Puta na chuva

Apesar de gato escaldado ter medo de água fria, uma hora acaba chovendo. E quando chove, é chuva pra caralho

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– A diferença entre você e uma puta, é que as putas cobram.

– Na verdade, a diferença é que as putas devem escolher melhor com quem trepam – respondo, enquanto tento encontrar minha calcinha pelo quarto.

Ele fica sem reação e eu, já com a calcinha em mãos, começo a me vestir. O individuo não identificado ainda tem tempo de me dizer algo sobre não levar as coisas tão a sério, e me pede para espera-lo colocar a calça. Diz que vai me levar para casa, porque já é tarde e está chovendo. Não respondo e saio batendo a porta, daquele jeito dramático que a gente age quando quer parecer personagem de conto do Bukoswki, ou transformar as banalidades da vida em cena trágica, poética e dramática. Culpo o rum e a vodca por tudo isso.

E a chuva realmente estava forte! Aliás, você já reparou como é difícil pegar algum táxi na rua, domingo à noite, no meio de um temporal? Os filhos da puta não querem  levar gente molhada e fodida nem para a casa e nem para a para a puta que nos pariu. Eu devia ter pensando nisso! Essas são coisas que devem ser consideradas antes de se recusar uma carona, e fazem com que a cena poética, trágica e dramática, perca totalmente o sentido. Foda-se se eu era a puta que não cobrava. Naquele momento, eu só queria ser do tipo de puta que recebe bem é levada pra casa. Por que não?

Na verdade, eu não estava ofendida. Nunca vi problema em ser ou parecer puta. Chegava até ser engraçado pensar em toda aquela situação: pro cara babaca, eu era puta, porque ia até o apartamento dele só para transar. E, olha só, naquela cabeça de bosta, achava que estava em vantagem, porque não precisava pagar nada, no máximo, me levar até em casa. O que talvez ele não tivesse percebido é que nenhum de nós estava em vantagem naquela noite. Sobretudo, que alguma coisa a gente sempre cobra: sexo em troca de carinho, em troca de companhia, em troca de qualquer coisa. Não existe almoço de graça.

E é que o meu preço, naquela noite, era bem mais alto do que parecia. Era “sexo para esquecer outro sexo”. Não posso negar que deu certo nos primeiro minutos. Deu certo até a primeira gozada. Depois, foi tudo totalmente errado. Era óbvio que seria assim, eu já deveria saber disso antes.

Acontece que, em algum lugar no manual dos “solteiros que querem uma foda ainda hoje”,  alguém escreveu que o bom dessas coisas de trepar só pra trepar, é que você não se apega efetivamente a ninguém. Mas, quando se está no meio da porra de uma chuva, sem táxi, e ainda um pouco longe do bar mais próximo, você começa a pensar que a verdade é um pouco diferente do que dizem por ai: estar com uma pessoa é, eventualmente, ter de se despedir dela; estar com várias é ter de se despedir constantemente. E são tantas as despedidas que há um momento em que já não é mais possível saber quem está chegando e quem está partindo. Essas são as coisas que acabam nos levando para a cama errada.

Foi isso que me levou até a casa do babaca. Eu já deveria saber, ali, nada terminaria tão bem. No entanto, apesar de gato escaldado ter medo de água fria, uma hora acaba chovendo. E quando chove, é chuva pra caralho. E não tem táxi e nem cerveja que nos abrigue e nos defenda. É inevitável. É quando a gente se percebe sozinho e  se vê obrigado a pensar na babaquice tremenda que é essa busca desesperada por liberdade, que acaba sempre nos prendendo a algum lugar, ou alguma cama (algum pau ou alguma boceta). Na neurose ridícula de tentar botar ordem no que é desordenado. Na necessidade de “não sentir”, para não ter que se despedir depois. Mas, final da noite, a gente sempre sente. No final da noite, a gente sempre está sozinho. É inevitável.

Quando finalmente um táxi parou, escolhi ir para o bar de sempre, em vez de voltar para casa. Bar de sempre, pessoas de sempre. Dividir alegrias é bom, misérias também.

Já com os cotovelos apoiados no balcão,  avistei o segundo individuo da noite, um garoto, também não identificado, cheio de misérias amorosas para compartilhar.

Conversamos, nós dois bêbados, e eu lhe digo que discos e livros em comum não garantem amor, nem sexo e nem nada parecido com isso. Digo que se ele quer salvação, que se salve sozinho.  E que se esqueça da cartilha dos relacionamentos. Da ordem certa para cada ação. E que se foda todo o resto.

– Mas nós queremos tudo, não é mesmo? E sempre tem depois… E depois, o que a gente faz?

– O mesmo de sempre – digo a ele e a mim mesma – espera a chuva passar!


publicado em 10 de Maio de 2016, 00:00
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Amanda Cipullo

Editora do site Casos Rock n' Roll e formada em publicidade. Jornalista por acaso, atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que conta por aqui.


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