Faltam 5 dias para o PAI: Os desafios da paternidade atual, discutir e colocar em prática o tema.
Compre já o seu ingresso!

Quando a arte imita a vida do jeito errado

Sexta-feira última, dia 20 de julho. Um maluco americano entrou numa sala de cinema em Aurora, Colorado, vestindo uma máscara e começou a atirar, sem qualquer motivo, nos espectadores que estavam em êxtase assistindo a estreia do filme que encerra a nova trilogia do Batman.

Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), com uma das vítimas do tiroteio

Maluco, nem tanto. O safado foi muito esperto ao provocar uma terrível tragédia justo na estreia mais esperada dos últimos anos, num filme que está para bater muitos recordes de arrecadação de dinheiro nos Estados Unidos e em todo o mundo. Os olhos da sétima arte estavam voltados para esse filme. Logo, não foi uma loucura desvairada, não se tratou de um ato desesperado de alguém que está lelé da cuca. Foi algo do mais pensado.

Dias depois, o país do Tio Sam está revendo seus conceitos sobre a exacerbada liberdade para adquirir e portar armas e munição. Exacerbada também foi a ideia de colocar dispositivos de segurança nos cinemas, para evitar que pessoas entrem com armas nas salas escuras. Mas o papo aqui é outro.

Como esse tipo de fato afeta demais os americanos, desde Columbine e o 11/9, todos o país está triste e traumatizado. Capaz que o número de pessoas que vão ao cinema diminua nas próximas semanas, nos próximos meses. Isso afeta os negócios. Isso afeta também a arte em si.

Saiu, por esses dias, o trailer oficial do filme Caça aos Gângsters, ou o Gangster Squad, filme de máfia que conta com nomes como Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Giovanni Ribisi, Nick Nolte e Sean Penn. Um baita elenco para um baita filme.

Link YouTube | Tem um easter egg que é crucial para o resto do papo

Update: vídeo censurado

Para afirmar o que eu estava dizendo nesse artigo, a Warner tirou do ar todos os trailers originais, como esse acima, pois continham trechos da sequência de tiros dentro do cinema. Abaixo, o vídeo novo, contendo apenas um pequeno pedaço dos mafiosos atirando por trás da tela do cinema, mas sem mostrar a sala escura com os espectadores, entre os 1:18 e 1:19 segundos.

Se repararam bem, quase no final do trailer há uma sequência de tiroteio dentro do cinema, provavelmente parte de uma vingança que interessa ao enredo do filme.

Pois bem, essa cena não estará no lançamento do filme, estreia essa que será adiada pela Warner, empresa de entretenimento que fez com que o filme fosse realizado. Baseando-se na atual situação de comoção americana, a cena será excluída do filme e os atores estão sendo convocados para regravar tudo, para que outra sequência seja feita. O filme sairia no dia 7 de setembro, lá nos EUA, mas sua estreia deve acontecer só no meio de janeiro.

Do ponto de vista comercial, nada mais natural para a Warner tirar essa que pode ser uma cena que trará uma discussão difícil e recente, quando eles podem apenas evaporar a ideia e botar outra coisa no lugar, assegurando as boas críticas do filme. No que tange a arte, é algo nada audacioso e produtivo para o filme, já que sabemos que, sempre que um filme tem que ser refilmado, em qualquer parte, acaba não ficando tão bom. Isso não quer dizer que o Gangster Squad será ruim , que está fadado ao fracasso, mas já muda um pouco a concepção do diretor para a história toda.

Só que, para a famosa frase de que "a vida imita a arte e a arte imita a vida", há um demérito no ato. Não há porque excluir a cena do filme. Não tem a menor ligação com a tragédia que aconteceu, mesmo que os mais chatos queiram fazer essa junção. Não há porque alguém se sentir mal ou ofendido com a cena, com o contexto, com o trauma. Tá tudo errado.

Senta o dedo neles, Sean Penn. A arte e a vida são coisas diferentes

Sempre que isso acontece, o avanço da sociedade moderna dá um passo pra trás.


publicado em 26 de Julho de 2012, 07:00
13350456 1045223532179521 7682935491994185264 o

Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura