Sérgio Vieira de Mello | Homens que você deveria conhecer #28

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Já tinha ouvido o nome de Sérgio Vieira de Mello na televisão, lido em jornais e revistas, mas foi em uma conversa de botequim que o nome passou do espectro distante ao real. Entre um copo e outro, Sérgio se tornou uma pessoa para mim. Naquele bar, uma grande amiga segurava lágrimas ao falar de um brasileiro que viveu e morreu por sua causa. Ele perdeu a vida dia 19 de agosto de 2003, em um atentado a bomba à sede da missão da ONU no hotel Canal, em Bagdá.
Todas as honrarias para uma vida promissora, parada antes do tempo certo

Filho de diplomata, Sérgio – ainda jovem – se tornou cidadão do mundo ao acompanhar o pai em Genova, Milão, Beirute e Roma. Na juventude, começou os estudos em filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas se formou pela Sorbonne. Em 1969, mudou-se para Genebra e passou a trabalhar junto ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).
Dentro da ONU, Sérgio trilhou um caminho que nenhum brasileiro tinha feito até então. Começou como editor de língua francesa, subiu de degrau em degrau. Foi diretor de projeto na independência do Paquistão Oriental (hoje Bangladesh), dirigiu o programa para refugiados no Sudão e em Chipre, foi representante do ACNUR em Moçambique e no Peru. Em 1999, foi nomeado pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Anan, Administrador de Transição no Timor Leste. Em 2002, no cargo de Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Sérgio era um homem de destaque e importância globais.
O que tornou Sérgio Vieira de Mello mais do que um simples alto funcionário de um organismo internacional foi o seu caráter humanista, a defesa incessante da democracia e uma surpreendente capacidade de reconhecer pelo que se valia a pena lutar, mesmo dentro de uma organização fragilizada e cheia de mazelas como a ONU. Vieira de Mello apontava frequentemente a inoperância dos programas de refugiados e a incapacidade em garantir a segurança nessas regiões. Criticava decisões do Conselho de Segurança.
Mesmo dentro da estrutura de poder da ONU, Sérgio se mantinha conectado aos seus ideais humanistas. Ao se apresentar como Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, disse:
“Nunca esqueçam que os verdadeiros desafios e as verdadeiras recompensas se encontram lá fora, no campo, onde as pessoas estão sofrendo, onde as pessoas precisam de vocês.”

Ficou conhecido por sua coragem e por assumir riscos pessoais para se aproximar das populações que as ações das ONU deveriam auxiliar. Sérgio percorreu o Camboja para se encontrar com os líderes do Khmer Vermelho e marcou reuniões repetidamente com os sérvios, apesar das evidências de chacinas que eles praticavam contra os bósnios. Aplicar de forma rigorosa a imparcialidade que a ONU precisa manter, sem cair em julgamentos e preconceitos, era uma das marcas registradas de Vieira de Mello.

Mello era um homem de palavras e também de ações

Kofi Annan, secretário-geral da ONU, dizia que o diplomata “é uma das pessoas que eu imaginava que um dia faria o meu trabalho”. Ele conheceu Vieira de Mello em 1980 e, mesmo passados anos da perda do brasileiro, ainda se refere ao brasileiro no presente. “Eu perdi um amigo íntimo, um grande profissional para as Nações Unidas, mas eu também fui o responsável por mandá-lo para lá”, disse em entrevista o ex-secretário.

As pessoas que viabilizavam a candidatura dele para a posição outrora de Kofi Annan acreditavam que Vieira de Mello pudesse alterar profundamente a estrutura da organização e a tornaria mais eficiente. “O homem para resolver qualquer problema”, já havia dito Annan. Hábil negociador, Sérgio foi muitas vezes convocado para solucionar crises.

Foi essa habilidade que o levou ao Iraque. Cerca de um mês antes do ataque que tirou sua vida, o diplomata falou sobre a presença da ONU no país: "A presença das Nações Unidas no Iraque permanece vulnerável para qualquer um que vise atacar a organização."

Uma das maiores frustrações de Vieira de Mello foi fracassar em negociar um acordo entre o Hezbollah e Israel. Em 1982, Sérgio manteve longa negociação com os militantes, que poucos dias depois de se encontrarem com Vieira de Mello atacaram Israel com mísseis terra-ar, o que deu início à Guerra do Líbano.

Sérgio representou um ideal que é difícil de não ser admirado. Alguém que se sacrifica pelo que é certo, que não luta contra soldados inimigos, mas sim por aqueles que não podem lutar por si mesmos.

Sérgio Vieira de Mello e Kofi Annan: admiração mútua

Vieira de Mello viveu pelo que acreditou. E por acreditar que podia salvar o mundo, se despediu dele.


publicado em 28 de Março de 2012, 21:02
File

Diego Dubard

Jornalista nascido em Recife, vive em Brasília desde 2007 e quer se mudar em 2012, antes que o mundo acabe. Escreve porque precisa ganhar a vida e joga rugby por paixão. Twitter: @ddubard.


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