Reclama sim – e se reclamarem, reclama mais

Vivemos em uma cultura que reprime contestações e objeção, além de não aceitar críticas de nenhuma espécie

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O ser humano tem uma relação no mínimo complexa com o conceito da reclamação. Isso porque somos ensinados desde pequenos a não reclamar, com frases como o famoso “você reclamando da escola e tanta criança sem estudar” até o clássico “você reclamando da comida e tanta criança com fome”, que criam na gente uma certa culpa pela reclamação, vinda do fato de que, por mais que a gente desgoste de uma situação, tem sempre alguém que com certeza está vivendo uma situação pior.

Você não deve reclamar do seu trabalho chato porque alguém tem um trabalho pior, não deve se irritar tanto com seu carro quebrado porque tem gente que anda a pé, não fique se queixando do seu amigo que pediu pra passar uma noite na sua casa em agosto e agora mora lá com a esposa e os filhos, ao menos você tem amigos, cara. E as crianças são adoráveis, você precisa admitir.

Além da culpa que esse pensamento cria, existe também a nossa dificuldade natural para lidar com reclamações alheias. Não sabemos lidar com as críticas que recebemos, temos uma tendência a ser defensivos diante de opiniões contrárias, levamos críticas profissionais para o lado pessoal, levamos críticas pessoais para o lado do “me segura que eu vou dar na cara dele, eu vou dar na cara dele”. Criamos todo um sistema mental que coloca a reclamação como algo negativo, na maioria das vezes.

Mas ao mesmo tempo que é vista como negativa, a reclamação é praticamente um automatismo humano, como piscar, respirar, aceitar amostras grátis de comida em supermercado mesmo que sejam comidas que a gente não gosta e/ou não tem a menor intenção de comprar. Xingamos diante de topadas em quintas, praguejamos baixinho diante de filas sem fim, surtamos na internet quando aquele conhecido que a gente adicionou só pra não ficar sem graça posta no Facebook um spoiler de Walking Dead segunda de manhã naquele exato fim de semana que você estava muito cansado e não conseguiu ver na TV.

E suprimir esses automatismos, é claro, não funciona. Negar a própria insatisfação não faz com que ela desapareça, fingir que está tudo bem não faz com que tudo esteja, suprimir sua discordância com alguém não apenas não te faz feliz como provavelmente ainda vai fazer aquela pessoa bem infeliz num futuro próximo, seja porque ela descobriu que você não estava sendo sincero, seja porque você apenas explodiu e o que era uma leve reclamação virou um derretimento nuclear totalmente inesperado.

Ou seja, por mais que as pessoas adorem um lema “não reclame, trabalhe”, não apenas uma coisa não tem relação direta com a outra – eu mesmo já tive empregos em que eu reclamava durante toda a duração do expediente e ainda assim cumpria cada uma das minhas metas – como a reclamação é uma válvula de escape essencial para que o ser humano se comunique, reduza sua tensão, ou ao menos apenas não atire o monitor da sua máquina em um colega de trabalho porque alguém esqueceu de fechar a porta da geladeirinha da copa.

Reclamar é a nossa maneira de sinalizar que algo não nos deixa feliz, seja pro mundo, seja para nós mesmos. Se você reclama todo dia de um trabalho, talvez seja hora de sair, se você reclama de uma relação, talvez seja hora de terminar, se você reclama de uma situação, talvez seja hora de fazer com que ela mude. Também é a forma, no caso de situações que não podem mudar ou ao menos não podem mudar agora, de tirar do peito a raiva que elas causam, dividir com alguém a tensão do momento, viver aquela comunhão de almas que apenas um “complicada essa chuva, né? ”no ponto de ônibus pode permitir.

É uma parte importante da natureza humana, uma ferramenta importante da nossa mente e, se feita de maneira sincera e aberta, não é capaz de fazer mal nenhum pra ninguém. Exceto, é claro, se você reclamar demais, de maneira acintosa demais, ou intensa demais. Eu disse que num emprego antigo eu reclamava o dia todo mas não disse que ninguém lá gostava de mim por causa disso, por exemplo.


publicado em 17 de Novembro de 2016, 00:00
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João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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