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Quando eu deixar de ser pai

Hoje, pela primeira vez, pensei na minha mãe como uma pessoa que, assim como eu, está fazendo o que pode para viver uma vida boa, significativa.

Se ela também está nessa busca, isso significa que, em um nível profundo, nós somos pares. Nossa relação é horizontal e não vertical. Ela não me deve nada e eu não devo nada a ela. Ela foi a mãe que podia ser. Tudo o que aconteceu na minha infância era a única coisa que poderia ter acontecido e contribuiu para que eu seja quem sou. Para ser o pai que sou.

Agora, liberei minha mãe do seu papel de mãe, dentro de mim. Não importa se ela sente o mesmo, se ela fará um movimento recíproco. Isso não é responsabilidade minha.

Sempre soube que preciso “trabalhar” a relação com meus pais para ser, eu mesmo, um melhor pai. Achei que isso significava horas e horas de conversas, discussões e até enfrentamentos. Mas não.

É um exercício profundo. Algo que tenho feito de diversas formas: escrevendo o blog Conexão Pais e Filhos, meditando, praticando Wing Chun sob supervisão do Si-hing Gil Eanes Vivekananda, fazendo aulas da Técnica Alexander com a Ana Thomaz, correndo descalço, cozinhando, limpando minha própria casa…

Esse processo me abriu para ver a palestra (em inglês) da Rachel Naomi Ramen, sugerida por minha mãe, de uma forma diferente.

Link Youtube

Há alguns meses, ou mesmo dias, eu analisaria e julgaria o vídeo. Questionaria a intenção da minha mãe ao me enviar. Decidiria se é bom ou ruim, verdadeiro ou falso. Ao invés de experimenta-lo com todo o meu corpo, iria esquadrinhá-lo com meu racional.

Ao invés disso, eu me permiti tocar e deixei que o vídeo me afetasse. Funcionou pra mim e é isso que importa. Alguma coisa serviu. As histórias relatadas sobre pessoas em situações terminais e como isso, às vezes, transforma o olhar. Como suas prioridades mudam. Como suas verdades construídas e ressentidas se desmancham. Como a busca por dinheiro e fama perdem sentido diante da proximidade da morte.

E então, agora, entendo e sinto que um dos meus papéis como pai é, em algum momento, deixar de sê-lo. Virar um companheiro dos meus filhos. Entender e sentir que dão conta de si mesmos, que não precisam de mim, que não me devem nada. Por isso mesmo, podemos nos ajudar, nos apoiar sem que seja uma obrigação derivada dos nossos papéis.

Meus filhos tem 5 e 3 anos. Uma pessoa me disse que tenho mais dez a doze anos como pai e, depois disso, a relação precisa se transformar. Não que vá se tornar uma amizade como qualquer outra. É diferente. Mas a paternidade — como a conheço hoje — termina.

Os clichês “Filho é pra vida toda” e “Você nunca mais vai dormir tranquilo depois de ter filhos” perderam todo o sentido e força pra mim.

Hoje me sinto livre e sei que meus filhos sentirão essa liberdade. Assim, quando for a hora, nos libertaremos dessa relação e construiremos uma outra inédita, imprevisível, mas certamente viva.


publicado em 11 de Abril de 2014, 15:17
Marcelo

Marcelo Michelsohn

Escreve sobre auto-criação de vida através das relações entre pais e filhos no blog Conexão Pais e Filhos e pratica diariamente a mudança de paradigma junto com a Ana Thomaz no projeto Amalaya.


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