Quando nada dá certo | Cotidiano #18

Os dias não são bons, as coisas não andam. Como fazer as coisas virarem?

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Acompanhava o movimento do sol com os olhos vidrados na mancha cintilante do teto. A claridade que atravessava a janela rebatia em alguma peça metálica da sala em silêncio e dançava como bolinhas luminosas. Deitado no sofá, abraçado em tédio, pensava em como transformar em produtivo seu dia chato.

Foi até a banca da esquina ver as notícias, folheou algumas revistas e nada. As matérias não diziam coisa alguma, um deserto em tempestade de areia e notinhas de artistas vip nas festas. Seus olhos se cansaram rapidamente, sua boca clamava por algum líquido. Seu celular berrou dentro do bolso, era o amigo querendo falar com ele, chamando-o para um café. Aceitou de bom grado e pediu dez minutos para chegar o local combinado.

Na padaria lhe esperava uma figura obtusa, ombros largos e encolhidos, o nariz adunco apontando para o chão, as pontas da boca como se estivessem sendo puxadas para baixo por duas linhas invisíveis. O chamou para desabafar da vida dura que estava levando, da maré de azar que o estava afogando os dias, atrapalhando as coisas, fodendo os planos. Tudo estava dando errado e não sabia como fazer para sair daquele sequência de infortúnios. 

Ele se sentia da mesma forma, mas foi estranho ver essa sensação externalizada, um farrapo em forma de gente, perdido e mole. Enquanto o amigo falava, ele apenas levava o copinho americano cheio de café ruim e doce à boca e fazia movimentos afirmativos e compreensivos com a cabeça. Começou a sentir certo exagero na fala do companheiro e disse que não haveria de estar assim tão ruim, que ele deveria se colocar em uma postura mais positiva, botar pra fora mais coisas boas pra receber coisas boas. O amigo disse que estava tentando, mas que a coisa estava mesmo bem feia. Ele não acreditou muito, botou ambos de pé e propôs uma caminhada. 

No caixa, o amigo reconheceu a atendente, uma conhecida dos tempos de escola, quase vizinhos.

— Ei, olá! Tudo bem? Faz tempo que não te vejo comprando coisas aqui!

O amigo respondeu pensando na conversa que acabaram de ter. Eles se olharam e o amigo, agora com as costas mais arqueadas, resolveu fazer acontecer.

— Oi, olá! Como você está?

— Ah, eu vou bem, obrigada por perguntar.

— E esse final de semana, hein? Vai aproveitar?

Ela deu uma murchada.

 Não vou poder, vou trabalhar aqui o final de semana todinho.

 Poxa... que pena. Mas me diz, e seu pai, como vai? Eu adoro aquele velho!

 Ele morreu faz um ano, mais ou menos.

 Ai, que pena! Justo agora que você está pra se casar.

— Não, eu não vou mais casar não, meu noivo me largou.

— Mas como assim, logo agora que você está assim, grávida?

— Eu não estou grávida!

O ambiente pesou feito um saco de tijolos. O homem botou o amigo de lado:

— Moça, bom dia. Quanto deu a conta?

Pagou e pediu pra ela ficar com o troco. Levou o amigo para fora, empurrando-o pelos ombros. Na calçada, de frente para o companheiro em frangalhos, desistiu da caminhada e pediu para que ele voltasse para casa. Se despediam e cada um foi para um lado da rua. Ao virar a esquina, apertou o passo e respirou aliviado. 

Seu dia estava sendo uma maravilha e ele nem sabia. 


publicado em 24 de Abril de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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