Respire antes de comentar | 9 práticas para 2017 doer menos

Comentários da internet são difíceis, sabemos. Como lidar melhor com o mar de ódio que vemos por aí?

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Vou confessar, sou um viciado em ler comentários.

Mal leio a matéria e corro como uma criança feliz atrás de doce para ler os comentários. Como psicólogo que sou o resultado nunca desaponta, a onda de insanidade escorre farta pelos olhos e chego à algumas conclusões bem esquisitas sobre a performance virtual dos comentadores de internet.

Não importa se é sobre gastronomia tailandesa, religiões secretas da Papua Guiné, acidentes com pessoas ricas ou pobres, pesquisa científica sobre pêssego em calda quase tudo consegue descambar pra dedo no olho e chute no saco. Mal os primeiros comentários são publicados e alguém manda uma provocação que vai pela tangente do tema principal e ataca a direita ou a esquerda.

É estranho, mas de alguma forma, a coisa vira uma guerra entre duas tribos. O usual são as tribos políticas, mas inevitavelmente cai na turma que reduz tudo a concordar ou discordar.

Chega a ser constrangedor notar que algumas pessoas parecem abrir os sites randomicamente para destilar seu ódio aos seres humanos em um texto sobre o valor nutritivo do melão. É como se o texto fosse escolhido no unidunitê e a pessoa só quisesse desabafar/atacar os demais comentaristas.

Costumo perceber também que há uma dificuldade em observar um fenômeno da natureza qualquer e simplesmente olhar, assim, a comunicação segue de forma autorreferente. Feio/bonito. Gosto/não gosto. Como se fosse um imã e a pessoa estivesse grudando notícias em volta de si para se caracterizar pelos seus sabores preferidos.

E assim, vamos vendo os comentários que pretendem salvar os outros do mal da ignorância, do extremismo (seja de qualquer extremo) ou da manipulação de um órgão superior, fazendo uso da linguagem mais agressiva e inflamada que estiver disponível. "Seus burros, vocês estão destruindo o [preencha aqui com qualquer coisa] acreditando nessa estupidez!".

Entendo como é difícil e o sangue ferve quando vemos a avalanche de absurdos vindo na nossa direção, mas me conforta pensar que eles estão agindo como se você estivesse sem blusa no frio e sua mão desse um safanão na sua cabeça de preocupação de que você vai ficar gripado. É um "cuidado" meio enfezado. Meio torto, mas não deixa de ser uma espécie de gesto de carinho.

Pode não parecer, mas lá no fundo, por trás de todas essas camadas de confusão, todo mundo tem a melhor das intenções.

Não é tarefa das mais fáceis, navegar no meio de tudo isso e a gente acaba entrando na guerra pra destruir o maior número de inimigos possível, perpetuando o ciclo de toxicidade das caixas de comentários por aí.

Por isso, elenquei aqui alguns exercícios simples que podem ajudar a desarmar essa bomba de amargor no coração da web.

Algumas práticas simples

Seja um gentleman dos comentários.

Antes de tudo, respire

Você não precisa terminar um debate virtual odiando o tipo de pessoa que se tornou só porque alguém "merecia".

Essa ideia é tão relativa, subjetiva e carregada de traços de justiceiro intelectual que é melhor não apelar à isso.

Respire, bem profundamente, conte até duzentos se precisar, torne o seu dia mais leve, espalhe paz no debate. É melhor acreditar que todos querem sair mais inteligentes e estão procurando uma saída benéfica para a questão.

Leia, abrace o seu cachorro e depois volte

Esteja abastecido de afeto antes de comentar. Veja vídeos de gatinhos fofos, mande mensagens amorosas, agradeça a todas as graças alcançadas no dia, seu lá. Só não use sua escrita para manifestar ódio no mundo.

Caso escolha seguir em frente no ato com seu coração cheio de azedume, é melhor admitir que você age como um carro com escapamento adulterado, poluindo o meio ambiente. 

Você pode estar viciado, admita

Achar que você comenta atrocidades porque é uma boa pessoa e o mundo precisa ouvir umas "verdades" só vai manter você na bolha de ilusão. Ninguém cospe fogo pelos dedos por amor ao próximo. Os narcóticos e alcoólicos anônimos tem como primeiro passo admitir que são dependentes.

De tempos em tempos faça o teste da abstinência. Poupe o mundo de sua presença, veja se é a internet que precisa de você ou você que precisa estravasar as mágoas da vida pessoal na internet. Faça 3 meses de trégua de comentários e veja o que acontece.

Crivo da avó

Se sua avó estivesse na sala, você usaria aquelas palavras?

Pode soar conservador usar o crivo da Liga das Senhoras Religiosas para exercitar sua expressão pessoal, mas a menos que você admita estar só expelindo emoções tóxicas (sob o pretexto de acrescentar boas reflexões), não faz sentido envergonhar sua avozinha na internet.

Crivo da infância

Aposto que quando você tinha por volta de cinco anos seu coração ainda não tinha sofrido por amor, ou atravessado a desilusão da exclusividade materna no Édipo. Então pergunte ao seu menino interior se a bondade dele permitiria ataques gratuitos ao amiguinho. Acho que ele não ficaria orgulhoso.

Crivo do eu futuro

Imagine agora você sentado numa cadeira de balanço numa casa frente ao mar no auge dos seus setenta e oito anos. O que você acharia do seu comentário? A sabedoria de vida deixaria você gastar seus minutos preciosos para comentar na internet?

Instrua, acrescente informação (ou nem comente)

Se o objetivo é o diálogo e o debate, ajude o interlocutor a trilhar o caminho do seu raciocínio, seja pedagógico e quanto mais simplista for a réplica, seja mais dedicado nisso. Ao acrescentar informações cite fontes, se possível, para explorar outras conexões.

E se não tiver nada a acrescentar, esse pode ser um sinal de que talvez seja melhor não dizer nada.

Desconstrua argumentos e não pessoas

Importa menos quem fala, ainda que se deva ter empatia, mas a ideia que está sendo articulada. Ser doce com o articulador e firme com o tema.

Faça perguntas, deixe a curiosidade reinar

Pergunte, ajude o outro comentarista a explorar o raciocínio, principalmente se ele foi lacônico, taxativo ou simplista. "Texto merda!", "opa, a conversa seria bem rica se explicasse o que não gostou...". Normalmente a resposta é o silêncio, mas estimula os demais comentadores a não seguirem a mesma trilha.

Use emoticons para expressar seu estado de espírito e desfazer engano com ironia

Muitas vezes um comentário sem sorriso pode virar uma ironia ou piscadinha malandra na interpretação do outro. Colocar carinhas no meio da escrita evita que se esqueça que há uma outra pessoa do outro lado da tela.

Não confunda sua impressão com o que o autor diz

Não raramente colocamos palavras na boca do autor, induzimos pensamentos que não estão explícitos, simplesmente para confirmar nossas interpretações. Muitas vezes uma série de réplicas surgem de algo que nem estava no pensamento original - o que pode até se tornar um braço da discussão, desde que se tenha em mente que não foi o pensamento do autor.

O importante aqui é: tenha clareza sobre o que é impressão sua e o que objetivamente estava no texto. 

Evite causar ressentimento

Você realmente precisa deixar o debatedor destruído, humilhado ou desmoralizado para seguir na argumentação? Em ultima hipótese conseguiria ajudá-lo a ter uma derrota confortável do argumento? Pense como seria reconfortante se depois de tomar um nocaute intelectual você fosse acolhido pela pessoa? Faça o mesmo.

* * *

Nota do editor: juntamos uma série de práticas que têm beneficiado nossa comunidade há anos na busca de uma vida mais lúcida e as transformamos em nove textos. O percurso foi chamado de 9 práticas para 2017 doer menos, e o exercício que acabou de ler faz parte dele.

Ficou interessado em praticar os outros? Abaixo listamos todos, para facilitar a busca. Agora, mãos à massa. ;-)

1. Pequeno manual para sobreviver ao Natal e ano novo com a família

2. Como parar de divulgar e ser enganado por notícias falsas

3. Como tornar seus debates mais produtivos

4. Respire antes de comentar na internet

5. Não deseje mais sexo nesse reveillón

6. Ande o máximo que puder

7. A gente consegue sim melhorar nossa relação com a comida

8. Não use o cartão de crédito para acumular milhas

9. Como sofrer menos com o trabalho em 2017


publicado em 27 de Dezembro de 2016, 13:47
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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