langenderfer para investigar o apelo de vilões em reality shows. Acompanhamos os comentários postados nas salas de bate-papo da CBS uma hora antes e uma hora depois de cada episódio por uma temporada inteira do sucesso da CBS, o programa “Survivor”.

Consistentes com a teoria da disposição afetiva, o interesse dos espectadores no show era parcialmente motivado pelo desejo de seguirem personagens que eles não gostavam. “Tenho que admitir que adoro odiar os malvados; [eles] deixam as coisas interessantes”, um espectador escreveu.

Como esperado, os espectadores queriam que coisas boas acontecessem com os personagens que eles gostavam e que coisas ruins acontecessem com aqueles que eles desgostavam. Sem surpreender, eles celebravam e expressavam frustrações de acordo.

Esportes, graças ao laços emocionais que os fãs formam com seus times favoritos, formam um contexto em que essas tendências estão especialmente propensas a emergir. Em 1996, o dono do NFL Art Modell mudou o Cleveland Browns para Baltimore, onde eles se tornaram os Ravens — algo que os fãs do Cleveland viram como a última traição. Quando o Modell morreu em 2012, conduzi uma análise com os coautores Joanna Melancon e Tarah Sreboth dos comentários postados por fãs na matéria da ESPN noticiando sua morte. Quase 40% dos comentários expressavam algum tipo de Schadenfreude. Vários fãs do Cleveland comemoraram abertamente sua morte com comentários como “melhor dia da vida” e “feliz que ele está morto”.

Ponto principal: para aproveitar a vitória do herói, é necessário haver um vilão; por todo o ódio que acumulamos dos “supertimes”, eles aumentam o prazer da experiência de assistir. Sobre os Warriors, eles provavelmente já começaram a se preparar para as vaias e provocações enquanto eles viajam pelo país, como fãs contrários torcendo de maneira especialmente intensa para eles tropeçarem no caminho.


publicado em 08 de Dezembro de 2016, 15:00
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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