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Quando meu pai virou um megatraficante

A maioria das pessoas tem problema para lidar com a morte. É fácil notar isso.

Sempre que perguntam por alguém e descobrem que ele faleceu, começam a pedir desculpa e procuram um lugar para esconder a cara. É uma espécie de culpa ou medo de terem tocado num ponto frágil, como se fossem os próprios responsáveis pela dor alheia. A verdade é que a dor é inerente ao sujeito e nada do que disserem ou perguntarem vai mudar a situação.

No meu caso, a pessoa que mais fica sem graça sou eu.

Quando me perguntam pelo meu pai e digo que ele faleceu, as pessoas já se sensibilizam e ficam sem graça pra caralho. Depois perguntam como, para demonstrar solidariedade. Aí eu digo que ele foi assassinado. As pessoas começam a se lamentar, como se eu fosse desmontar em lágrimas. Depois perguntam por que e eu lanço as possíveis teorias. Ficam tão sem graça por terem perguntado que eu acabo sem ter o que dizer para elas. Seria tudo mais fácil se, quando me perguntassem pelo meu pai, eu já falasse: “Olha, ele morreu, mas não começa a perguntar demais não, porque a história só vai ficando pior...”.

Meu pai segundo as lembranças que eu tenho.

Meu pai foi um advogado até famoso que, fora dos ofícios, era mais um cowboy do que qualquer outra coisa. Faleceu em 2000, quando eu tinha apenas sete anos. Morreu na esquina de seu escritório, assim que tentava voltar para casa. Foi abordado por dois sujeitos armados, um tal de Carlão e outro tal de Juca, que o mataram, assim como seu amigo que também estava na camioneta, uma F1000 prateada. O engraçado é que não levaram nada. Dinheiro, documentos e até a própria camioneta ficaram ilesos.

Eu falo assim, na lata, porque muitos anos se passaram e eu acabei aprendendo a lidar com essa situação. Uma coisa que me ajudou muito a superar foi levar grande parte da vida em brincadeira. A vida é muito fodida pra ser tão levada a sério. Se você for se preocupar demais e fizer drama sobre tudo que o cerca vai acabar precisando de psicólogo, psiquiatra e tudo o mais. Não acho digno, mas um humor negro ajuda nessas horas. Ajuda muito.

Mas enfim, qual teria sido o motivo, então?

Não se sabe ao certo, mas poderia ter sido por dinheiro, já que meu pai teria de receber mais de cem mil reais na época; poderia ter sido pelo “dono” da camioneta, já que ela era parcelada e faltavam apenas duas parcelas para o final do pagamento. Aqui cabe uma boa observação: o dono apagou todos os recibos de que meu pai tinha pagado e acabou ficando com a camioneta para si, mas nós não vamos julgar ninguém, né?

Ou seja, só especulação.

A justiça se faz de cega

Neste caso, a justiça brasileira fez o favor de ajudar muito também. O Carlão ficou foragido por dez anos, tendo sido encontrado apenas em 2010, trabalhando de mecânico lá em Maceió. O Juca foi preso uma vez, solto pela polícia e novamente preso, ainda no ano passado. Tudo por iniciativa privada da minha tia, que gastou sabe-se lá quanto para conseguir achar os dois.

São dez anos de espera para um crime até comum no Brasil.

Os dois acusados ainda não foram a julgamento, o que é uma beleza porque reverberou em duas ações: primeira, na época, passava Linha Direta e o caso do meu pai não pôde ser televisionado, pois o programa só aceitava casos sentenciados em lei; segunda, pode ocorrer uma espécie de prescrição criminal, que é a perda do direito do Estado de punir pelo transcurso do tempo, uma vez que eles ainda não foram a julgamento e que quase onze anos já se passaram, o que pode ser descontado de suas sentenças.

Mas eis que, após longos dez anos, um motivo para o assassinato aparece. O Carlão era um matador de aluguel de uma cidadezinha do interior de Goiás, com grande influência e, com certeza, um bom advogado que o instruiu a, primeiramente, não falar nada. Depois, quando fosse obrigado a depor, deveria apresentar a razão para o crime: meu pai supostamente teria feito uma encomenda de 40 toneladas de maconha na Bolívia e pediu para que o Carlão fosse buscar a droga. Chegando aqui, o assassino não teria recebido pelo carregamento e, por isso, quis se vingar do meu pai.

Meu pai segundo a teoria de Carlão.

Se meu pai tivesse dinheiro para fazer uma compra tão grande, minha única herança não teria sido uma ação em um clube numa cidade vizinha. Acho que eu teria um pouco mais de dinheiro. Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é a falta de nexo desta história. São dois caras aparecerem do nada, matarem meu pai e um amigo, sumirem no mundo por dez anos e depois de todo esse tempo transformarem meu pai em um traficante. Lá em cima eu falei que a vida não tem que ser tão levada a sério; olhem para essa história e vejam se é possível fazer isso.

Essa morte prematura do meu pai fez com que eu amadurecesse muito e começasse a perceber o mundo de uma forma diferente. Saber que alguém tão próximo não estará mais do seu lado te leva a preencher essa lacuna com algo. Eu preenchi com uma maturidade precoce que faz com que eu me indigne com o que está errado, não apanhe calado e sempre saia em busca das coisas que eu quero.

Meu pai me disse, uma vez, que eu poderia ser o que eu quisesse na minha vida. Hoje, eu tenho certeza disso, uma vez que ele, mesmo depois de morto, conseguiu virar um megatraficante.


publicado em 20 de Junho de 2011, 08:56
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Uiatan Nogueira

Estudante de Engenharia Civil que não trabalha e tem que dar umas aulinhas particulares para sair nos fins de semana. Dizem que se demorasse mais dois minutos a nascer seria fêmea. Acreditou quando sua mãe disse que era bonito. Tenta fazer um blog e está no Facebook.


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