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Scripts que sabotam nossas escolhas | ID #48

Quantos e quais padrões rodam por trás daquilo que você julga ser uma personalidade única e esplendorosa (a sua)?

Nota editorial: esse ID surgiu de uma bela conversa nos comentários do ID #47, "Meu namorado é mimado". Por isso não temos hoje a tradicional pergunta abrindo o texto. ;-)


A maior parte das pessoas não é livre psicologicamente (mesmo as que se acham). Estão possuídas por forças internas que desconhecem.

Pense comigo, você não nasceu sem contexto, sem nome, sem gênero, sem nacionalidade e sem uma enxurrada de expectativas conscientes e inconscientes dos seus pais naturais ou adotivos. Você mal nasce e já vem com uma série de post-its grudados na sua personalidade.

Se é menino ou menina já começa a ser fantasiado com essa ou aquela ideia do que é ser homem ou mulher. Lentamente cada atitude sua é modulada por todos os que cercam os passos do bebê, "assim não", "fecha as pernas", "deixa ele". Parece que cada ação ganha um reforço que a potencializa ou desestimula.

O bebê chora e a mãe diz "que preguiçoso", o pai diz "meu campeão/princesa" e em seguida emenda uma atitude mais rápida para estancar o choro ou deixar a coisa seguir para o "fortalecer o caráter". Nada passa batido e não raro a criança já tem personalidade (risos profundos meus) aos 5 anos de idade. 

Olha só o jeitinho de rinoceronte dessa criança, quem diria! | Imagem por Manuela Kulpa

A criança ainda é um espelhamento inconsciente do que os pais prepararam para ela, mas sua maneira de se expressar parece tão autônoma e contundente que os pais assumem a alucinação de personalidade própria, como se eles não tivessem nada a ver com aquele comportamento.

Quando a criança dá escândalo no shopping center pela primeira vez na vida, os pais parecem arregar pois percebem, com certa vergonha, que criaram uma versão mirim de sua própria impulsividade contida.

A criança se torna então um adolescente tratado com permissividade ou rigidez extrema, passando a ser visto, quem sabe, como o folgado-rebelde ou durão-frio. Para se rebelar tenta agir como o oposto do que fez até então. Seu comportamento opositor (que ainda orbita em torno de um contraponto dos pais ou cuidadores) é visto como plena autonomia. Não é, ainda é uma cópia avessa do que era até então.

Ele cresce, paga as contas, sai de casa, vai para a empresa e se firma como o líder da equipe, o cara que não pode falhar, decepcionar, tem que ser o que está sempre antenado. Ou não, é aquele do contra, que ginga de insubordinado, que fala pelas costas, cria caso, é a ovelha negra, é mandado embora, que azarado.

Seja um azarado, um bom samaritano, um campeão, ninguém parece conseguir efetivamente agir sem aquele condicionamento. E o pior, chamamos isso de personalidade própria e nos gabamos ou amaldiçoamos por conta de um repertório psicológico que pegamos emprestado. Quantas vezes você não tinha certeza que estava agindo como "você mesmo"?

Seus modos de amar, odiar, ter esperança, trabalhar e sofrer estão todos vinculados a scripts subliminares que você segue, talvez pouco questionando, por guardar a certeza de ter feito suas próprias escolhas.

Me aprofundando nesse caminho, gostaria de comentar três scripts muito comuns de serem observados, e que muitas vezes se alternam num mesmo dia, ou até em um único minuto.

A vítima

Tem alguém querendo me ferrar, certeza certeza certeza | Imagem por Manuela Kulpa

A pessoa tem uma "síndrome de perseguida". O pão dela cai sempre com a face amanteigada para baixo, ela vai ser a última da lista de espera, nunca consegue chegar à tempo e com frequência tem azar inexplicável, até ao escolher a fila mais demorada do supermercado.

Esse é o script daquele que fracassa logo de cara, antes de começar, que acaba se identificando com a figura da pessoa emocionalmente órfã, desprivilegiada ou vitimizada por algum ser malvado que a persegue. E as vítimas desse processo parecem sustentar uma certa vaidade em torno dessas situações.

A vítima quer provar, sem o saber, que é um ser desprotegido e incapaz de lidar com forças ocultas e malignas – ela está sempre sendo alvo de inveja, crítica e perseguição.

Seu lugar favorito (e nunca admitido) é esse: o de saco de pancada.

O algoz

"Não." "Mas eu, err... nem terminei de te perguntar direito..." "Eu já disse, é não." | Imagem por Manuela Kulpa

Esse papel costuma ser incorporado por pessoas do contra, ou por aquelas cheias de opinião, transparência e verdades para jogar na cara de todo mundo. Justificada por um passado de dor, resolveu colocar as mangas para fora e esbravejar sua mágoa. 

Por tentar estancar sua ferida com dureza, essas pessoas se tornam implacáveis, começam a culpar todos pelo que atravessaram, não raro os atacando como um manifesto de sua dor.

Sem perceber, o que parecia ser contra-ataque começa a se tornar procedimento padrão. Atacam diante da menor suspeita de serem ofendidas. O resultado tende a ser desastroso, machucam, mutilam e colocam a perder suas relações mais íntimas. A agressividade não raro é sua marca pessoal, seja em forma de violência ou frieza emocional.

O salvador

Vai uma ajudinha aí? Como diria meu amigo Gandhi, "seja a mudança que você quer ver no mundo, né não", o né não sou eu que falo né | Imagem por Manuela Kulpa| Imagem por Manuela Kulpa

Numa tentativa de proteger os pais de suas dores, os salvadores recorrem a um comportamento precocemente amadurecido, responsável e cônscio de todos os seus deveres e obrigações. 

Eles engolem sua raiva e seu medo e criam uma casca de bem-resolvidos. Para qualquer assunto que quicar na mesa eles têm um conselho, uma mensagem positiva, uma ajuda desistenteressada.

E, sem que percebam, sufocam as pessoas com tanta bondade não solicitada.

A alternância de scripts

Imagine a cena, você prepara uma surpresa para a pessoa amada, com toda dedicação do mundo (o salvador) e diz para si mesmo que não tem nenhuma expectativa sobre aquilo.

A pessoa amada acaba não te encontrando naquele dia e a surpresa toda vai por água abaixo, você chora, diz que o mundo é injusto (vítima), diz que nunca mais fará nada pelos outros. E quando finalmente encontra a pessoa amada, que mal sabia dos bastidores, descarrega um caminhão de crítica, frieza e culpa (algoz).

Parece estranho pensar nisso, mas o tempo todo estamos como petecas pulando emocionalmente de um script para o outro, seja ao ver o noticiário, comentar um post no facebook do amigo, defender um colega, entregar um trabalho ou escolher o amor da sua vida.

Esse triângulo das bermudas emocional só se realimenta e gira em torno da atribuição de culpa, seja para jogar sobre o outro ou ser o redentor.

Raramente as pessoas acometidas por esses scripts se responsabilizam pelo que fazem. Estão sempre pegando ou arremessando a culpa como uma batata quente, se afastando de um processo de amadurecimento.

E como sair desses padrões?

Estou um tanto confuso disso tudo, preciso dizer | Imagem por Manuela Kulpa

Ofereço aqui um caminho possível a ser experimentado. 

Primeiro, identifique o padrão.

Investigue sua vida, repare nos apelidos, nos lugares-comuns emocionais em que é colocado, como se posiciona em situações de crise, como os outros se referem à você, quais são as expectativas que as pessoas nutrem contigo.

Segundo, brinque de abstinência.

Aja por uns quinze dias se mantendo distante de seus padões usuais. Repare no estranhamento coletivo diante da nova postura, como ações suas e dos outros parecem querer, quase compulsivamente, levá-lo ao lugar de sempre. Repare como será difícil agir fora de seus padrões sem frustar as pessoas com que se relaciona. Às vezes você se sentirá excluído de conversas habituais, não saberá o que falar e como agir, se sentira menos natural. Mas confie e siga firme.

Terceiro, olhe com relativismo e desconfiança para isso que chamamos de "eu" e acreditamos ser algo firme e constante.

Isso não implica dar a louca e ter um comportamento volúvel e inconsequente, mas apenas a abertura para reavaliar cada novo passo à partir da perspectiva presente, mesmo que não faça sentido em relação ao que já fomos.

Pois apesar de termos características aparentemente nossas, elas não são nossas e não são o que somos enquanto realidade última. Não conseguimos agarrar nem por um minuto uma constância do que é "nosso jeito de ser", só temos a aparência de continuidade, como uma ilusão mental.

Quarto, se abra para manifestações mais livres.

Seja notando os condicionamentos de apego, medo (vítima), raiva (algoz) ou altruísmo (salvador), observe que há também espaços internos além deles, para elementos de criatividade, sabedoria e generosidade autênticos.

Essa é a própria jornada de individuação, sem script, garantia ou roteiro. Boa sorte.

Aguardo comentários e experiências de vocês para seguirmos a conversa.

* * *

Nota: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br.


publicado em 02 de Julho de 2015, 18:37
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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