Shyamalan, os Fugitivos e o “Racebending”

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Esses realmente não são bons dias pra se chamar M. Night Shyamalan.

E não apenas porque deve ser complicado soletrar isso tudo numa fila de banco, mas porque além de ter uma das mais rápidas seqüências de ascensão e queda que um diretor já teve em Hollywood (em dez anos passou de “novo Hitchcock” com “Sexto Sentido” para “aquele indiano chato que faz aqueles filmes ruins” em “Fim dos tempos”) ele agora se envolveu em uma questão controversa.

O chamado racebending em seu novo filme “O último mestre do ar”.

O racebending (que se você traduzir como “dobra de raças” soa muito estranho) é um neologismo criado recentemente por conta do próprio filme de Shyamalan (o que com certeza não pode ser um bom sinal) e define a prática de se escolher para um papel um ator de etnia diferente da do personagem original.

Sim, isso realmente aconteceu.

Isso acontece em “O último mestre do ar” - trailer legendado aqui - , adaptação do desenho animado Avatar do canal Nickelodeon, com várias mudanças que parecem ter a intenção de clarear os mocinhos e escurecer os vilões, como protagonistas que eram quase esquimós e se tornaram caucasianos ou eram asiáticos e se tornaram indianos de uma hora pra outra, mais ou menos como numa revista em quadrinhos ruim da década de 70.

Diagrama explicativo: essa salada é o "racebending".

A questão também ganhou visibilidade com a chamada de casting que a Marvel fez para seu futuro filme baseado na série de hq’s “Os fugitivos”, de Brian K. Vaughan. Nela a descrição da personagem Nico, claramente mencionada e desenhada nos quadrinhos como sendo descendente de japoneses, não envolve nenhum tipo de especificação étnica, ao contrário de todos os outros protagonistas da trama, no que está sendo tratado como uma tentativa de whitewashing (o chamado “embranquecimento”) por parte da Marvel para tentar tornar o filme mais vendável.

Claro que esse processo não é inédito e nem vem de hoje. Desde casos como o Rei do Crime negro em Demolidor, o John Constantine americano no filme de Keanu Reeves ou a tentativa frustrada de que nos cinemas Hogwarts não ficasse necessariamente na Inglaterra (passando até pelo Rob Fleming que se tornou Rob Gordon na adaptação de “Alta Fidelidade”), nenhum grande estúdio nunca mostrou nenhuma timidez em modificar personagens visando aumentar a empatia da obra com o público norte-americano, mas essa parece ser a primeira vez em que isso realmente gera grande repercussão.

"Once you go black, you'll never go back..."

Sites como Racebending.com passaram a analisar lançamentos, resenhar obras baseado no seu tratamento da questão étnica e organizar boicotes a filmes que eles consideram não defender a pluralidade de etnias, como o de Shyamalan - não que os filmes recentes dele precisem disso pra dar prejuízo, claro - mostrando que existem pessoas aí fora que realmente vão se importar se algum dia fizerem o remake de um filme do Bruce Lee com o Zac Efron ou uma série do Shaft com o Dev Patel.

Mas e pra você, qual é a importância disso?

Um estúdio tem a liberdade de adaptar uma obra da forma que considerar mais interessante? Você deixaria de ver um filme do seu personagem favorito por esse tipo de razão? O cinema atual está fazendo algum avanço na representação das diferentes etnias? Chegamos a um nível de consumo cultural consciente o bastante pra que boicotes desse tipo de sejam efetivos? E se chegamos, porque todo mundo foi ao cinema ver “Os Mercenários” mesmo recebendo aqueles 300 emails pedindo pra não ir? E porque criticamos o whitewashing mas ninguém se pronuncia quando temos um deus nórdico negro na adaptação de Thor para os cinemas?

Questões, amigos, questões.


publicado em 12 de Setembro de 2010, 17:11
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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