"Se eu for eleito, prometo limpar toda a sujeira que espalhei pelas ruas..."

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Nos últimos dias, um amigo usou o Twitter para questionar um candidato que supostamente levanta uma bandeira em prol do meio ambiente mas estava a distribuir panfletos na praia.

É verdade que eram de papel reciclado, porém papel reciclado também polui e um candidato que tem o discurso focado em meio ambiente sabe disso, ou pelo menos deveria saber. Assim como deveria saber que é bem provável que esses panfletos eventualmente parem no mar, pois sungas, biquínis e cangas não possuem bolsos.

Alguém conseguiu achar um bolso aí para guardar o panfleto?

Se sua campanha é um lixo, como será seu mandato?

Se um candidato não consegue lidar com uma questão que acredita ser importante na gestão da sua campanha, será que ele conseguirá fazê-lo depois de eleito? Eu pelo menos suponho que não. Pois um candidato que não tem criatividade para achar soluções para uma campanha sustentável. dificilmente vai focar em sustentabilidade ao governar ou legislar; na melhor das hipóteses vai ser um "carimbador maluco" a criar leis ambientais que não condizem com a realidade do país.

Acredito que o mesmo vale para os candidatos que não se preocupam para o bem-estar da população durante a campanha: provavelmente não o farão depois de eleitos. Eu pelo menos tenho essa impressão. Pelo que tenho visto pelas campanhas poucos candidatos (não vi nenhum, na real) têm respeitado o espaço urbano e as pessoas.

Sim, meu caro amigo, tudo o que eu tenho visto são candidatos gerando poluição visual e sonora, na forma de cavaletes pelas calçadas e pelos canteiros centrais das principais avenidas, carros de som tentando convencer os eleitores a votar nos candidatos anunciados no grito, carreatas de candidatos que não chamam atenção para nenhuma causa e ainda atrapalham o trânsito da cidade...

Pode até parecer, mas isso não é fim de feira. Crédito: O Globo.

Quem ainda deseja encontrar equipes de propaganda distribuindo folders que na maioria das vezes param nas calçadas ou vias, entupindo bueiros, ou geram mais resíduo para atulhar os aterros sanitários e lixões? Alguém por aí acha que esse tipo de campanha respeita o espaço urbano? Ou por acaso condiz com as transformações que você gostaria de ver na sua cidade?

No entanto, nas campanhas prevalece sempre a lógica de quanto mais visto e mais se conseguir chamar a atenção das pessoas para uma imagem pessoal e um número, maior será a quantidade de votos, não importando a mensagem que se deseja passar ou a ideia defendida, basta que vejam o número do candidato, basta que vejam o seu rosto e haja santinho para todos os lados. Os candidatos, na maioria das vezes, aparentam não se importar com as consequências. Cadê a responsabilidade social e ambiental? Sem contar aquele “fim de feira” que fica para a sociedade dar jeito depois das eleições.

Confesso que quando comecei a escrever esse texto eu até pensava em sugerir uma postura mais anárquica, como incentivar as pessoas a protestar, juntar os panfletos e entregar nos comitês eleitorais de forma massiva ou mesmo sugerir a aplicação de adesivos para desfigurar os cartazes que poluem visualmente as nossas avenidas, tal qual o artista de rua Mr. Talion fez ao colar os adesivos de “evento cancelado” nas propagandas irregulares de shows em Berlim, protesto bacana citado aqui pelo Ian Black. Seria um jeito um tanto agressivo de mostrar aos candidatos que a população não aceita que eles façam o que bem entendem com o espaço público.

Link YouTube | Conhece o projeto Vandativismo?

Por que não usar a própria campanha como projeto político de transformação social?

Depois vi que nada disso ajudaria a tornar o espaço urbano mais parecido com aquilo que eu acredito. O que me leva a seguinte ideia: por que os candidatos não utilizam o seu poder de mobilização para convencer as pessoas a transformar a realidade de maneira positiva?

Se as pessoas são capazes de se organizar para redes sociais para fazer coisas como Zombie Walk, mostrar as nádegas em estações de metrô ou mesmo fazer guerras de travesseiros, por que um candidato não pode se utilizar disso para, em vez de organizar uma carreata que só gera congestionamento e poluição, organizar um mutirão para recolher lixo no centro da cidade ou na praia?

Olha aí as crianças dando exemplo para muito candidato que se diz preocupado em sustentabilidade.

Será que o candidato "alface verde" não conseguiria muito mais publicidade positiva se tivesse com sua comitiva na praia distribuindo sacos para coletar o lixo? De preferência, ele mesmo com a mão na massa, estimulando todos a colaborar? Ora, até crianças podem ter uma ideia assim.

Será que um candidato preocupado com a saúde pública ou esporte não poderia organizar uma caminhada para estimular um hábito saudável e o desporto? Será que os candidatos não poderiam aproveitar sua capacidade de mobilização para chamar a atenção por meio de ações positivas e transformadoras da realidade?

Clique aí para conhecer o excelente Tumblr "Você suja a minha cidade, eu sujo sua cara".

Chega daquele discurso de “Se eu for eleito, vou mudar a realidade”. Os candidatos possuem condições começar a mudar a realidade já durante campanha, basta querer.


publicado em 30 de Setembro de 2010, 08:22
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Leonardo Xavier

Ser humano complicado e cheio de ideias contraditórias, viciado em chicletes e em qualquer coisa que contenha cafeína. Até entende certas coisas, mas não consegue concordar. Por isso escreve no "Discordando do mundo".


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