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Quando eu quase fui para o brejo

Lembro até hoje do Natal dos meus 10 anos, mas tudo pelo ângulo de um adulto de joelhos. O sol ficava mais longe de mim na época, mas já rachava cocos no Sítio Bem-te-vi. Acompanhado de meu pai, cabelos brancos e um chapéu, meu avô fazia papel de avô: iria mostrar o novo bezerro para a netarada.

Meu vô, eu e onde tudo aconteceu

O sorriso quase me escapava do rosto. Conheceríamos um animal que era como a gente, uma vaca criança. Ela ia brincar com a gente e ser mais alegre que uma vaca adulta. Vacas velhas parecem que sempre foram velhas – coincidências com a vida humana nunca serão coincidências.

Logo chegamos ao curral e meu avô foi separar o bezerro de sua mãe, uma vaca enorme com tetas inchadas e cara de poucos bovinos. E começa o processo bucólico: abre a porteira, passa o gado, o bezerro fica aqui, a vaca mãe vai para lá, fecha a porteira, os netos ficam para o lado do bezerro e eu para o lado da vaca.

Isso mesmo. De tão ansioso para conhecer a vaca criança, acabei sobrando para brincar com a vaca mãe. E ela não queria brincar. Não sei se por ser chifruda ou se por estar acima do peso (uns 400 quilos), mas aquela senhora tomada por um ódio profundo começou a bufar como quem tem o filho arrancado das tetas maternais.

“Olha que bezerro lindo, vamos lá trocar uma ideia com ele”

Eu não estava com o bezerro, não adianta me chifrar, dona vaca. Não importava. Antes que o menino mirrado pudesse argumentar, a correria já estava instaurada. Ela veio para cima sem piedade, com toda a inércia do seu corpanzil e chifres apontada no alvo. Virei às costas para tentar a corrida e já estava no ar: voando por cima da cerca e me perguntando por que diabos uma chifrada não dói. Mas aterrissar dói. De cara no chão do outro lado da cerca, quase entendi o que aconteceu.

Meu pai vira o fim do processo bucólico e, sem dar razão para a senhora bufando, também disparou a correr. Ultrapassou a vaca, me alcançou antes dos chifres e arremessou para a segurança do curral ao lado. Ele era o novo alvo do ódio. Um pouco maior que o anterior, um pouco mais fácil de acertar.

Até hoje ninguém sabe como, mas costumamos culpar a adrenalina pelo o que aconteceu a seguir. De costas para a cerca e de frente para 400 quilos de mugido, ele pulou 1,60 metro de madeira com uma pirueta para trás, se jogando para a mesma segurança em que havia me jogado.

Sobrou uma plateia de netos e avô impressionada, um moleque de rosto ralado mas brilho nos olhos e um homem sem acreditar no que ele próprio tinha feito. Tudo se olhou parado por um tempo. Só a vaca reclamava seus direitos contra a madeira da cerca.

Se vocês não vêem o herói sem máscara e uniforme é porque não estão vendo do ângulo que eu via

E assim como meu avô tinha feito papel de avô no começo do dia, meu pai também fez seu papel: de herói.

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Resultado concurso cultural Dia dos Pais PdH + Nordweg

Rafael Puzilli é o vencedor do concurso cultural PapodeHomem Nordweg lançado no último dia 27 de julho. O relato dele destacou-se entre os vários artigos que chegaram ao nosso e-mail. Puzilli é o ganhador de duas mochilas da Nordweg (R$729 cada) como presente, por conta do Dia dos Pais.

Já os leitores Victor Lima e Vinícius Orsini, autores do segundo e o terceiro melhor relato, levam uma dupla de carteiras de couro exclusivas também fabricadas pela Nordweg. Cada um de vocês receberá um email nosso em breve.

E a série "Na estrada" não para por aqui - estamos ruminando a ideia de publicar quinzenalmente.

Continue mandando relatos fodas para o PdH, se inspirem aqui. Aventura não é só se meter na Europa com os brothers, contem das montanhas que enfrentaram, dos oceanos indomáveis, das matas fechadas. Buscamos relatos de expedições, malas extraviadas, braços quebrados, tempestades, animais selvagens, natureza enfurecida, locações exóticas e por aí vai.

Se você tem alguma boa pra compartilhar, o e-mail é novosautores@papodehomem.com.br. Coloque "Na estrada" no assunto do email.

Leiam as orientações para novos autores antes, ok?  Não esqueça de incluir belas fotos e, se possível, um vídeo.


publicado em 03 de Agosto de 2012, 04:25
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Rafael Puzzilli

Rafael Puzzilli ainda não nos disse nada sobre ele. Sim, também estamos curiosos.


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