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Se você me amasse, não ia querer me mudar

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Quando você começa a listar incidentes passados, parece haver um bocado de coisas que seu parceiro ou parceira estaria disposto a mudar em você.
Eles percebem quando estamos evitando fazer uma ligação para nossa mãe. Querem que usemos roupas diferentes e mais interessantes. Talvez, recentemente, tenham dito que você precisa cuidar das finanças. Também gostariam que você desse mais atenção à lição de casa das crianças e que ajudasse mais quando convidados vêm para jantar. Não é muito agradável quando isso acontece.

Mas, se reparamos bem, eles não estão sozinhos: sendo honestos, há muitas coisas que – num mundo ideal – também gostaríamos de mudar em quem compartilha a vida conosco.

Pára, Barack. Chega de conversinha mole  |  Foto U.S. Embassy New Delhi
Pára, Barack. Chega de conversinha mole | Foto U.S. Embassy New Delhi

Isso tudo soa errado. O impulso de mudar as pessoas que amamos parece se contrapor ao espírito do amor. Se amamos e somos amados, por que seria necessária qualquer mudança? Amar não é exatamente aceitar o ser de uma forma inteira, em seus pontos altos e baixos?

A ideia de querer mudar nossos parceiros soa incongruente ou perturbadora porque, coletivamente, temos sido profundamente influenciados por uma concepção Romântica do amor. Essa concepção afirma que o principal indicador da presença do amor é a capacidade de aceitar a outra pessoa em sua totalidade, com seus lados bons e ruins – e, em certo sentido, particularmente em seus lados ruins. Amar alguém de acordo com a filosofia romântica é, colocando de forma bem simples, amar do jeito que ele/ela é – sem nenhum desejo de alterar a pessoa. Precisamos aceitar a pessoa como um todo para nos sentir dignos da emoção que atestamos sentir.

Um outro amor

Em certos momentos de amor, há um sentimento particularmente comovente e enternecedor de ser amado por coisas pelas quais outros já nos condenaram ou não reconheceram. Ao longo da vida, estamos sempre conscientes de que há coisas a nosso respeito que outras pessoas podem não gostar muito – e tentamos nos proteger da crítica e do desdenho. Por isso, nos excitamos quando nossos amores tratam certos defeitos de forma generosa.

Quando descobrem que somos tímidos em festas, não riem – são sempre doces e tomam a quietude como sinal de sinceridade. Não se envergonham com as roupas meio fora de moda – elas representam honestidade e coragem de ignorar a opinião dos demais. Quando se está de ressaca, não ditam que foi culpa sua beber demais; massageiam seu pescoço, fazem chá e fecham as cortinas.

Destes momentos surge uma convicção muito desafortunada com relação ao amor: a ideia de que amar alguém sempre significa aceitar a pessoa em todos os aspectos – e que ser amado significa invariavelmente receber confirmação por tudo que se é ou faz. Qualquer desejo de mudança, de acordo com essa ideologia Romântica, precisa nos deixar tristes, chateados e causar profunda resistência. Parece uma prova de que não podemos ser amados, de que algo terrível deu errado – de que se deva terminar a relação…

Mas está disponível uma filosofia mais trabalhável e madura, cuja origem pode ser traçada na Grécia antiga. Ela afirma que o amor é, em primeiro e mais importante lugar, uma admiração pelos bons aspectos de outro ser humano. Suas perfeições.

Amor é a excitação que sentimos quando nos deparamos com algo que é forte, inteligente, bondoso, honesto, espirituoso ou magnânimo em outra pessoa. Os gregos assumiram a visão de que o amor não é uma emoção obscura. Amar alguém não é um fenômeno químico esquisito, indescritível. Significa apenas venerar alguém por todas as coisas ligadas a ela que sejam verdadeiramente corretas e bem acabadas.

Na saúde e na doença. Na festa e na ressaca – por que amo essa boca  |  Foto de  J.K. Califf
Na saúde e na doença. Na festa e na ressaca – só por que amo sua boca | Foto de J.K. Califf

Se amor é perfeição, onde ficam os defeitos?

E então, o que fazemos com as fraquezas, os problemas, os detalhes que não são tão legais?

A filosofia Romântica diz para aceitarmos tudo isso. Com algumas dessas coisas, até é assim: um relacionamento não começaria se não fossemos capazes disso. Em determinado ponto, porém, atingimos nosso limite. Se nos é simplesmente obrigatório amar alguém por tudo que essa pessoa é, isso pode ser pedir demais. Como alguém nunca iria querer mudar algum de nossos aspectos, se nos conhece bem? Não faltaria a uma pessoa assim a ambição de reconhecer nosso verdadeiro potencial? Não aspiramos nós mesmos mudar e melhorar? Então porque culpamos essas pessoas por ansiar o que, de coração, queremos para nós mesmos?

Nesse momento a ideia grega do amor se volta para uma noção para a qual precisamos desesperadamente nos reabilitar: a educação.

Para os gregos, dado que somos todos imperfeitos, parte do que significa aprofundar o amor é querer ensinar – e ser ensinado. Duas pessoas podem ver um relacionamento como uma oportunidade constante de melhorar e ser melhorado. Quando pessoas que se amam ensinam verdades desconfortáveis um ao outro, elas não estão abandonando o amor. Elas estão tentando fazer algo que é muito próprio do amor: tornar seus parceiros mais fáceis de amar.

Deveríamos parar de nos sentir culpados por querer mudar nossos parceiros e não deveríamos nunca ressentir nossos parceiros por querer que mudemos. Esses dois projetos são, em teoria, extremamente legítimos, e até mesmo necessários. O desejo de corrigir nosso amor é, de fato, totalmente fiel à tarefa essencial do amor – ajudar outra pessoa a se tornar uma versão melhor dela mesma.

Infelizmente, sob a influência da ideologia Romântica, a maioria de nós acaba se portando como terríveis professores e igualmente terríveis alunos. Isso ocorre porque não aceitamos que seja legítimo (muito menos nobre) ter coisas que possamos querer ensinar e áreas onde possamos precisar ser ensinados. Nos rebelamos contra a própria estrutura da educação de alguém que ama, algo que possibilitaria que as críticas se tornassem lições em tom razoável – a serem ouvidas como ternas tentativas de reordenar nossas personalidades perturbadoras.

No papel de aluno, ao primeiro sinal de que o outro esteja adotando um tom pedagógico (talvez apontando algo que dissemos num tom talvez alto demais durante o jantar, um hábito comum no trabalho), tendemos a presumir que estamos sendo ‘atacados’ e traídos – e portanto fechamos nossos ouvidos para a instrução, reagindo com sarcasmo e agressão perante o professor.

Calma. Segura aqui. Vamos aprender juntos | Foto de fromcolettewithlove
Segura aqui. Vamos aprender juntos  |  Foto de fromcolettewithlove

Da mesma forma, quando há algo que gostaríamos de ensinar, ficamos tão inseguros quanto a sermos de fato ouvidos ou quanto a termos o direito de falar que nossas lições acabam surgindo num tom irritado e apressado. Somos professores assustados, porque reconhecemos que nos comprometemos com alunos que sequer querem aprender e, nesse processo, arruinamos nossas vidas – assim como as vidas deles (a maior parte dos alunos não tem tanto poder sobre as vidas dos professores como aconteceria no cenário Romântico, e é por isso que são geralmente melhores).

O que seria uma oportunidade para uma lição ponderada acaba virando – sob as condições nervosas e assustadas da “sala de aula” do relacionamento médio – uma série de insultos de menosprezo gritados, que caem sobre a rebelião e fúria dos discentes. Não usamos nenhuma das técnicas que somos tão cuidadosos em utilizar quando ensinamos um colega de trabalho ou uma criança. Nesses contextos sabemos usar muito tato, fazer dez elogios para cada comentário negativo, aceitamos compassar o tempo muito lentamente... Mas, na sala de aula do amor, somos os piores professores possíveis.

Ainda assim, deveríamos parar de julgar tão negativamente essas tentativas estropiadas de instruir. Em vez de encarar cada lição como um ataque à sua pessoa como um todo, como um sinal de que se está prestes a ser abandonado ou humilhado, podemos ver isso como de fato é: uma indicação, não importa o quão problemática, de que alguém se importa – mesmo que não estejam nos dizendo isso de forma perfeita (nossos amigos são menos críticos não porque são mais bonzinhos, mas porque não precisam se importar: eles vão embora para casa depois de algumas horas no restaurante).

Não deveríamos nunca nos sentir envergonhados por instruir ou precisar de instruções. O único defeito é rejeitar a oportunidade de ser educado, quando ela é oferecida – não importa o quão atrapalhadamente.

O amor deveria ser uma tentativa de crescimento mútuo de duas pessoas buscando alcançar seu potencial pleno – nunca um mero cadinho em que se busca confirmação para nossos defeitos.


publicado em 13 de Setembro de 2014, 06:01
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Alain de Botton

Pensador com uma visão afiada sobre as questões mais urgentes de hoje, escritor de livros e ensaios, fala de educação, notícias, arte, amor, viagens, arquitetura e outros temas essenciais da "filosofia da vida cotidiana". Também é fundador da School Of Life, escola dedicada a uma nova visão de formação humana.


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