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Primeira pessoa do plural

Quinta-feira, primeiro dia do mês de setembro, dezenove horas e vinte e dois minutos passados de um dia típico de trabalho. O celular deu um toque e parou. Sinal codificado da mensagem: “Cheguei, amor. Estou aqui na porta da agência.”

Fim de expediente.

Desliguei o lento PC, entulhei a papelada no canto da mesa, fechei a agenda, levantei em direção à copa, lavei a xícara com dificuldade para tirar o café seco do fundo e me despedi dos colegas que ainda ficariam por duas horas no trabalho. Parei na porta de vidro e, antes mesmo de sair, já avistei o carro parado. O código nunca falha. De fato, ela estava ali. Mas, dessa vez, não estava sozinha.

Abri a porta, sentei no banco e, pela última vez, observei com os olhos de um adolescente crescidinho.

— Oi amor, tudo bem?

A voz trêmula respondeu:

— Tenho uma coisa pra te dizer...

Tenho uma coisa pra te dizer...

Parênteses para discutirmos a expressão “tenho uma coisa pra te dizer”. Por que diabos as mulheres utilizam esse teaser?

Cerca de 87% das mensagens que seguem a expressão “tenho uma coisa pra te dizer” são de fuder com vida do receptor. Ninguém fala “tenho uma coisa pra te dizer: achei 100 reais no bolso da sua calça.” Ou “tenho uma coisa pra te dizer: subi uma cerveja pro freezer quando soube que você viria.” É sempre algo do tipo bati o carro, fui demitida, o seu time contratou o Richarlyson, ou a TV queimou.

Mulheres, por favor, parem de utilizar a expressão “tenho uma coisa pra te dizer”.

Fecha parênteses.

Não foi bom ouvir o “tenho uma coisa pra te dizer” e vê-la com os olhos úmidos e avermelhados. A perna ficou trêmula, o medo bateu e a reação foi imediata:

— O que foi? Aconteceu alguma coisa?

De bate-pronto, respondeu:

— Acho que estou grávida.

Tenho vinte e sete anos, trabalho 10 horas por dia, gosto de berinjela, sou publicitário, fotógrafo, não gosto que batam a porta do meu carro, jogo com a Internazionale no Pro Evolution Soccer e não, não pensava em ser pai.

A gangorra de sensações é incrível. Uma mistura de “caralho vou ser pai” com “puta que pariu, fudeu!”. A chave vira sozinha, uma injeção de ânimo e adrenalina tomam conta. Os planos mudam. Adeus praia no fim do ano e aparelho Blue Ray. As prioridades, enfim, são outras. E o melhor de tudo: você, pela primeira vez, aprende a gostar do inesperado.

“Vou ser pai” passou a ser minha frase preferida. E que, na grandeza do seu significado, cabe muito mais que cuidar de um filho. Cabe cuidar de uma família. Assim, não me sinto no direito de fraquejar nem um segundo. Quando o filho não é esperado, a interrogação flutua no relacionamento. E se tem alguém que pode “perder” tempo digerindo a ideia e aceitando que os planos mudaram, esse alguém é ela.

Meu filho(a) nasce em abril, tem 1,3cm e já tem pâncreas. Hoje recebi um sms da minha noiva escrito na primeira pessoa do plural:

Estamos com saudade. Você é o amor das nossas vidas.

Os três

Eu não posso titubear.

E não vou.


publicado em 11 de Outubro de 2011, 07:04
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Leandro Magalhães

Leandro Magalhães é publicitário, fotógrafo, meia de armação, torcedor do São Paulo e pai.


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