Quando mudamos o orgulho por nossas cidades

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Escrevi esse texto em outubro de 2008, num antigo blog pessoal:

Lembram-se dele?

Li hoje, depois de intermináveis especulações que seguiram por anos, que a prefeitura de São Paulo abriu concorrência para efetivar a demolição do Edifício São Vito, mais conhecido por aqui como “Treme-Treme”.
O prédio mais feio da cidade está abandonado há anos e chegou a ter as entradas emparedadas para evitar invasões de mendigos, sem-teto, viciados e todo o tipo de persona non grata.
Sempre tive um orgulho besta daquela construção que, desde que me conheço por gente, encontra-se aos pedaços, adornada por imundícies e pixações diversas. Toda vez que passo em frente, sinto que algo me atrai.
Aquele monumento cravejado de tijolos expostos e janelas minúsculas “protegidas” por cobertores sujos e papelões úmidos e mofados é a lembrança da redundante degradação do centro velho da cidade. O Treme-Treme é uma cicatriz grande, saltada e aparente, evidenciando a terrível fragilidade de um coração urbano (e esse já parece estar a ponto de parar).
O São Vito é colado ao Edifício Mercúrio (que ainda funciona com mais de 90% dos imóveis ocupados) e tem ao redor todo tipo de subproduto perverso.
Dependentes desfilam nas penumbras da Cracolândia, fazendo brilhar a chama de seus cachimbos de amanhecer em amanhecer. Trombadinhas, gatunos, sorrateiros e especialistas em furtos e arrombamentos perambulam nas imediações do Parque D. Pedro II, camuflados nos vários viadutos, prontos pra atacar outro carro que para distraidamente no semáforo. Na região da Luz, a máfia nigeriana comanda com olhares soturnos diversas transações duvidosas. Tudo isso complementado por todo tipo de pedinte, prostituição promíscua, violência gratuita e demais trivialidades de qualidade ilícita.
O Treme-Treme é o núcleo de um desarrimo progressivo. É um cartão-postal de costas, que escancara o lado B da megalópole "San Paulus". Essa tal demolição, se acontecer de fato, pode ser o símbolo de um recomeço. Quando tudo aquilo vir abaixo, toda aquela área tomada de um estado inócuo pode tomar nova forma. Ou, como muitas outras ações, essa demolição pode ser engolida por uma série de equívocos e incúrias pra se transformar em mais um exemplo de omissão.
Espero modificar esse orgulho besta que sinto por uma nostalgia aliviada. Nostalgia de um tempo que orgulho besta não era assim tão besta…

Era sim um orgulho dos mais grosseiros. Mas minhas preces dos 24 anos se concretizaram e, hoje, não só o edifício já não existe como minha vaidade agora sofreu uma mutação muito agradável com a nova notícia que li na madrugada de hoje:

Sem tetos reformam o próprio prédio no centro de São Paulo

Projeto Mauá 340

A fachada do prédio no número 342 da rua Mauá era cinza, suja e pichada. Até o final ano passado, ainda era marcada pelo abandono que o edifício sofreu no final da década de 90, quando o antigo hotel Santos Dumont fechou e o edifício foi largado pelos proprietários. A frente do prédio hoje está pintada de vermelho e branco. Chama atenção em meio às lojas espremidas ao lado da estação da Luz, numa região central mas negligenciada em São Paulo.
[...]A reforma do quadro de luz foi a primeira delas. Velho e desorganizado, oferecia risco de incêndio ao prédio. O problema foi diagnosticado em um relatório feito pelos estudantes e publicado na internet[...]
[...]A fachada ganhou uma cara nova no final do ano passado, quando foi pintada por moradores com o dinheiro arrecadado dentro da ocupação.  Agora, os sem teto estão fazendo uma reforma hidráulica. Os antigos canos metálicos estão sendo trocados por modelos mais novos. A mudança deve acabar com os vazamentos e permitir uma nova pintura para a parte interna do prédio, que ainda tem o antigo visual de abandono[...]
Li no site da Carta Capital

Deixemos de lado as preocupações jurídicas, sociais, espaciais. Estamos falando de orgulho e re reformulação do que era, antes, degradado e, agora, ganha novos ares.

O San Vito era uma doideira só. Quem morava lá era maluco de pedra e conceberam histórias escabrosas. Minha prima passava em frente ao Treme-Treme de moto e cortou feio o braço direito por conta de um cortador de unha atirado de algum dos andares lá de cima. Tele que levar ponto e tudo o mais. Já houve casos de atirarem comida podre lá de cima, de caminhões que tiveram amassados ou para-brisas quebrados com alguma tigela de macarrão, pedaço de azulejo, pessoas que ganharam merda - literalmente - atirada pelos de pino-solto lá de cima.

Hoje recebemos uma pintura nova, uma cara menos pálida e sofrida no centro de São Paulo.

Coisa linda. Coisa fina.

Agora sim posso ficar orgulhoso sem ter aquele fardo besta nos ombros.


publicado em 07 de Fevereiro de 2013, 22:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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