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Os números do Silêncio | Veja e baixe os resultados da 1ª parte da pesquisa apresentada no documentário

Dados preciosos sobre as masculinidades no Brasil, ponderados por raça, gênero, região do Brasil, idade e escolaridade. Alguns dos números mais marcantes surgiram dessas comparações.

Depois de muito trabalho, o documentário "O silêncio dos homens" está no ar (em pouco mais de uma semana, batemos 300 mil visualizações no YouTube. Se ainda não viu, clique aqui, aumente o som e aperte o play e vá lá).

Como coordenador do projeto, fico imensamente grato, não pelo número em si, mas pelo significado que esse alcance carrega: trata-se de um tema relevante, que mobiliza e tem causado reflexão em cada vez mais pessoas.

Acredito que uma das partes mais complexas foi garantir que todas as etapas do processo fossem coesas e fiéis ao propósito  desde a concepção da linha narrativa, passando pela produção das pesquisas qualitativa e quantitativa  e chegando ao vídeo final. 

Capitaneada pela Juliana Fava, a etapa qualitativa do estudo entrevistou dezenas de especialistas com diferentes enfoques sobre temas relacionados às masculinidades, assim como homens de origens e recortes diversos.

Os achados dessa fase serviram para nortear a pesquisa quantitativa, conduzida pela equipe da Zooma Inc. e que alcançou 47.002 respostas de pessoas por todo o Brasil, agrupando dados sobre as construções e percepções das masculinidades e, a partir daí, extraindo as histórias mais significativas. 

Depois disso, ainda contamos com o apoio de Gustavo Venturi, como consultor em gênero e masculinidades, e o trabalho do Estudio Nono, que transformou uma montanha de números em um relatório visualmente lindo e gostoso de ler (e entender). 

 

 

Alguns dos números que mais mexeram comigo

Para que a pesquisa se aproximasse da base do IBGE (chegando à margem de erro de 1% e grau de confiança de 95%), foram feitas ponderações por raça, gênero, região do Brasil, idade e escolaridade. Essas ponderações geram dados preciosos e nos permitem fazer comparações entre homens de recortes diferentes entre si.

Para mim, alguns dos números mais marcantes surgiram dessas comparações. Por isso, além de recomendar que leiam na íntegra a parte 1 do report no link acima, vou destacar alguns números que, pessoalmente, me chamaram bastante atenção. (Ainda vamos lançar um report só sobre a percepção das mulheres e outros sobre como conduzir grupos de homens por exemplo),

Os homens parecem estar se sentindo mais sozinhos e confusos. 1 em cada 4 homens de até 17 anos afirma se sentir solitário sempre. E 37% deles nunca conversou com ninguém sobre o que significa ser homem.

Ao todo, apenas 3 em cada 10 homens possuem o hábito de conversar (sempre ou muitas vezes) sobre os seus maiores medos e dúvidas com os amigos. 

Um marcador interessante em relação a esse número, inclusive, foi em relação à orientação sexual. Entre homens LGBTQIA+, esse hábito é mais presente: cerca de 40%, contra apenas 26% quando a amostragem é limitada aos heterossexuais.

Os homens não-heterossexuais podem ensinar uma ou duas coisas a seus amigos heterossexuais

Outro número inédito que me marcou diz respeito à saúde mental dos homens. 

A cada 10 homens que responderam a pesquisa, 6 afirmam lidar hoje com distúrbios emocionais (muitos ainda não diagnosticados), em algum nível — ansiedade, depressão, vício em pornografia e insônia são os mais comuns. 

Apesar disso, os homens evitam buscar ajuda. Apenas 1 em cada 10 já foi ao psicólogo.Vícios como álcool, demais drogas, comida, apostas e jogos eletrônicos também foram muito presentes na amostragem. 

Dados sobre a construção das masculinidades

Quem frequenta o PapodeHomem há algum tempo não é estranho ao conceito da Caixa do Homem, que diz respeito a uma série de comportamentos esperados de quem performa masculinidade. Um dos nossos principais objetivos ao promover a pesquisa era tentar quantificar quanto algumas dessas premissas estão presentes na formação dos meninos.

Em nossa pesquisa, identificamos o quanto os homens concordam terem sido ensinados cada uma das crenças a seguir, durante a infância e adolescência:

  • Ser bem sucedido profissionalmente. (85%)

  • Não se comportar de modos que pareçam femininos. (78%)

  • Ser fisicamente forte. (73%)

  • Ser o responsável pelo sustento financeiro da família. (67%)

  • Não expressar minhas emoções. (57%)

  • Dar em cima das mulheres sempre que possível. (48%)

Somente 2 a cada 10 homens dizem ter tido exemplos práticos de como lidar com as suas emoções.

Masculinidades Negras

“O homem negro não é um homem.”

— Frantz Fanon, psiquiatra, filósofo e ativista

Como diz o sociólogo Túlio Custódio no documentário, a categoria existencial do homem pressupõe e foi pensada a partir da branquitude. Em busca de um aspiracional inatingível, muitas vezes o homem negro é compelido a ser “mais homem” que os outros, tentando atingir um reconhecimento que nunca chega (pois, dessa forma, não cabe a ele). 

Nesse sentido, enquanto homem negro, para mim era essencial entender como o recorte de raça afeta o nosso entendimento sobre o que é ser homem. Assim que recebi os números ponderados, fui atrás de separar as respostas de homens negros e brancos sobre alguns desses marcadores da "caixa do homem":

  • 79% concordam completamente ou em parte que, quando meninos, aprenderam que deveriam ser fortes fisicamente. Entre os brancos, o índice foi de 71%

  • 76% concordam completamente ou em parte que, quando meninos, aprenderam a não demonstrar fragilidades. Entre os brancos, o índice foi de 72%

  • 62% concordam completamente ou em parte que, quando meninos, aprenderam a não expressar emoções. Entre os brancos, o índice foi de 56%

  • 56% concordam completamente ou em parte que, quando meninos, aprenderam que deveriam ser dominantes em relações amorosas. Entre os brancos, o índice foi de 49%

  • 49% concordam completamente ou em parte que, quando meninos, aprenderam a gostar de pornografia. Entre os brancos, o índice foi de 45%

  • Apenas 40% afirma que teve exemplos práticos e boas conversas sobre o que é ser homem. Entre os brancos, o índice foi de 45%

Eu já desconfiava, mas ver a hipermasculinização do homem negro quantificada me fez pensar e entender sobre muito do que já senti ou li à respeito. Na fase de entrevistas qualitativa, o mestre em Relações Étnico-Raciais Henrique Restier colocou essa questão da seguinte forma:

“Todos esses estereótipos, essas representações dos homens, no sentido pejorativo, ou seja, como vilões, violentos etc., quando chega no homem negro você tem isso duplicado

Porque os estereótipos dos homens negros recaem muito no corpo, então é negão, é o homem forte, duro, áspero, violento. Essa carga é muito mais forte quando você tem o recorte racial.

Você tem muitos homens que enfrentam problemas para discutir a masculinidade porque já são vistos, a princípio, com esse estigma do homem que não pensa, do homem vinculado ao seu corpo, o homem negro não teria, do ponto de vista racista, muita sofisticação intelectual, isso tá muito preso aos estereótipos físicos.”

— Henrique Restier

Boa notícia: os homens querem romper o silêncio.

Quebrar o silêncio e conversar entre nós, homens, de forma madura e responsável, se implicando e falando em primeira pessoa, é um excelente primeiro passo para combater a restrição emocional e as dores que derivam dela.

Uma das maneiras de fazer isso é se juntando a grupos de homens (ou criando um). Apesar de só 1 em cada 10 homens afirma já ter participado de algum grupo com esse viés de trocas de informação e diálogo, 61% dos homens entrevistados afirma ter vontade de se juntar a um.

De cá, esperamos que esse material (pesquisas, filme) possam inspirar conversas, reflexões e o surgimento de grupos focados na transformação dos homens e das masculinidades por todo o Brasil, em busca de um mundo mais equitativo e justo para todas e todas.

E para você, da comunidade do PapodeHomem: algum número da pesquisa ou filme te chamou atenção? Se sim, qual foi e por quê?

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publicado em 11 de Setembro de 2019, 11:13
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Ismael dos Anjos

Ismael dos Anjos é mineiro, jornalista e fotógrafo. Acredita que uma boa história, não importa o formato escolhido, tem o poder de fomentar diálogos, humanizar, provocar empatia, educar, inspirar e fazer das pessoas protagonistas de suas próprias narrativas. Siga-o no Instagram.


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