Procrastinação estruturada: faça menos, autoengane-se, e dê-se bem no longo prazo

Como se aproveitar da vontade de fazer qualquer coisa menos o que você tem de fazer

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Em um tempo como o nosso, no qual tudo ao redor nos leva a mais e mais distração, a procrastinação acaba sendo a rotina de muita gente.

Eu mesmo, me perco bastante e acabo consumindo muitas das minhas horas vagando, fazendo coisas sem um objetivo claro. Esse texto tem alguns truques que podem ajudar os procrastinadores mais determinados.

Ele foi traduzido diretamente do site Structured Procrastination, do autor, John Perry, que é professor emérito de filosofia da Universidade de Stanford.

Vale a leitura.

Procrastinação estruturada

“. . . todo mundo consegue fazer qualquer trabalho, desde que não seja o trabalho que se espera que esteja fazendo num dado momento.” — Robert Benchley, em Chips off the Old Benchley, 1949

Faz meses que quero escrever esse ensaio. Por que finalmente o estou fazendo? Terei finalmente encontrado tempo livre? Errado. Tenho que avaliar artigos, preencher formulários pedindo livros para serem usados em minhas aulas, tenho uma proposta da Liga Nacional de Ciência para participar de uma banca, e dissertações em andamento para ler. E comecei a trabalhar neste ensaio como uma forma de não fazer nenhuma dessas coisas.

Essa é a essência do que chamo “procrastinação estruturada”, uma estratégia fantástica que descobri para converter procrastinadores em seres humanos eficazes, respeitados e admirados pelo que podem realizar e por usarem bem o tempo. Todos os procrastinadores adiam as coisas que precisam fazer. A procrastinação estruturada é a arte de fazer essa característica ruim funcionar a nosso favor.

A ideia chave é que procrastinar não significa não fazer absolutamente nada. Os procrastinadores raramente não fazem nada; eles fazem coisas marginalmente úteis, como jardinagem, ou apontar lápis, ou um diagrama para reorganizar os arquivos, para quando chegar a hora de finalmente fazer isso. E porque o procrastinador faz essas coisas? Porque são uma forma de não fazer algo mais importante. Se tudo que o procrastinador tivesse para fazer fosse apontar alguns lápis, nenhuma força na terra o levaria a fazer isso. Porém, o procrastinador pode ser motivado a fazer tarefas difíceis, importantes e com prazos apertados, na medida em que essas tarefas sejam exatamente uma forma de não fazer algo mais importante.

Procrastinação estruturada significa moldar a estrutura das tarefas a se fazer de forma a explorar essa situação. A lista de tarefas que se têm em mente são ordenadas por sua importância relativa. No topo ficam as mais urgentes e importantes. Mas também no fim da lista há tarefas relevantes. Fazer estas se torna uma forma de evitar fazer as que estão no topo na lista. Com esse tipo de estrutura adequada de tarefas, o procrastinador se torna um cidadão útil. De fato, o procrastinador pode até mesmo acabar tendo, como eu, uma reputação de ser alguém que faz muitas coisas.

A situação mais perfeita para procrastinação estruturada que já tive foi quando eu e minha mulher servimos de Professores Residentes num dormitório de Stanford chamado Soto House.

À noite, quando eu sempre me deparava com artigos para avaliar, palestras para preparar, trabalho do comitê a ser feito, eu saia de minha casa ao lado do dormitório e ia para a sala principal do dormitório jogar pingue-pongue com os alunos, ou ia conversar com eles em seus quartos, ou apenas ficava por ali lendo o jornal.

Ganhei uma reputação de ser um ótimo Professor Residente, e um dos raros docentes no campus que passavam qualquer tempo com a graduação, realmente conhecendo os alunos.

Que situação: jogar pingue-pongue como uma forma de não fazer algo mais importante, e ainda ganhar reputação de professor camarada.

Os procrastinadores muitas vezes seguem exatamente para o lado errado. Tentam diminuir seus compromissos, assumindo que tendo apenas umas poucas coisas a fazer, pararão de procrastinar e finalmente concluirão as tarefas. Mas isso vai contra a natureza básica do procrastinador, e destrói sua mais importante fonte de motivação. As poucas tarefas em sua lista serão, por definição, as mais importantes, e a única forma de evitar fazê-las será fazer nada. E esse é o caminho para se tornar um inútil, um ser humano que não faz nada.

Nesse ponto você deve estar se perguntando, “mas e as tarefas no início da lista, que a pessoa acaba nunca fazendo?” De fato, aqui temos potencialmente um problema.

O truque é escolher os projetos certos para colocar no topo da lista. As tarefas ideais tem duas características, primeiro, parecem ter prazos bem delimitados (mas não têm). Segundo, parecem extremamente importantes (mas não são). Por sorte, a vida provê em abundância tarefas desse tipo.

Nas universidades a grande maioria das tarefas cai nessa categoria, e estou certo que o mesmo é verdade para a maior parte das outras grandes instituições.

Pegue por exemplo o item bem no topo de minha lista agora. Terminar um ensaio para um volume sobre filosofia da linguagem. Devia tê-lo escrito onze meses atrás. Realizei muitas coisas importantes apenas para não trabalhar nesse ensaio.

Alguns meses atrás, sentindo-me culpado, escrevi para o editor pedindo desculpas pelo atraso, e expressando minhas boas intenções de finalmentes concluir o artigo. Escrever a carta, claro, foi uma forma de não trabalhar no artigo.

O que ocorreu é que eu não estava tão atrás dos outros que também precisavam entregar artigos para essa publicação. E qual é a importância do tal artigo? Não é tão importante ao ponto de que, em algum momento, algo mais importante inevitavelmente não venha a aparecer. E daí finalmentes vou escrevê-lo.

Outro exemplo são os formulários de pedidos de livros. Escrevo este texto em junho. Em outubro darei um curso sobre Epistemologia. Os formulários de pedidos de livros já estão atrasados. É fácil tomar isto, portanto, como uma tarefa importante com prazo curto (para vocês, não procrastinadores, farei a observação de que os prazos só começam a se esgotar uma ou duas semanas depois que acabam).

Recebo lembretes quase diários da secretária do departamento, alunos me perguntam o que leremos, e aquele formulário vazio segue bem ali no meio da mesa, abaixo da embalagem de sanduíche que comi quarta-feira. Essa tarefa está bem próxima do topo de minha lista; perturba-me, e me motiva a fazer outras coisas úteis, mas superficialmente menos importantes.

De fato, ademais, a livraria já está cheia de formulários preenchidos por não procrastinadores. Posso enviar o meu no meio do verão, e tudo estará certo.

Só preciso encomendar livros populares e bem conhecidos, de editoras eficientes. Aceitarei outra tarefa, aparentemente mais importante, entre agora e talvez, digamos, primeiro de agosto. Só então minha psique se sentirá confortável para finalmente preencher o formulário, de forma que eu não precise realizar a nova tarefa.

O leitor observador pode nesse momento sentir que a procrastinação estruturada requer certo grau de autoengano, já que se está, de fato, fazendo um esquema de pirâmide consigo mesmo o tempo todo. Exatamente.

Precisamos ser capazes de reconhecer e nos comprometer com tarefas de importância inflada e prazos não realistas, e, ao mesmo tempo, precisamos reconhecê-las como importantes e urgentes. Isso não é problema: virtualmente todos os procrastinadores têm excelentes capacidades de autoengano.

E o que seria mais nobre do que usar um defeito para combater os efeitos ruins de outro defeito?


publicado em 05 de Setembro de 2015, 17:31
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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