Pra onde vai a mobilidade?

Todas as empresas que se propõem a pensar nisso têm suas dificuldades, mas fica a sensação que a maior delas ainda está nos governos

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Eu fiquei bem reticente em aceitar o convite da Ford para acompanhar um seminário sobre o futuro da mobilidade, em Salvador. Sou leigo, não conheço quase nada sobre o assunto e dirijo mal, bem mal.

De todo modo, com as expectativas no chão, acabei topando, na esperança de conhecer um pouco mais sobre as pequenas empresas envolvidas nas questões de deslocamento urbano.

Foi um festival de tapa na cara. Depois de entender que todos nos deslocamos, que grande parte da nossa vida é "ir e vir", não foi difícil concluir que delegar esse assunto aos especialistas é uma ingenuidade confortável.

Saí de lá com a sensação de que o assunto é urgente e é pra todos nós.

Quem fala sobre isso por aí

Escutei uma série de falas excelentes. A que mais me impressionou foi, sem dúvida, a do Pablo Florentino, coordenador da Associação de Ciclistas Urbanos de Salvador. Embasado, abriu uma série de dados bem elucidativos sobre os movimentos de urbanização, expôs um pouco da batalha que trava com toda a burocracia. Em breve complementaremos este post com a apresentação que ele utilizou por lá.

Do lado da Ford, o papo girou em cima das ações que a companhia tem tentado emplacar para atacar os problemas que enfrentamos hoje: trânsito, crescimento das megacidades, busca por melhor qualidade de vida, preocupação ambiental, etc. As ações foram agrupadas em um novo braço de negócios chamado Ford Smart Mobility.

Outras pessoas conduziram conversas sobre o tema. Bem curioso como as falas partem de locais bem distintos (academia, governo, mundo corporativo…), assumem vieses e chegam em locais bem parecidos.

Esse é um dos principais projetos de convivência no trânsito no mundo e fica adivinha onde? Holanda.

O dilema das grandes

As grandes corporações que querem inovar sofrem porque são lentas. Como transatlânticos, demoram para apontar o bico para direção certa e avançam devagar.

A verba para pesquisa e desenvolvimento existe, em abundância, mas tudo precisa ser calculado, medido, aprovado em mil instâncias, há pouco espaço para a experimentação barata. Há um nome valioso e uma estrutura que precisam ser levados em consideração. Não é molecada desenvolvendo software em alguma garagem.

O esforço das grandes tentando se inserir no mercado de inovação é louvável (mesmo que seja justificado pela lei da selva: no longo prazo, ou acompanha o fluxo de inovação e se adapta, ou quebra).

No fim da fala do Luciano (gerente de estratégia de produto da Ford para America do Sul), eu tentei explicar meu ponto, utilizando o modelo de negócio das empresas automotivas como exemplo:

"Pra faturar, vocês precisam convencer as pessoas a comprarem carro, e pra inovar, vocês precisam pensar além do carro – aliás, talvez a grande solução de mobilidade do século nem passe pelo carro.

Como vocês pensam em lidar com o fato de que as atenções da empresa estão sempre divididas?"

Ele me disse que se eu solucionasse essa questão ele me ofereceria um emprego.

O dilema das pequenas

As pequenas sofrem porque ser empresa pequena no Brasil é difícil, muito difícil. Por mais que a solução proposta seja boa, angariar recursos para colocar a coisa na rua é uma batalha épica.

Para cada notícia de startup ou pequena empresa que recebe um aporte para financiar a operação, milhares de outros projetos decretam falência e deixam de existir.

Além da dificuldade inicial, as poucas que perseveram enfrentam uma série de dificuldades para dar escala ao serviço oferecido – regulamentação do governo, fluxo de caixa, capilaridade.

A vida é bem criativa na hora de levantar muros.

O dilema de todos nós

As grandes, as médias e as pequenas pelejam porque criamos estruturas rígidas e que carecem de mil ajustes para, de fato, avançar.

Ficou bem claro no discurso de todos os projetos apresentados no seminário que a lentidão do governo, bem como as condições básicas oferecidas pelo serviço público atravancam. Não falta tecnologia. Falta estrutura pra tecnologia operar.

Esse sou eu, me divertindo bastante com uma mochila-skate-elétrico que anda a 30km/h. A invenção é da MovPak (se você quiser ver, de fato, alguém andando nisso, veja este vídeo).

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E a foto abaixo é uma das ruas do quarteirão aqui da nossa casa. Desconfio que eu não poderia ser um usuário do skate.

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Os casos em que o skate (e outras tecnologias de propósito específico e restrito) atendem são poucos.

Os discursos dos representantes do governo, no seminário, foram bem coerentes, mas quem se dispõem a manter o ouvido atento logo percebe a morosidade.

Fica o desafio (bem recorrente): como engajar as pessoas mais capacitadas, mais inteligentes, mais articuladas, nas causas de interesse público, dentro do governo? Como adaptar o sistema no qual estamos inseridos, de modo que a carreira pública seja sedutora?

Já percebemos que a remuneração (bem atraente, em alguns casos) e a estabilidade, sozinhas, não resolvem.

Precisamos de uma cultura que incentive os geniozinhos (que hoje saem da faculdade loucos para entrar em uma rotina de banco de investimento – desafio, muito desafio, dinheiro, muito dinheiro) a encarar a carreira pública.

Precisamos que isso se torne praxe.

* * *

Me senti convidado a participar das conversas sobre o tema e acho que o assunto pode render bem por aqui. Mobilidade não pode ser assunto de especialista.

Seguimos nos comentários.


publicado em 11 de Julho de 2016, 18:18
Eduardoamuri

Eduardo Amuri

Autor do livro Dinheiro Sem Medo. Se interessa por nossa relação com o dinheiro e busca entender como a inteligência financeira pode ser utilizada para transformar nossas vidas. Além dos projetos relacionados à finanças, cuida também da gestão dO lugar.


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