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O ritual de passagem do meu filho

"Uma das maiores perdas das sociedades modernas foram os rituais de passagem masculinos."
- Sam Keen, filósofo, no livro Fire in the belly: on being a man

Existe uma tribo amazônica chamada Matis. Eles separam os meninos dos homens através de uma bateria de testes extremamente visceral: chicotadas, espancamento e aplicação de veneno, tanto nos olhos quanto internamente, fazem parte da iniciação. O intuito é de aguçar e testar os sentidos (principalmente a visão), a força e a resistência física após fortes enjoos e efeitos colaterais.

Somente após provar o seu valor nesse ritual de passagem é que o pequeno índio passa a ser considerado um adulto e pode participar das caçadas.

Esse cara do meio já passou por isso

Penso que definitivamente não precisaria de tanto. Apenas queria que meu pai tivesse sentado comigo seriamente e me falado sobre coisas importantes da vida.

Então fico imaginando como faria isso com um filho meu, afinal, temos cada vez menos demarcações cronológicas que sinalizam passagens da fase juvenil à vida adulta.

Alguns grupos ainda têm seus ritos de passagem, mas, de modo geral, a sociedade moderna já não tem mais xamãs ou mestres (como a figura simbólica do Sr. Miyagi) que sirvam ao propósito de confrontar um jovem arrogante e cheio de si em suas certezas mais absolutas.

Sinto também falta de espaços em que esses rituais aconteçam de forma saudável e sem tanta carga de clichê. Um belo exemplo é a famosa visita ao puteiro que ensina para o jovem, de forma completamente sem sentido, que ele deve pagar para ter uma mulher em sua cama.

Por mim, faria assim

Eu tomaria uma semana para o ritual de passagem, dividindo em grandes temáticas da vida, para ensinar a ele coisas que só se aprendem na prática.

Precisaria de demarcações concretas associadas a algumas instruções simples ou pequenos debates e diálogos.

Ouça bem, filhão

Seria uma viagem para um lugar longe. Não iríamos de avião, mas sim com algum transporte bem mais lento. Caso reclamasse da distância ou da chatice da viagem, eu teria como ensinar minha primeira lição:

"É o percurso de um homem que define a qualidade de sua vida, e não só os picos das montanhas que ele talvez tenha atingido".

Quando ele reclamasse de tédio ou cansaço, eu o deixaria falando sozinho por pelo menos uma hora, até que ele próprio percebesse a sua birra. Quando se calasse por mais de 15 minutos, eu pararia e diria:

"Às vezes um adulto precisa saber suportar rotinas chatas e maçantes por dias, semanas e meses a fio. Para você nascer, sua mãe passou por longos nove meses, e eu trabalhava dobrado para que muitas coisas chegassem à nossa mesa para te alimentar. Nem sempre eu dormia o quanto eu queria. E estou aqui, vivo.
Tenho certeza que você é capaz de aguentar duros e longos sacrifícios para conseguir o que você quer.
Isso se chama resiliência, meu filho."

A viagem seguiria, e certamente cruzaríamos por algum tipo de acidente ou pessoa pedindo carona ou passando alguma necessidade. Eu diria a ele: "o que você quer fazer? Decida rápido, paramos para ajudar ou seguimos em frente?"

De qualquer forma essa seria uma oportunidade para encostar novamente na estrada diante de uma linda paisagem e explicar o que diferencia um ser humano de um animal:

"É a capacidade de escolha moral que nos diferencia uns dos outros, filho. Poderíamos ter parado para ajudar. Você não conhecia aquela pessoa, portanto poderia seguir sua vida como se nada fosse, mas o que você pudesse fazer iria ter um grande impacto na vida dela.
Você tem dois caminhos na vida. Um deles é rápido, que custa muito para atravessar, porque você deixa de lado valores importantes e se torna uma pessoa mimada, egocêntrica e insuportável. O outro é mais demorado e aparentemente sem resultados, mas nele se cultivam boas amizades, boas conversas e felicidade para as pessoas à sua volta.
Sem dinheiro, mulheres, trabalho e lazer você sobrevive, mas sem valores você não sabe para onde está indo. Isso faz toda a diferença."

Chegando numa cidade-destino qualquer eu pediria a ele para se informar com alguém sobre um local para se hospedar que fosse em conta, gostoso de ficar e com gente diferente – nada de 5 estrelas. A ideia seria encarar a diversidade de realidades, diferente do mundo que ele imagina que seja.

Rocky ensinando ao seu filho que às vezes precisamos apanhar antes para vencer depois

No mesmo dia, procuraria algum lugar como um sítio ou fazenda e pediria um dia de trabalho honesto para duas pessoas. para mostrar para ele que o dinheiro não nasce em árvore. Diante de alguma reclamação dele, que provavelmente viria:

"Saiba que tudo o que você tem na vida foi criado em algum lugar como esse, por pessoas como essas. Cada minuto do que você faz tem um valor financeiro, e se vai fazer algo por muito tempo na vida, que seja algo que você faça bem, te dê prazer e beneficie os outros em qualquer área da vida delas.
É isso que chamo de trabalho."

A hora do pagamento seria especial para dizer:

"O dinheiro nada mais é do que uma alavanca, seja para alegrias ou aflições. Com muito ou pouco dinheiro, em uma carroça ou uma mansão, a confusão ou felicidade podem ser a mesma.
O dinheiro não transforma ninguém, só evidencia quem você é. Ricos ou pobres podem ser imbecis, porque dinheiro é passaporte: como você aplica seu dinheiro é que torna você rico ou pobre por dentro. Agora você decide como gastará o dinheiro que ganhou hoje."

Se ele quisesse posar de bonachão eu cutucaria ele a ponderar como seria o dia de amanhã, e se quisesse posar de sério eu convidaria para à noite ir no baile da cidade.

Se fôssemos ao baile, eu deixaria ele se virar para se aproximar de alguém. Eu próprio convidaria uma dama para uma dança, mesmo sabendo que ele torceria o nariz em nome da mãe. Eu já estaria satisfeito se ele entendesse que se levar muito a sério faz qualquer um enlouquecer e que para se divertir não é preciso sacanear ninguém.

"Filho meu não vira adulto sem aprender a se virar"

Apesar do meu paladar ser um pouco avesso a bebidas alcoólicas eu diria a ele que para muitas pessoas a bebida pode ser um estimulante social, enquanto para outros é uma fuga para o abismo, de modo que é melhor saber exatamente qual seria o jeito de lidar com as coisas.

O que eu deixaria claro é que existe um submundo em que as coisas não são tão bonitas quanto gostaríamos, que cada um carrega um lado podre dentro de si que deve ser olhado de perto (sem hipocrisia) para não nos engolir.

Se ele fosse afoito em cima de uma garota eu deixaria nas entrelinhas a seguinte ideia:

"O mundo à sua volta é o campo de treinamento, mas as armas estão dentro de você. Portanto ouça e deguste as mulheres, e se delicie com o que sai de seus lábios antes de beijá-los.
O sexo é só uma parte de toda a brincadeira."

No último dia, eu faria com que cozinhasse a própria comida, para entender a alquimia que existe em preparar sua própria refeição – e a vida. Depois faríamos algum exercício físico ou simulação de luta para perceber que a vitalidade nasce do movimento.

Seria valioso que ele percebesse que além de pai e filho somos parceiros e que as confissões dele seriam guardadas com os amigos.

"Sozinho você pode muita coisa, mas com amigos que te levantem, é ainda melhor."

Essencialmente, antes desse ritual com meu filho eu faria o percurso sozinho, para que a viagem fosse apenas a coroação de tudo o que ele já viu a meu respeito e não uma revelação espantada de como aquele homem sem vida se revelou um caga-regras.

Esse seria o ritual de passagem ideal para um filho meu. Sei que é bem idealista, mas você não precisa concordar ou gostar.

Apenas convido você a compartilhar nos comentários como gostaria que tivesse sido o seu e o que você ofereceria de si para as próximas gerações.

Mecenas: Schweppes

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Não tem nada a ver com idade: um menino se torna um homem quando começa a ter atitude de um.

Homens não fazem doce, eles sabem que um toque amargo deixa tudo bem mais interessante.

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publicado em 31 de Outubro de 2012, 08:38
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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