Sete microcontos azedos

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Cochilavam na cama dos pais do guri enquanto o mundo se consumia num mormaço bom. O quarto quente, um cheiro acre, e tudo poderia terminar assim. Ele afundava-se no cabelo assustado da menina, e só cerrou o sorriso bobo para mordiscar seu pescoço suado; ela encarava a parede de um branco encardido e reparou que uma certa mancha de mofo formava o desenho de um elefante.

A mulher foi a primeira paixão do menino naquela vida; o menino foi o terceiro cliente da mulher naquela tarde sem graça.

***

Senta-se no meu colo, roça-me o nariz e nada diz. Cala-se. Pois se cá leio o jornal, lá vem ela a se enlear em mim. E assim, sem embaraço, desdobra-se e toma seu sacro espaço. Em mim, faz seu ninho, a pequena, e acena com o olhinho miúdo o sono. Ela é meu tudo quando boceja displicente e enseja um beijo carente no queixo.

E ali ficamos. Quase em namoro.

Para me beijar o bom-dia, a guria bem tem seu ritual, sua missa. Por preguiça, de forma peculiar, ela de leve sugere e apenas levanta a boca um pouco. Com afeto, vem metade do trajeto que nos separa e para. Eu me achego ao beijo, então.

Ela estala sua boca no meu rosto e só então mia um bom-dia. E sorri. Sai do meu colo, mas nunca de mim.

— Bom dia, minha filha – respondo enquanto lhe preparo o chocolate batido. Beijo-lhe a testa uma, duas vezes, e sempre um beijo doído de quem deve partir. Ela me sorri com afeição.

Somente então tomo a Glock escondida no armário, atrás de caixas de sucrilhos e potes refratários, e saio para mais um serviço. Hoje, meu compromisso é um só: executar um certo Gustavo Gitti. Não sem antes torturá-lo com um alicate. Não sem antes vê-lo sangrar como um porco abatido.

***

A enxurrada no meio-fio levava o barquinho da criança, que parecia se divertir como nunca dantes. O menino pensava onde aquele paquete de papel sulfite ancoraria, e cogitou os mais longínquos paraísos, todos repletos de tesouros e aventuras; os mais remotos tempos, com monstros do mar e sereias; as mais variadas sortes do almirante.

Não imaginava que seu barcote encontraria um cachorro morto com olhos abertos, vísceras expostas e vermes a lhe roerem a carne.

***

A chuva percutia com fúria o teto de zinco e reverberava na casa toda, o que impossibilitou que as gêmeas pequenas ouvissem os gritos da mãe, estrangulada no quarto ao lado pelo padrasto.

Elas apenas olhavam pela janela e, encantadas pelo vapor que saía do asfalto quente, riam baixinho.

***

— Está falando sozinha, mamãe?

— Sempre.

***

O primeiro caso de estupro naquela calma cidadezinha suscitou um horror resplandecente e curioso. Quem havia de ser o monstro? O autor de tamanha atrocidade?

Na vítima, dona Eugênia, mulher violada no alto de seus setenta e três anos, o canalha simplesmente fez arder o sangue como nunca houvera, porém.

A velha não prestou queixa. De vez em quando, ao lembrar do caso, ela não consegue segurar um sorriso safado.

***

Ela cura meus porres como quem faz uma oração. Sem assombro, me toma nos braços, num suspeito abraço, deixa-me estar no sofá. Beija minha testa aqui e acolá enquanto balbucio meu cio sem pudor.

Eu a amo com ardor.

Alta madrugada e lá estamos, num balanço preguiçoso, num amar sem fim. Na rede, dormem as crianças; calam-se os cães outrora a ladrar lá fora. Cá somos dois e um. Às vezes, sem motivo algum, ela chora, embora faça do meu sexo morada. Sem pressa.

Eu a amo com devoção.

E quando começa a despontar o sol, seja ele sustenido ou bemol, ela me sacode do sono profano e pra fora me põe a correr.

— Anda, homem! Se tua mulher acorda e não te encontra em casa, será um Deus-nos-acuda só.


publicado em 21 de Agosto de 2011, 09:09
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Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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