Qual é sua verdadeira profissão?

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O que você faz quando faz o que faz?

No dia seguinte ao show do Brad Mehldau na Sala São Paulo, li resenhas de quem viu um pianista em uma sala de concerto. Não entendi. Não havia pianista algum ali! Como um xamã, Mehldau usou pirações harmônicas para levar todos ao meio do céu, onde disse coisas que não podem sequer ser lembradas. Por medo de terem vivido algo inexplicável, alguns preferiram chamar aquilo de concerto.

Ontem estávamos em um grupo de estudos de um livro bastante complexo do Dalai Lama sobre vacuidade e liberdade. Antes de começar, lembramos que a ação ali não é ler palavras e entender ideias, mas ter a mente conduzida por alguém que viu algo de modo amplo para vivermos assim também: "Onde ele está para ver o que está descrevendo?". Em vez de ler, nós vamos a esse lugar. Leitura não. Trilha.

Mais do que poéticas, tais descrições são precisas, apontam para o que verdadeiramente acontece.

Do mesmo modo que não reconhecemos as dinâmicas reais em qualquer experiência, não sabemos direito como explicar nosso trabalho. Ao nos definirmos de modo restrito, ao pensar em profissões e empregos, acabamos limitado nossa própria ação. No LinkedIn, em vez de "editor web", por que não "sacudidor de corpos e mentes" ou "artesão de conteúdo" (expressão do Guilherme Valadares para os editores PdH)? Por que não explicitar nossa verdadeira profissão?

Você é mesmo apenas um professor de arqueologia?

Saber reconhecer nossos trabalhos faz toda a diferença quando um caminho não dá certo. Uma coisa é buscar por outro emprego de editor, outra é ver onde mais no mundo podemos atuar movimentando pessoas.

Por que, como e o que você faz

O foco exagerado em nossas funções, projetos e tarefas (o que e como fazemos) nos impede de nos apresentar pela verdadeira profissão, o que nos inspira, nos move, o que temos a oferecer aos outros – o grande porquê, de acordo com Simon Sinek.

Um monte de confusão e problemas são criados por esse embaçamento. Se perdemos uma função ou não conseguimos mais exercer alguma profissão, se não olhamos de dentro para fora, patinamos na tentativa de voltar a exercer tais tarefas no mundo, achando que nosso problema é não ter mais aquela profissão. Mas sempre teremos uma ação e sempre teremos "mercado", espaço, demanda, se agirmos com consciência de nosso porquê.

Existem pessoas que explicitam, se relacionam e conectam essas motivações profundas, em vez de focar tanto em funções e workflows. Grandes líderes são capazes de mover pessoas em diferentes funções, mesmo sem saber nada das funções. Elas ativam diretamente o centro dos outros, aquilo que não tem nada a ver com suas profissões.

Link vídeo(ative as legendas em português) | Simon Sinek no TED: "Mesmo se você não sabe por que faz o que faz, as pessoas respondem ao por que você faz o que faz"

No entanto, não precisamos esperar por líderes. Nós mesmos podemos agir assim, ainda que não estejamos em uma posição elevada de gerenciamento. Para explorar tal possibilidade, vamos listar 3 modos pelos quais agimos em uma organização, três motivações, três posturas de trabalho.

1. Carente: "Preciso da empresa para sobreviver"

Lembro de uma vez que um recém-formado e recém-desempregado perguntaram juntos ao Lama Padma Samten como proceder. A resposta foi algo como: em vez de listar e buscar empresas, liste e busque habilidades que você tem a oferecer. Depois veja quem poderia se beneficiar com sua presença e vá oferecer, não pedir.

Ainda que teoricamente quase todos saibam dos problemas dessa postura carente, é muito comum cairmos nessa posição mimada ao reclamar de tudo o que a empresa não nos oferece. Ou ao deixar que a segurança de um emprego nos anestesie, nos entorpeça, trave nossa verdadeira ação.

2. Generoso: "Ofereço minhas habilidades para a empresa"

Quando percebemos que o trabalho flui melhor pela generosidade, ampliamos nossa motivação: agora estamos ali para ser útil. Colocamos nossa energia, tempo e habilidades à disposição.

Ora, tal postura é excelente, mas cria pode criar um novo problema: às vezes a roda que estamos girando não está nos levando para onde queremos ir – ou, pior, está construindo um mundo no qual não queremos morar. Não faz sentido dedicar a vida para uma empresa que não traz muitos benefícios, que não está alinhada com nossos sonhos, que não possibilita nosso avanço.

A sensação de perda de tempo, de patinar, de lavar prato sem nunca chegar a cozinhar, é angustiante.

Qual é mesmo a profissão do Vik Muniz?

3. Insider: "Uso a empresa para fazer meu verdadeiro trabalho"

Mais do que integrar sobrevivência e generosidade, autocentramento e altruísmo, a postura de insider é o único modo do clássico outsider viver bem: ele se infiltra e consegue utilizar até mesmo uma estrutura problemática para fazer um bom trabalho. Ele usa a empresa como veículo para potencializar sua verdadeira profissão, para fazer tudo aquilo que não conseguiria fazer sozinho, aquilo que tem de ser feito.

Se o seu trabalho é amplificar a história de pessoas incríveis, por exemplo, você pode usar a estrutura do TED, de um estúdio de cinema, de uma editora, de um site, de um programa de TV, não importa. Uma vez dentro de uma empresa específica, você não deixará as várias funções, tarefas e dinâmicas organizacionais obscurecerem seu verdadeiro trabalho. Você sabe o que está fazendo.

Aquele que entra como insider está automaticamente livre de todos os dramas que surgem das dinâmicas sem sentido, do embate de identidades, dos entraves logísticos, contratuais, comerciais. Ou melhor, ele pode se envolver, mas não sofre com aquilo porque seu trabalho anda em paralelo. Não é bem para a empresa que ele trabalha. Seu trabalho não é bem seu cargo. Ele usa a empresa para trabalhar.

O abatimento, a estafa, o famoso estresse surge quando nossas tarefas impedem nosso trabalho. Temos a nítida sensação de que estamos arrumando tudo para enfim fazer o que deve ser feito. E às vezes essa arrumação dura meses, anos!

Agir livre do próprio cargo é já cultivar uma base que desconhece o estresse. Corpo disposto, mente incansável, resultado de movimentar a energia para além da empresa.

O que move você? E como você move a vida?

"It's not where you take things from, it's where you take them to."
[Não é de onde você pega as coisas, mas para onde você as leva]
–Jean-Luc Godard

Começo o papo citando meu caso para que vocês contem suas verdadeiras profissões nos comentários. Atualmente tenho basicamente 4 focos de ação: PapodeHomem (todo o ecossistema, principalmente a Cabana), Taketina, CEBB e Não2Não1. Portanto, eu trabalho em espaços de transformação, em locais de cultivo, treinamento, movimentação, seja pelo ritmo, pela meditação, pelos relacionamentos, por conteúdo de qualidade para homens ou diretamente no dojo de crescimento pessoal que é a Cabana.

É essa minha profissão: caseiro de espaços de transformação. Quando chega alguém, podemos usar um ritmo, um texto ou o próprio silêncio para treinar uma mente mais ampla e estável, um corpo mais vivo e potente. Como vários outros também estão nesse caminho, sempre tem gente chegando.

E você, leitor, leitora PdH, trabalha com quê?

Qual é a sua verdadeira profissão? Quais dinâmicas, sonhos e motivações estão por trás de tudo o que você faz, de todos os seus projetos? Para onde você leva tudo o que encontra pela frente? Qual o seu combustível e qual seu direcionamento?

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 01 de Julho de 2011, 08:48
Gustavo gitti julho 2015 200

Gustavo Gitti

Professor de TaKeTiNa, colunista da revista Vida Simples, autor do antigo Não2Não1 e coordenador do lugar. Interessado na transformação pelo ritmo e pelo silêncio. No Twitter, no Instagram e no Facebook. Seu site: www.gustavogitti.com


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