Quando as delícias do futebol se misturam com as lembranças da minha família

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“No futebol o pior cego é aquele que só vê a bola”. –Nelson Rodrigues

Meu pai quase foi jogador profissional de futebol. Era lateral-direito, mas sabia cumprir bem a função de zagueiro-central, uma das mais letais posições para a existência pura de uma mãe.

Assumir a condição de defensor -- de envergar uma camisa 3 -- é ter boas chances de carregar o peso da derrota nas costas e se tornar alvo fácil dos xingamentos, perdendo apenas para goleiros ou árbitros.

Valdir, o meu pai, passou pelos aspirantes do Corinthians de Santo André, glorioso por ter sido a primeira vítima do Rei Pelé com a camisa do Santos, jogou um tempo no Juventus, simpático time da Mooca, bairro italiano e operário da zona leste de São Paulo, e esteve por concretizar o sonho de ser profissional no União Bandeirante, equipe modestíssima que tinha no comando de ataque um tal de Paquito, artilheiro do Campeonato Paranaense de 1966.

O Juventus de 1983, Campeão Brasileiro da Taça da Prata
O Juventus de 1983, Campeão Brasileiro da Taça da Prata

Fez história também no Aliança, clube de várzea do ABC, daqueles que jogam em campos que não têm grama nem porra nenhuma. O “quase”, lá do início do texto, deve ser colocado na conta de Angela Villegas Nardini, minha avó, que em um de seus raros arroubos de raiva que a vida lhe concedeu, negou a assinatura no contrato do filho que ainda não tinha idade para decidir por ele mesmo o que fazer da vida.

Naquela época, jogar futebol não rendia prestígio e nem muito dinheiro, ainda mais em clube modesto. Mas pode ser que o medo das trovoadas de impropérios vindos da arquibancada em seu santo nome pudesse ter pesado mais na decisão dela.

A primeira vez que fui ao estádio -- que me lembre conscientemente -- era um pirralho de 6 anos.

Posso ter ido antes, sei lá. Cantos, faixas, pipoqueiro, tio do amendoim com casca (que sempre deixa um brinde no colo da criançada), gente de todas as formas e lugares. Tinha, claro, aqueles 22 caras lá embaixo correndo. Correndo muito. Eram mais velozes que eu poderia imaginar.

Na cabeça de uma criança, o goleiro é capaz de voar para defender a meta e seus mais 2,44m de altura por 7,32m de largura. É coisa para cacete. Ao contrário da televisão, tudo é mais vivo, sensorial. A visão, lá da arquibancada, não é guiada e, se você quiser reparar como funciona a linha de defesa enquanto a bola está num escanteio ou entender como é que um volante faz a cobertura daquele lateral-esquerdo maluco que só quer atacar, o estádio e o campo de visão é só seu. Desde que você saiba que, se (ou quando) sair gol, não vai ter replay.

É da arquibancada também que se percebe quem dá as cartas na equipe, quem manda prender e manda soltar. Acima de tudo, só lá você descobre que estádio tem cheiro, ainda que nem todos eles sejam exatamente bons, é bom deixar isso claro.

Poucas sensações devem ser tão lindas para um pai quanto poder levar o filho ao estádio. Esse êxtase não durou tanto para o meu. Primeiro pelo fato de sermos rivais -- da mesma forma como ele traiu meu avô, também não segui sua linhagem clubística --, depois por ele já não ter muito pique.

Neymar e Messi com seus filhos no estádio
Neymar e Messi com seus filhos no estádio

Quando nasci, meu pai já era um ex-atleta quarentão. Era claro que, se queria continuar na empreitada, precisaria fazer tudo sozinho. A redenção particular veio com minha primeira visita ao estádio sozinho. Devia ter 13, no máximo, 14 anos. A peregrinação foi longa.

Era um combinado entre amigos, mais ou menos da mesma idade, para ir ao jogo numa quarta-feira de um Paulistão decadente qualquer. É claro que todo mundo desistiu. Ou por pressão e medo dos pais ou por não terem vontade o suficiente de encarar aquele mar de gente. Eu fui. Menti. Inventei nomes de amigos e até um pai-sangue-bom-que-vai-ao-estádio surgiu.

Nelson Rodrigues escreveu certa vez que o pior cego no futebol é aquele que só vê a bola. Pois toda vez que um lateral retoma a pelota de um ponta-esquerda habilidoso, vejo meu nele o meu pai.

Johan Cruyff, maestro da Laranja Mecânica holandesa e pedra fundamental na ofensividade e posse de bola no Barcelona, não se cansa de dizer que o futebol é jogado com a cabeça. No meu caso, só restou a imaginação. Na vida, é possível evitar as derrotas de goleada quando se opta por não arriscar, se fecha e decide ver os dias passarem como se estivéssemos à espera de uma bola parada redentora, em um catenaccio italiano clássico. Mas dá também para subir a marcação ao campo adversário, trocar passes à exaustão e partir feito um louco para furar o bloqueio defensivista como num desses encantadores e derrotados escretes montados pelo argentino Marcelo Bielsa.

De pé em pé, de remédio em remédio, de tratamento em tratamento, a vida foi se encarregando de botar meu pai na retranca. Como um carrinho maldoso por trás, as pequenas vantagens foram minguando. Acontece que nessa cancha não há melhor comparação possível que com um camisa 5 sul-americano.

É desses que tomam uma caneta e correm incansáveis até recuperar a pelota, com a glória dos justos e um sorriso tímido estampado no rosto. Um Diego Simeone carniceiro. Um Obdúlio Varela pronto para fechar a boca dos entendidos e surpreender com um novo Maracanazo.

Nossa maior derrota, num Maracanã lotado em 1950
Nossa maior derrota, num Maracanã lotado em 1950

Meu avô, o Seu João, sofreu bastante com a partida da Dona Angela, a companheira de tantos anos. Bebia uísque escondido -- coisa que nunca havia feito na vida -- e, com algumas pauladas a mais que a vida lhe deu, acabou sofrendo algum distúrbio que lhe conferia uma confusão imensa para identificar pessoas. Embaralhava situações, trocava nomes e chegou a dizer, numa dessas visitas que fiz quando ele estava internado numa clínica em Itu, que o Paulo Maluf havia lhe roubado a TV.

A cena ainda é capaz de me render uma bela risada, ainda que, nesse caso específico, não se trate de ilusão por completo. Ele apenas juntou a maneira como nosso ex-governador é lembrado com o fato de que naquele momento de velhice isolada sua grande preciosidade era o televisor em cores para assistir aos jogos do Palmeiras. É bem verdade que ele talvez não pudesse saber se quem envergava a camisa 9 era o Luizão ou o Leivinha. É possível até que ele tenha vibrado com o União São João ou com o Guarani pensando que se tratava do Palestra. Mas quem é que vai poder tirar dele a possibilidade de comemorar um gol?

Isso nem minha avó conseguiu.


publicado em 10 de Junho de 2014, 07:57
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Rafael Nardini

Vive de escrever bobagem. Torcedor de arquibancada, fake de músico e curioso na cozinha.


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