Produtividade é para robôs

Seres humanos falham. E tudo bem.

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Eu adoro a ideia de ser mais produtivo. Quero ler mais livros, escrever mais, concluir minhas atividades no prazo certo e não deixar ninguém na mão. É como se a distância entre quem eu sou e quem eu quero ser estivesse separado apenas por uma lista de atividades.

Dediquei muito tempo estudando as técnicas mais eficientes e como as pessoas muito produtivas fazem para alcançar tantas coisas em tão pouco tempo. Li os livros mais populares, escrevi inúmeros textos e até criei um curso sobre o assunto. Só que depois de tanto tempo percebi que o problema da produtividade está em outra plano, numa escala que a maioria dos autores não gosta muito de falar.

Todo mundo que já buscou alguma técnica específica para conseguir colocar as tarefas em dia pode citar uma longa lista de tentativas frustradas. Uma série de receitas mágicas que não sobreviveram mais que alguns dias.

Mas qual o problema, então?

Não é que as técnicas estejam erradas e tudo o que se fale sobre o assunto seja mentira. É que para tudo isso funcionar, existe um intenso trabalho de base que precisa ser feito. É  como suplementos para quem faz academia. Você pode tomar uma loja de suplementos inteira, mas se sua alimentação não estiver bem organizada e o treino não for regular e bem construído, não existe suplemento que traga resultado.

Você é um ser humano

Por mais irônico que possa soar, costumamos ignorar esse fato o tempo todo.

É improvável que você vá seguir uma lista de atividades se acordar meio deprimido. Também não é muito fácil estudar, ler ou trabalhar em tarefas que exigem mais atenção quando estamos ansiosos. Possuímos uma série de emoções que afetam diretamente nossa capacidade de produzir, mas quase nunca temos controle sobre como vamos nos sentir no futuro.

Fora isso, elementos externos contam muito para todo esse conjunto. Eu particularmente gosto de escrever em dias nublados, mas quando está muito quente prefiro atividades que envolvam movimento e interação social. Também não gosto de trabalhar no silêncio completo, é mais fácil manter o foco com gente em volta e um leve ruído.

É preciso tentar entender como nossas respostas emocionais acontecem e organizar a rotina para minimizar ao máximo variações indesejadas. Redes sociais, por exemplo, podem nos deixar irritados e ansiosos, então faz sentido reduzir o consumo e restringir o tipo de conteúdo. Trânsito pode tirar qualquer um do sério, então sair um pouco mais cedo ou variar a rota para evitar o tráfego intenso pode evitar o perturbações.

Estes são alguns exemplos, mas cada um sabe onde está gastando energia, é uma questão de identificar e fazer as mudanças necessárias.

Mantenha uma rotina

Sempre que fazemos algo que não estamos acostumado é preciso investir certo esforço. É como se tivéssemos um reservatório de força de vontade e tudo o que fazemos ao longo do dia consumisse um pouco de nossas reservas.

É por isso que quando tivemos um dia cheio de atividades, é mais difícil manter a dieta e fácil de fugir da academia. Quando nossa capacidade de tomar decisões está afetada, optamos pela saída mais confortável.

A solução que encontramos para contornar este problema é automatizar as tarefas, persistir nelas tempo o suficiente até que elas não sejam mais um esforço, até que se torne um hábito.

É como ir para escola ou quando começamos a trabalhar. Os primeiros dias são muito difíceis, mas depois que pegamos o ritmo, tudo fica no automático e apenas seguimos o roteiro sem maiores problemas.

Apesar de parecer fácil, a maioria das pessoas encontra pelo menos dois problemas quando tentam criar um novo hábito. O primeiro deles é tentar inserir muitas atividades de uma vez, começando academia, dieta, ler, manter um diário e colocar Gilmore Girls em dia. Mas uma vez que uma dessas atividades saem do trilho, seja porque acordou num dia ruim ou porque faltou tempo, todas as outras saem descarrilam junto. O mais fácil é começar um hábito por vez, acostumando-se e reduzindo o esforço para se adaptar.

O segundo problema é a falta de disciplina.

Trabalhe sua disciplina

Este é o ponto mais importante de todos. Não existe produtividade, hábito ou rotina sem um mínimo de disciplina.

Normalmente ouvimos falar sobre o assunto como se fosse uma capacidade natural, ou você nasce assim ou será uma pessoa relapsa para sempre. Felizmente não é esse o caso, disciplina é um mindset que pode ser treinado e desenvolvido.

Disciplina é a capacidade de trocar - resistir? - uma recompensa imediata por um benefício ainda maior no futuro. É o que nos falha quando preferimos furar a dieta, assistir só mais um episódio daquele seriado ou dormir mais meia horinha.

Temos uma tendência natural de evitar problemas e sofrimento emocional. Sempre que uma ação representa algum tipo de dificuldade, nosso impulso é de nos afastar, fingir que não está acontecendo.

Mas a ideia é bem simples. Aprendemos a atravessar dificuldades apenas quando passamos por elas. Quanto mais nos esforçamos para fazer pequenas coisas que são desconfortáveis no começo, mais fácil é enfrentar situações ainda mais duras no futuro.

É por este motivo que, se você já não consegue cumprir suas pequenas metas ao longo do ano, resoluções de ano novo não vão surtir grande efeito. A resiliência necessária para conquistar objetivos ambiciosos deve ser desenvolvida aos poucos, com pequenas metas mais leves ao longo do ano, para quando encontrar um obstáculo maior conseguir se sustentar.

É por isso que muita gente gosta da terapia do banho frio. O esforço necessário para enfrentar o medo da água fria é uma pequena representação do desconforto que sentimos quando precisamos escolher estudar, comer uma salada e levantar para ir treinar. Mas se banho frio não é para você, encontre uma forma de enfrentar dificuldades e exercitar sua disciplina.

Encontre prazer no que faz

Existe uma confusão na ordem como pensamos em nossas atividades, a famosa ideia de que devemos fazer apenas coisas que nos dão prazer.

Mas temos um conflito nisso: se fizermos apenas o que gostamos, é muito provável que nos tornemos seres humanos mimados e sem um mínimo de disciplina. É como as crianças, se fizermos apenas o que as agrada, jamais aprenderão a resistir o desejo da diversão e do prazer imediato para conseguir um benefício futuro. Não vão sentar para comer, vão rejeitar as verduras, terão dificuldades para ler o livro da prova e não respeitarão quando os pais pedirem para ficar quieto.  

Uma forma interessante de pensar é encontrar pontos de prazer dentro das coisas que achamos difíceis. É como atletas e pessoas muito competitivas acabam agindo. Apesar das dificuldades de acordar 5h da manhã, preparar as porções da dieta e ainda enfrentar uma rotina de trabalho, o prazer surge dos pequenos ganhos, no orgulho de conseguir algo que todos consideram difícil.

Mais ainda, podemos encontrar prazer na realização de pequenas metas, quebrando um objetivo muito grande e difícil em metas bem menores e totalmente possíveis.

Quando olhamos para um objetivo como perder 15kg ou passar em medicina, essa meta é muito distante. Sabemos que o sofrimento de 1 ano estudando ou treinando com dedicação  é maior do que podemos aguentar. Não existe resiliência que suporte isso.

Mas quando organizamos a meta para “Estudar 30 minutos por dia”, ou “não faltar academia por uma semana”, ela se torna totalmente plausível. Sabemos que é possível alcançar estes objetivos. Trocamos a frustração de se dedicar tanto tempo sem gratificações, para curtos períodos com gratificações recorrentes.

Quando conseguimos concluir uma meta, nossa mente passa a compreender que o esforço compensou, gerando prazer e mais determinação para o próximo objetivo.

É muito fácil criar analogias entre humanos e máquinas para justificar metas de produtividade, mas enquanto ignorarmos nossas dificuldades biológicas mais básicas, é muito provável que nenhuma técnica alcance o prometido.

Sempre que estiver frustrado e triste porque não consegue concluir algo que deseja muito, lembre-se que você é um ser humano, que oscilações são normais e que antes de tudo, é preciso trabalhar nosso psicológico. Só depois que o dever de casa for feito, será possível começar algo novo.


publicado em 25 de Janeiro de 2017, 00:00
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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