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Sexo das Ideias: Como os cartunistas da New Yorker geram 500 novas ideias por semana

A tradução da semana traz o processo criativo dos cartunistas e como eles lidam com o alto índice de rejeição.

Toda terça-feira os mais ou menos 50 cartunistas freelance da New Yorker entregam um lote de desenhos para serem considerados para publicação. Alguns os enviam por e-mail, e outros seguem até o escritório da revista no One World Trade Center para entregar pessoalmente as cópias físicas. Mas todos os cartunistas têm algo em comum: a chance de que algo entre mesmo na revista é muito pequena.

Cada cartunista entrega até 10 sketches, então pode haver até 500 ideias competindo por aproximadamente 12 espaços na revista. “Numa boa semana, você vende um dos seus 10”, diz o cartunista Matt Diffee. “É uma taxa de 90% de rejeição.”

E esse é o mesmo problema encontrado por todos que trabalham na área de criação – prazos apertados, ambiente altamente competitivo, público exigente, e pagamento incerto. Se o cartunista não impressionar, perderá um pagamento de até US$ 2000.

Então como é que isso funciona? E como eles geram tantas ideias toda semana? À frente do novo filme Very Semi-Serious, o editor de cartuns da New Yorker, Bob Mankoff, e um punhado de desenhistas compartilham como fazem para elaborar tantos conceitos engraçados, mesmo quando não estão particularmente de bom humor.

Como ter uma boa ideia

Bob Mankoff descreve a geração de ideias para cartuns como “sexo das ideias”.

“Ideias dão nascimento a mais ideias,” diz ele. “A técnica clássica é colocar juntas coisas que não combinam”, diz ele. Ele começa a improvisar, oferecendo um ambiente potencial para um cartum: o céu. Temos nuvens, um portão e São Pedro. É um lugar para onde as pessoas querem ir, mas em que a entrada é difícil. Talvez Mankoff pudesse desenhar o céu como uma boate com um leão-de-chácara fazendo triagem na porta? “Quem sabe o céu tenha arame farpado para impedir a entrada de anjos imigrantes?” continua Mankoff. “Ou uma entrada com uma dessas vias expressas para quem não está sozinho no carro?”

Ideias dão nascimento a mais ideias.

“Esse é o processo criativo básico”, diz ele. “Você começa a elaborar em torno de ‘e se isso? E se aquilo?’”

Mankoff vendeu seu primeiro cartum para a New Yorker em 1977, se tornou editor de cartuns da revista em 1997, e já escreveu um livro para cartunistas, The Naked Cartoonist. Ele sempre se surpreende com pessoas que lhe dizem que têm uma boa ideia para um cartum. Uma só ideia nunca seria suficiente, e ela raramente é boa. “A forma de atingir as boas ideias é ter muitas ideias e descartar as piores,” diz Mankoff.

O fracasso é importante para o processo criativo, aponta Mankoff. “Você aprende muito mais quando faz algo errado e está aberto a receber críticas do que quando faz algo certo”, explica ele. “E isso também o ensina a ser resistente, e você vai precisar, considerando que trata-se de uma empreitada criativa e competitiva.”

"Por favor, diga ao rei que lembrei o fim da piada!" Uma das tentativas de Mankoff no início de carreira que não entrou na revista. Utilizado com permissão de Bob Mankoff. ©BobMankoff

Mankoff submeteu “milhares” de cartuns à New Yorker antes de ter um aceito. As rejeições o forçaram a mudar o enfoque. “No início eu tentava fazer piadas ao estilo de cartunistas estabelecidos, mas o que a New Yorker buscava era pessoas com voz própria”, diz ele. Foi ao repetir tantas vezes o exercício que Mankoff acabou desenvolvendo um estilo próprio.

Considerada a alta taxa de rejeição, porque tantas pessoas ainda tentam colocar seus cartuns na New Yorker? “As pessoas buscam a New Yorker porque tem uma visão distorcida do mundo”, diz Mankoff. “É assim que eu me sinto com relação a tudo. Eu sigo minha vida como uma piada, não são só os cartuns.”

Repensando os Rejeitados

Para Carolita Johnson, um cartum rejeitado não é um cartum morto. “Eu diria que 80% do que vendi, apresentei mais de uma vez”, diz ela. “Sendo algo que eu gostava muito, dava um tempo e apresentava de novo”. Ela mantém uma lista cada vez maior de ideias incompletas próximas aos cartuns não vendidos, e várias vezes tenta achar uma combinação. “Pode ser que eu tenha um cartum que parecia bom no seu tempo, mas que hoje parece bobo”, diz ela. “Mas aí eu tento desenhar de outro jeito e algumas vezes me surge algo melhor.”

Um cartum rejeitado não é um cartum morto.

Além de contribuir para a New Yorker, Johnson trabalha em três diferentes lugares como ilustradora e contadora de histórias. A falta de tempo a motiva a trabalhar rápido. “Depois que comecei a desenhar melhor, decidi que era perda de tempo fazer sketches, e comecei a desenhar todos os cartuns diretamente em papel de apresentação, prontos para a venda”, diz ela. Ela geralmente começa com o texto e então constrói a imagem ao redor dele. Johnson leva de 30 a 60 minutos para fazer um cartum, mas não garante que seja engraçado.

“Já vendi cartuns que nem sei por que são considerados engraçados”, diz ela. A imagem abaixo Johnson considerou mórbida demais. “É quase um pensamento inconsciente que coloquei no papel”, diz ela. “Algo que não se diz, mas às vezes se pensa” A New Yorker comprou, o que enfatiza um ponto importante sobre criatividade e humor. Ser inteligente é tão importante quanto ser engraçado. “Diz mais respeito a produzir um insight do que apenas buscar uma risada”, diz Johnson.  

"Mãe! Pai! Acordem! Vocês só têm mais uns trinta ou quarenta anos de vida!" ©Carolita Johnson/The New Yorker Magazine/cartoonbank.com

Competir contra os melhores ilustradores no país por um dos cobiçados espaços nas páginas da New Yorker não desestimula Johnson. E poderíamos até duvidar disso, não fosse sua experiência passada. “Costumava trabalhar como modelo, e tinha que entregar fotos para gente que às vezes fazia cara esquisita quando recebia”, diz ela. “Você acha que entregar cartuns é difícil? Tente entregar você mesma. É fácil viver com cartuns rejeitados.”

Penetre a zona criativa na marra

A New Yorker não fornecesse temas de trabalho, então os cartunistas podem levar seus desígnios e anseios para qualquer lado. Esse tipo de liberdade não implica que as ideias necessariamente fluam mais fácil. “Fico bloqueado 95% do tempo”, diz Matt Diffee. “O bloqueio é o normal, a criação é exceção.” Para soltar a criação, ele começa toda semana com sessões de duas horas de brainstorming, muito café e papel em branco. “Esvazio a cafeteria, encho o papel,” diz ele.

O bloqueio é o normal, a criação é exceção.

De algumas formas, o processo é clínico, porque ele tem que entregar algo toda semana, estando ou não inspirado. “O truque é não esperar pela inspiração, mas começar a trabalhar e deixar que esses momentos ocorram enquanto você trabalha,” diz ele.

Os cartuns de Diffee são motivados por palavras e ideias que misturam elementos surpreendentes num contexto banal – e as imagens vêm por último. Para produzir conceitos, ele usa associações de palavras. O cartum favorito de Diffee publicado pela New Yorker (abaixo) começou com ele querendo fazer algo sobre o conceito de bloqueio de escritor. “Escrevi as palavras e então pensei em ‘bloqueio e lançamento de escritor’. Teríamos vários jogadores de futebol americano tentando bloquear um passe, mas ficou esquisito demais”, diz Diffee. “Que tal uma pessoa a cavalo? Bloqueio à cavalo? Não funcionou.”

"Bloqueio de avião escritor." ©MatthewDiffee/The New Yorker Magazine/cartoonbank.com

Ao longo de alguns anos ele girou em torno de uns 40 conceitos. Em certo ponto começou a adicionar palavras à expressão “bloqueio de escritor” – bloqueio de escritor de publicidade, bloqueio de escritor de autoajuda de negócios – e isso o levou a “bloqueio de avião escritor”. “E logo que vi essas palavras, soube que o desenho precisava ser um avião sozinho no céu,” diz ele.  

Diffee gera cerca de 150 conceitos por semana, que ele reduz a 10 que considera “bons o suficiente para receber minha assinatura”. “A maioria das ideias não me satisfaz inteiramente”, ele admite. “Se eu tiver 10, provavelmente duas eu gostarei bastante, duas me deixarão um tanto envergonhado, e haverá seis ali pelo meio que são ok.” Ele estima um sucesso de aproximadamente 3% nos últimos 16 anos, mas colocou os rejeitados em um livro book collection que coletou cartuns muito bobos, de humor muito negro muito sacana para a New Yorker.

“Nós [os cartunistas da New Yorker] sempre quisemos fazer dinheiro com os cartuns rejeitados, e várias pessoas tentaram formas diferentes, em grupo ou individualmente, mas fora os livros, não conseguimos descobrir nenhum outro bom modo”, diz ele. “A New Yorker ainda é a melhor cliente por aí, então a melhor aposta é seguir tentando até conseguir vender o trabalho para eles.”

E como é com você?

Como é seu processo de criação e como faz as ideias surgirem em prazos apertados?

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Nota da tradução: esse texto foi originalmente publicado no site 99u.com.


publicado em 28 de Novembro de 2015, 00:05
Mcmcue

Matt McCue

Matt McCue é escritor do 99U. Também já contribuiu para a Fast Company, Fortune e para a ESPN The Magazine. Vive em Nova Iorque, mas adora viajar longas distâncias para uma boa refeição. Está no Twitter.


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