Seu cão não é uma pessoa (mas também não é um lobo)

Qual o jeito menos danoso de cuidar do seu bichinho?

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Que os cães vieram dos lobos, isso nós já sabemos.

Aconteceu entre 20 e 40 mil anos atrás mas como, quando e onde exatamente essa domesticação ocorreu são perguntas sem respostas exatas.

Novos estudos e descobertas surgem sempre pra nos fazer questionarmos tudo aquilo que achávamos que sabíamos. A teoria mais aceita é de que os lobos mais mansos começaram a se aproximar dos grupos de humanos e, aos poucos, os dois lados foram vendo vantagens nesse relacionamento. Mas uma coisa é certa e indiscutível: o cão é o melhor amigo do homem.

Nossos amigos peludos passaram de ajudantes em trabalhos e tarefas a membros da família. O IBGE deixou isso bem claro numa pesquisa de 2013 que mostrou que em 44,3% dos lares brasileiros mora pelo menos um cão. São 52,2 milhões de companheiros caninos vivendo em casas, o que, pasmem, é maior do que o número de crianças até 14 anos!

O interesse por essa relação vai longe e um estudo muito legal mostrou que esse laço é tão profundo que nas interações com seus cães as pessoas liberam o mesmo hormônio que liberamos quando interagimos com nossos filhos ou pessoas amadas e, só pra fechar esse raciocínio, os cães também o liberam. É uma linda relação de amor recíproca, desenvolvida ao longo de milhares de anos.

E por que eu estou te falando isso e jogando esse monte de dados e estudos científicos em cima de você? Porque com o advento da internet e das famigeradas redes sociais, ficou fácil propagar sua opinião por aí, e eu tenho visto muita opinião sobre comportamento de cães que vem me preocupando. E eu quero que a sua relação com seu dog seja maravilhosa e saudável, para você e para ele.

Seu cão não é uma pessoa

Hoje, muitas pessoas veem seus amigos de quatro patas como membros da família e isso é lindo, mas não quer dizer que seu cão seja uma pessoinha. Depois desses vários estudos mostrando que rola toda uma química no teu cérebro quando você está com seu bebê peludo, quem sou eu na fila do pão para te falar que seu peludo não é seu bebê? E, na verdade, eu não quero te falar isso, até porque toda noite durmo de conchinha com a minha cã.

Mas por mais que a gente ame de paixão nossos cães e nos esforcemos para dar a melhor vida possível para eles, tratar seu cão como um ser humano não é bom. Não é bom para você e não é bom para ele.

Eu não vou me aventurar nos campos da psicologia humana porque não é minha área, mas vou dar uma palhinha de que a dependência afetiva exagerada que algumas pessoas desenvolvem com seus pets é um problema para eles. Então, vou falar da psicologia não-humana, que é o que me cabe.

Quando você priva seu cão de certos comportamentos naturais para um cão, você não está fazendo bem para ele. Falo isso mais do que como veterinária, como dona, porque quando eu ganhei aquela cã que dorme de conchinha comigo há 15 anos atrás, eu tinha 11 anos e zero ideia de como educar um cão, e por conta disso, eu acabei fazendo muitas coisas erradas com a Mel, que eu tento corrigir ou pelo menos amenizar até hoje, e isso trouxe e ainda traz uma perda de qualidade de vida para ela.

Claro que cada família vai determinar os limites da interação com seu cachorro, tem cachorro pra quem a casa é fora dos limites, tem cachorro que pode entrar na cozinha, tem cachorro que sobe no sofá e tem cachorro que dorme na cama. E está tudo bem seu cachorro ser qualquer um desses.

Contanto que você forneça comida, água, abrigo, distração, enfim, um ambiente seguro e acolhedor, seu cachorro pode ficar onde você quiser.

Mas quando você sai para passear exclusivamente com seu cachorro num carrinho de bebê, quando você veste ele com mil e uma fantasias e adereços que não servem para proteger do frio, quando você começa a oferecer tantas regalias e mimos e a poupar tanto ele de ser um cão, aí não é ok.

A questão não é que seu cachorro tem que viver na pracinha brincando com 28 outros cães chafurdando na lama. Até porque se tem uma coisa que cachorro é igual gente é que cada um tem uma personalidade.

Mas fornecer uma boa socialização para o seu cão, atividades adequadas para a raça e idade, e uma vida de cão são fundamentais. Às vezes a gente tem que parar e pensar: eu estou fazendo isso porque é bom para o meu animal ou porque é bom para mim?

Impor certos hábitos que não são naturais para ele pode resultar em vários problemas de comportamento e, infelizmente, eles não falam. A forma como ele te conta que está estressado, entediado, ansioso pode ser muito sutil.

Então, a conclusão dessa primeira parte é que, sim, é verdade o que andam dizendo por aí. Seu cão não é um ser humano e não é bom para ele ser tratado assim.

E ele também não é um lobo

Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, não obstante.... eu tenho uma péssima notícia para aqueles que adoram propagar a teoria da dominância: ele também não é um lobo!

Isso implica em te dizer que você, sua família e seu cachorro ou cachorros não são uma matilha. E não, você não é, nem nunca vai ser o alfa. Mesmo que você tivesse um lobo em casa, pois da mesma forma que um cão não é uma pessoa, uma pessoa não é um cão.

O estudo que deu origem a toda a construção dessa tal de teoria da dominância foi feito com lobos. E ok, cães e lobos compartilham várias características até hoje, mas esse estudo beeem antigo foi feito com um grupo de lobos que não se conheciam e foram mantidos em cativeiro juntos.

Outros estudos que vieram depois demonstraram que na natureza a estrutura social do lobo é bem diferente disso.

E aí nós temos várias divergências sobre lobos terem ou não uma hierarquia bem definida, mas independente disso, em qualquer espécie, seja qual for a estrutura social, a hierarquia existe por um motivo.

Ela está muito relacionada à reprodução, obtenção de alimentos e segurança. O que foi observado é que cada membro da alcateia tem uma função e é respeitado nisso. Não funciona de uma forma simplória como "tem um alfa que manda em tudo e todos são submissos a ele". Então mesmo que existisse um alfa o fato de você dar ração e casa para o seu cão não te tornaria um, a relação de humanos com seus cachorros é completamente diferente da relação de cães com cães, do mesmo jeito que sua relação com ele é diferente da que você tem com outras pessoas, em todos os aspectos possíveis.

Além disso, nós temos que pensar um pouco além dos fatores genéticos, o comportamento é determinado por vários fatores, não só a genética e os instintos, o ambiente que o animal é criado influencia muito.

Vou dar como exemplo alguns lobos e cachorros do mato com os quais já trabalhei. Mesmo sendo animais selvagens, por terem sido criados por humanos (por motivos de foram resgatados filhotes), apresentavam um comportamento extremamente dócil. E até por isso muitos animais selvagens que passam por essa situação não podem ser soltos.

E qual o grande problema de você tentar aplicar isso na rotina? Tentar ser dominante sobre seu cão implica em conseguir o comando e o respeito através da força, da intimidação e, como diriam nossas avós, temer e respeitar são coisas diferentes. Quando você tenta corrigir o comportamento do seu cão com punição e força, isso pode trazer um grande estresse ao animal, causar medo.

Esses sentimentos, quando infligidos de forma constante, podem ocasionar uma piora nos comportamentos que você quer extinguir, ou pior, causar outros problemas comportamentais que podemos nem perceber que estão relacionados a isso. A gente não quer causar medo e ansiedade nos nossos amigos peludos. Inclusive, o uso dessa “técnica” pode resultar em agressividade por parte do animal porque, no que diz respeito a eles, muitas vezes o ataque é a melhor defesa.

Então, agora que eu já falei bastante sobre o que não é legal, eu vou falar um pouco sobre o que é.

E como proceder, então? Qual o jeito menos danoso de cuidar do meu bichinho?

Já que seu cachorro é um cachorro, nem uma pessoa, nem um lobo, você tem que amar, alimentar e nunca abandonar, mas também educar.

Muito da psicologia infantil foi obtido por estudos com animais. Muito do que é aplicado em um é usado em outro. Nisso, seu cãozinho se parece muito com uma criança. Educar implica impôr limites, corrigir comportamentos e não ceder à birra.

Depois de muitos anos estudando comportamento animal, lendo vários materiais e me atualizando, ainda acho que a coisa mais importante que aprendi se chama reforço positivo.

O reforço positivo nada mais é do que recompensar comportamentos que nós queremos que se repitam. Seria o oposto à punição.

“Tá mas e se meu cachorro nunca faz nada certo, eu não posso brigar com ele?”

Aí entra um outro reforço, o negativo, que é basicamente ignorar os comportamentos que você não quer que se repitam. O uso do reforço positivo é difícil, é demorado, mas (juro que é a última vez que cito estudos) vários teóricos que são referência no estudo do comportamento e vários estudos práticos demonstram que ele é mais efetivo que a punição, então, vale a pena tentar aplicar esses dois reforços com muita paciência e dedicação.

E, se seu cachorro tem problemas de comportamento, está tudo bem em procurar ajuda. A internet é uma excelente fonte de informação e pode te ajudar muito, mas procure sempre fontes confiáveis.

É importante lembrar que, como em toda ciência, o comportamento animal está sempre tendo novas descobertas e evoluindo. E é claro que existem profissionais que se dedicam a isso a quem você pode e deve recorrer.  

Ensinar e modular o comportamento do seu companheiro peludo e ter o respeito e obediência dele não é algo que você tem que obter à força, mas o amor e felicidade dele também não são coisas que você ganha com mimo e permissibilidade. Como tudo na vida, é uma questão de equilíbrio. E no fim do dia tudo que seu cão precisa é ser um cão!

Bibliografia

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Cafazzo, S.; Lazzaroni, M; Marshall-Pescini, S. Dominance relationships in a family pack of captive arctic wolves (Canis lupus arctos): the influence of competition for food, age and sex. (2016).

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van Kerkhove, W. A Fresh Look at the Wolf-Pack Theory of Companion-Animal Dog Social Behavior. (2010).


publicado em 08 de Novembro de 2018, 00:00
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Iandara Gouvea

Médica Veterinária pela Universidade de São Paulo, com graduação sanduíche em Comportamento Animal pela Anglia Ruskin University - Reino Unido. Atua nas áreas de medicina de animais silvestres e exóticos e comportamento animal.


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