Quando eu morrer, não quero ser lembrado | Caixa-preta #26

O ator Eduardo Gomes conta sobre seu fascínio com o tema da morte e como isso impactou a sua vida

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Pensar na morte evoca os mais diversos sentimentos. Há quem olhe com um certo desprezo, que ache que vai ser só morrer e acabou. Há quem tenha a esperança de encontrar o Senhor. Há quem tenha medo, o mais absoluto pavor de ver-se diante do fim, de ter que abandonar tudo. 

Independente de qual seja a sua reação primal, o fato é que a morte, quando olhada a fundo em sua inevitabilidade e também com tudo que ela traz, emocionalmente falando, é um assunto difícil. Desde os primórdios, o homem depara-se com ela, evita-a, abraça-a, mas raramente é indiferente.

Eduardo Gomes é ator, mas além disso, é também fascinado por esse tema. Uma boa parcela do seu trabalho suscita o tema, ainda que de passagem. O filme Sinfonia da Necrópole, o conjunto de monólogos que ele faz em seu quarto (um que eu fui, inclusive, e recomendo, é O Esgotado, baseado no conto "Sobressaltos" de Samuel Beckett) ou a peça citada na entrevista, "Vem Vai - O caminho dos Mortos".

Nesta edição do Caixa-preta ele comenta a respeito das suas descobertas estudando o tema e como isso afetou seu trabalho e sua vida.

"Fiz uma peça uma vez chamada "Vem Vai - O caminho dos Mortos", que era uma peça que contava um pouco a trajetória inspirada nas mitologias indígenas sobre morte e renascimento, então, como diversas culturas indígenas entendiam o que aconteciam depois da morte. Tá, você morre e aí o que acontece com o seu duplo, o seu espírito, ou como eles chamam, o seu Vacá?

Uma das coisas que essas mitologias indígenas contavam é que quando a pessoa morre, ela tem que ser esquecida. Ela não tem que ser lembrada. Você não tem que ficar velando aquilo, guardando foto, chorando a memória do morto. Não, você tem que desapegar de tudo que era do morto. Todas as coisas tem que ir embora, tem que queimar, tem que jogar fora, foto nenhuma fica. 

A pessoa morreu, acabou.

Na mitologia deles, isso facilita a travessia dessa alma que abandonou o corpo. Quanto mais você chora o morto, quanto mais apegado, mais dificuldade essa alma vai ter de seguir o caminho dela."

O Eduardo conta sobre como essa perspectiva, tão contrária ao que estamos acostumados na nossa cultura, fez com que ele entrasse em conflito. Dali pra frente, apesar da confusão e da ordem cultural de querer ser lembrado, de deixar um legado, ele se viu com o desejo de ser completamente esquecido.

Questionar o significado da morte não só pode fazer com que a gente compreenda melhor algo que só vem uma vez, mas é inevitável pra todos, como também pode ser um impulso pra perdermos menos tempo e aproveitar melhor a vida.

E vocês? Como anda a relação com a morte?

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publicado em 05 de Outubro de 2017, 00:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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