Quero ver quem é macho de nadar em águas abertas | Regras do Jogo #2

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No post sobre Triátlon, muitos disseram que a parte da natação é a mais complicada para atletas de outros esportes. E que tal se agora a gente só focasse, e dificultasse um pouco mais, essa modalidade?

Imagine que você está fazendo um passeio de barco, num lago. De repente o barco vira e você tem que nadar até a margem. Ou digamos que você está numa praia e quer nadar na direção daquela ilha para ver o que tem por lá.

Agora imagine que pra fazer essas coisas você nem mesmo fique nervoso. Você apenas ajeita seus óculos de natação, amarra sua sunga e sai nadando até o seu destino.

Começa assim

Essa é a grande curtição da modalidade de natação em águas abertas: ter fôlego e força pra nadar por grandes distâncias.

Nadar em corpos d’água naturais vem dos primórdios da natação, quando ainda não existiam piscinas. Então podemos dizer que a natação em águas abertas é a mãe da natação moderna e praticá-la é uma volta às origens. Inclusive, as provas de natação das primeiras olimpíadas eram todas feitas em lagos ou no mar.

Uma técnica que deve ser bem desenvolvida em maratonistas aquáticos é o de se localizar, e encontrar o seu rumo, enquanto nada sem perder o ritmo e a velocidade, olhando pra frente depois de respirar, afinal as provas de maratonas aquáticas não têm raias, só umas bóias esporádicas e nas travessias tradicionais não há marcação alguma, só a sua capacidade de localização.

É sempre bom lembrar que devemos sempre estar em dia com nossos exames clínicos e ter um acompanhamento médico regular. Diferentemente da corrida, passar mal dentro da água pode ser bem mais perigoso, uma vez que o resgate e o atendimento são mais difíceis. O maratonista aquático Francis Crippen, morreu numa das etapas da Copa do Mundo de maratona aquática, realizada no Emirado de Al Fujairah, e seu corpo só foi encontrado depois de 3 horas de buscas, no fundo do mar.

As competições de natação em corpos de água natural têm vários nomes, sendo os mais comuns sendo Travessias ou Maratonas Aquáticas.

As provas de maratonas aquáticas oficiais (nas Olimpíadas e nos Campeonatos Mundiais) são sempre de 5 km, 10 km ou 25 km com percursos demarcados por bóias.

Segundo a FINA (Federation Internationale de Natation), nessas provas oficiais não é permitido o uso de equipamentos que ajudem na velocidade, sustentação ou flutuação do atleta. Isso quer dizer que as maratonas aquáticas não permitem o uso de roupas de borracha, mesmo que a água esteja fria. A nadadora Poliana Okimoto, por exemplo, não conseguiu completar a prova de 10 km na Olimpíada de Londres, por hipotermia (a água estava em 19ºC).

Acabou dando tudo certo com a nossa pequena Poliana...

Sorte essa que não teve o americano Francis Crippen. Uma pena pro esporte

Em provas de travessias não-oficiais (que não contam pontos no Ranking Mundial), as distâncias podem variar bastante e são uma forma de promover a natação em águas abertas entre o público. No Brasil existem provas muito conhecidas, tais como a Travessia 14 Bis, que consiste em nadar todos os 24 km do Canal de Bertioga, a Travessia dos Fortes de 3,8 km do Forte de Copacabana até o Forte do Leme, a Travessia dos Bravos que desafia os atletas a nadar das Ilhas Cagarras até a praia de Ipanema e a Travessia de 10 km do Rio Negro em Manaus. Nessas provas as roupas de borracha são permitidas, quando a organização do evento julgar que a temperatura da água esta muito baixa.

Existem, também, os desafios de travessias tradicionais, tais como a Travessia do Canal da Mancha de 34 km entre a Inglaterra e a França, a Travessia do Canal de Bósforo na Turquia, a Travessia de Gibraltar de 15 km entre a Europa e a África, a Travessia do Estrito de Cook de 30 km entre as ilhas da Nova Zelândia, etc.

Já escrevi aqui sobre Abilio Couto o pai das águas abertas no Brasil e primeiro brasileiro a cruzar o Canal da Mancha, em 1958.

Para os mais audaciosos existe o Desafio dos 7 Mares (7 Oceans Challenge), que ate hoje ninguém conseguiu completar. Esse desafio é a versão aquática dos 7 cumes (escalar as montanhas mais altas de cada continente), e consiste na travessia a nado destes 7 canais naturais: 1) o Canal de São Jorge entre a Irlanda e a Escócia (33,7 km), (2) o Estreito de Cook, (3) O Canal Moloka’i entre as ilhas de O’ahu e Moloka’ino Havaí (43 km), (4) O Canal da Mancha, (5) O Canal de Catalina em Los Angeles, California (33,7 km), (6) o Estreito de Tsugaru entre Honshu e Hokkaido no Japão (19,5 km), e (7) o Estrito de Gibraltar.

Nestes casos os atletas só podem usar roupas de banho (sunga, maiô, biquine), touca e óculos de natação, mas podem se lambuzar com uma mistura de lanolina (90%) e vaselina (10%) para enfrentar a água gelada.

Durante essas provas longas não é permitido auxiliar o atleta de nenhuma forma e mesmo a alimentação durante a prova deve ser feita remotamente: técnicos acompanham os nadadores em barcos de apoio, a certa distância, e estendem um bastão com comidas ou bebidas bem calóricas para que os atletas as peguem, sem parar de nadar, e possam se alimentar.

A água e eu

Eu sou suspeito pra falar, por que sou viciado em travessias aquáticas, mas aposto que qualquer um que consiga atravessar um trecho de água aberta vai se sentir um desbravador da natureza e querer atingir maiores distancias.

Nota do Editor: Isso aqui não é só teoria

O Bauch, autor desse texto, realmente faz travessias aquáticas. Recentemente, ele completou uma travessia de 25km em Bombinhas–SC e nos pediu para atualizar este tópico com o link para o relato no seu blog pessoal. Recomendado.
Vejam só algumas imagens dos feitos dele.


publicado em 08 de Setembro de 2012, 08:00
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Marcos Bauch

Nascido na Bahia, criado pelo mundo e, atualmente, candango. Burocrata ambiental além de protótipo de atleta. Tem como meta conhecer o mundo inteiro e escreve de vez em quando no seu blog, o De muletas pelo mundo.


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