Quando o fim nunca é superado | Do Amor #65

A gente não avança e a coisa estranha fica lá, cutucando. Sabe como é o sentimento, né?

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Sem tirar nem por. A cada dia ela ficava mais a cara da mãe, o rosto fino de queixinho pontudo, a boca grande demais, linda e cheia de ranhuras. Tinha o mesmo nariz largo de buracos bem pequenininhos, parecia estar enfezada todo o tempo com os cabelos ondulados sempre jogados para os lados com as mãos. Até essa mania era herdada, a mãe adorava chacoalhar aquelas mechas que misturava um marrom e dourado para lá e para cá.

Olhar uma era ver a outra.

Isso tudo o deixava assustado por demais, tinha vezes que precisava procurar um lugar para se sentar, as pernas com joelhos afrouxados, flácidas as duas, ele sem um mínimo de controle emocional para dar a ordem de pararem quietas e rijas, eretas. Sua filha ainda era uma pré-adolescente, usava jeans e camiseta preta com camisa de flanela por cima, mas quando a encarava e ela correspondia com aquela austeridade não compatível com sua normalidade juvenil, quando o negro dos olhos dela ocupavam quase tudo nos olhos, restando apenas uma beiradinha do verde claro nas bordas, sim, da mãe, ele era automaticamente sugado para momentos no passado que há muito não valia a pena recordar.

Estavam separados já há quase cinco anos, a mãe da menina e ele, um casamento conturbado seguido de um período triste em que ele embarafustou-se na vida íntima dela que já não lhe dizia respeito. Um novo namoro da ex-esposa e as camisas molhadas com o choro no trabalho começaram a acumular. Recuperou-se com a única força que poderia tirá-lo daquela cova que era o amor pela filha. Era o que restara daqueles tempos, o fato irrefutável do melhor amor consumado que ele haveria de ter.

E o tempo passou. A menina tinha oito anos quando se separaram e agora passava as tardes de seus quase treze esparramada no sofá com os fones de ouvido falando com amigas sabe-se lá de onde, lendo textos sabe-se lá de qual estirpe de vagabundo que ganha dinheiro com Internet. E ele lá, cavando mais e mais, dia após dia, os dedos roxos, as unhas recheadas com terra de terreno moribundo. Ele fitava a correntinha em volta do pescoço longo da pequena, idêntico ao da esposa, o pingentinho de coelhinho, animal preferido da ex.

Consumido pelas recordações, já não olhava para onde os olhos apontavam. Memória atrás de memória, abraços antigos seguidos de esporros seguidos de tapas e dores nas costas de ter que dormir no carro ou no sofá. Os apelos para não terminarem tudo, as roupas jogadas no porta-malas, a aliança arremessada em sua direção. Os cabelos jogados para trás e para os lados com as mãos, o namorado novo, o desprezo, o “eu te perdoo”, o “não” depois do último “volta pra mim”.

Arrancou-se no sobressalto da poltrona, levantou a menina e desceu três tapas na bunda dela. “Por que você não me ouve quando eu falo com você! Era só você fazer o que eu te peço e nada disso ia acontecer! Eu sempre te amei, porra! Eu sempre te amei!”. Ambos pararam com os olhos arregalados. “Você está batendo em mim ou na mamãe?”, perguntou a adolescente com toda a impáfia que podia.

Ele não sabia responder.

O amor faz a gente alucinar.

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publicado em 15 de Setembro de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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