Slackline: o que o esporte tem a te ensinar?

Muito mais do que equilíbrio físico, pode ter certeza

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Imagine o seguinte: você com 1,63m, pesando apenas 47 kg e uma autoestima se arrastando pelo chão. Complicado né?

Pois é, esse era eu há uns três anos atrás, quando resolvi mudar. Procurei recuperar a boa alimentação, entrei em uma academia e, por um tempo, adotei as corridas para manter alguns hábitos saudáveis. O resultado do que estava procurando apareceu quando conheci Slackline e nele encontrei uma forma de manter um diálogo em um tripé vital: mente, corpo e alma.

Como todo início de prática, comecei sem jeito, e até pensei em desistir, mas nunca esqueci meus três primeiros passos naquele fim de tarde de um sábado, em novembro de 2013. E, de lá pra cá, esse esporte me ensinou muito sobre as coisas a minha volta e, principalmente, sobre mim mesmo e meu papel no mundo.

Pra quem não conhece ou ouviu falar sobre o Slackline, explico que é um esporte com o objetivo de trabalhar o equilíbrio por meio de uma fita presa em dois pontos fixos.

Ele ajuda em habilidades mentais como ansiedade, medo, concentração, noção de espaço, entre outros, e também habilidades físicas como equilíbrio, respiração e consciência corporal. Além disso, ainda nos dá uma boa noção de autoconhecimento durante a prática na superação de obstáculos e evolução.

Compartilho, então, algumas coisas que aprendi com ele – o Slackline.

1. O equilíbrio

Uma das primeiras coisas às quais o Slackline nos remete é o equilíbrio. Só ficar em pé em cima de uma fita de 2,5 ou 5cm de largura já é um desafio. Muita gente julga impossível. Pra esses, uma observação rápida: sabia que ficar em pé no chão é um ato de equilíbrio? Basta observar bebês aprendendo andar.

Mas o equilíbrio do qual falo aqui é aquele que te faz um dia estar bem, tirando várias manobras e realizando algumas que antes até julgava impossíveis, e outras vezes não, com dificuldade e nem tão produtivo. Sabe os altos e baixos da vida? Pois é.

O que quero dizer com essa lógica é que ela é muito similar à ideia na qual na vida precisamos é de equilíbrio. Teremos, sim, dias bons e dias difíceis e isso é absolutamente normal. Aceitemos que um dia estaremos mais proativos, sagazes e sábios, mas existirão outros que não serão bem assim e, no fim das contas, isso faz parte do processo de evolução e aprendizado da nossa jornada.

2. Informação nunca é demais

A prática do Slackline acontece bastante em parques e locais abertos, com o equipamento amparado em árvores. Portanto, pesquise sobre o local, arme seu equipamento com calma, certifique-se se é de marcas recomendadas para a prática (nada de fita de caminhão, ok?), se crianças poderão se machucar brincando no local e se a árvore na qual você está montando o equipamento tem raízes e tronco fixos.

Quando ancorado em árvores, protetores são necessários pra que os troncos não sejam danificados (geralmente são feitos de materiais similares a carpetes). Assim você garantirá uma vida útil maior tanto para seu equipamento e quanto para a árvore.

Não é aconselhável usar colunas de prédios, casas e afins. Até porque nem sempre é possível saber se a viga foi feita de aço e concreto.

Além disso, não esqueça das cordas de segurança, chamadas de corda de back up.

Aqui você assiste a um vídeo simples sobre como instalar o equipamento.

3. Respeitar o medo

Gosto de partir de um princípio de que o medo, na verdade, mais nos ensina do que paralisa. A nossa relação com ele pode ser proveitosa e nos mostrar caminhos curiosos acerca da sabedoria. O medo é aquele sentimento de alerta, evidencia um mundo real aqui e temos de ser responsáveis a cada tomada de atitude.

No Slackline, a relação do medo parte do princípio de entender seus limites naquele momento. Quando tive a experiência do meu primeiro Highline (modalidade praticada em altitudes elevadas), percebi o movimento da minha mente como extremamente curioso: misturou curiosidade e medo numa força de vontade incrível.

Tente imaginar: a altura era equivalente ao terceiro andar de um prédio. Sentei na fita para iniciar o processo para tentar ficar em pé. Não consegui, porém fiquei pendurado pelo Leash (uma corda presa a cintura na qual faz parte do equipamento de segurança). A ideia era dissipar o medo e entender o momento, uma espécie de recado: “Calma, ainda não é o momento!”.

Segunda vez fazendo um highline. Deu medo? Fui com medo mesmo. Um dia pra ficar na memória de tão incrível

4. Solitude

Segundo o Wikipedia, solitude é:

“O estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão.

Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento.

Solitude é o isolamento ou reclusão voluntário, quando o indivíduo busca estar em paz consigo mesmo”.

Descobri momentos preciosos ao praticar Slackline sozinho. Talvez pelo fato de pela primeira vez na vida saber curtir minha própria companhia e utilizar isso em outras atividades, como ir ao cinema ou viajar só.

Hoje tenho um grupo de amigos igualmente apaixonados pelo esporte, porém volta e meia alguém treina só. A ideia é, além de sustentar o vício no esporte, desfrutar de momentos assim de paz interior.

Por ser um tipo de pessoa a qual acredita no nosso exterior sendo reflexo do nosso interior, encaro o exercício aplicado à prática de Slackline como um exercício de relaxamento, contemplação, diálogo interno e respeito à natureza.

E falando sobre esse último ponto…

5. Respeitar a natureza

Na correria do dia a dia, quase sempre passam batidos aquela parte bonita da cidade, conjunto de prédios, pôr do sol, entre outras coisas. Não reparamos a beleza ao nosso alcance e como, às vezes, um pequeno reparo naquela praça abandonada faz total diferença na energia do lugar.

Por se tratar de um esporte que precisa apenas de dois pontos fixos para ancoragem, o Slackline pode ser praticado em quase todo lugar. Praças, universidades, praias e bosques. E a oportunidade de conhecer esses locais mais de perto nos faz ter mais consciência e cuidado pelos ambientes e microuniverso ali presentes.

Então não se espante se alguém – caso se identifique com o esporte, claro – se sinta mais leve depois da prática e queira contemplar o pôr do sol, deitar em um chão gramado ou dar um mergulho no mar. Até porque, como qualquer prática física, o Slackline ajuda liberar endorfina, aquele hormônio responsável pela sensação de bem-estar.

6. Uma forma de meditação

O esporte permite momentos de contemplação e autoconhecimento, então por que não usá-lo como uma forma de meditação?

Por se tratar de uma prática física que requer concentração, foco, respiração e movimentos físicos, algumas nuances da meditação são aplicadas aqui.

A prática tem como objetivo deixar o corpo “respirar”, deixando um pensamento vir e deixá-lo ir embora (um desafio também), além de ser um exercício de concentração e consciência no presente, e o Slackline funciona de forma similar. Pode render bons momentos e ajudar em males da mente como ansiedade, medo e depressão.

Constatação não de um especialista, mas de ansioso nato.

7. Superar obstáculos

Por fim, começo esse último ponto com uma frase do filme Amor sem Escalas:

“Você sabe por que as crianças gostam dos atletas? Resposta: porque eles persistem seus sonhos e superam obstáculos.”

Decidi escrever este artigo para mostrar elementos alguns elementos que me ajudaram a ter mais consciência de quem sou e algumas superações.

Fui sedentário por toda a minha adolescência, quando passava o dia na frente da tela do computador e uma das únicas das atividades físicas a qual realizava eram os ensaio ou show da banda na qual tinha na época.

O Slackline me ensinou muito. Além de desenvolvermos melhor consciência da engenharia do nosso corpo, o melhor foi aprender a medir o tamanho dos obstáculos na vida – diante dos quais podemos facilmente nos acovardar –, mas também, incrivelmente, provar para si mesmo a capacidade de criar e celebrar.

Não sou atleta profissional, mas admiro e acompanho alguns e eles funcionam como inspirações e ajudam a medir minha própria capacidade, além de servirem como um recado constante sobre como também posso chegar lá.

Até porque, na vida, tudo faz parte de um aprendizado contínuo. E o Slackline me ensinou ser sábio ao respeitar o próximo, cuidar do mundo e tentar remar contra o universo de energias ruins que somos sujeitos dia após dia.


publicado em 08 de Junho de 2016, 10:38
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Jonas Sakamoto

Jornalista. Maranhense. Descendente da Terra Nipônica. Alquimista Mental, praticante de Slackline, um apaixonado pela natureza e malabarismo. Tem um espaço chamado Sobre o Tatame. No mais, tenta viver as coisas boas e simples, sempre de maneira 'paciente, confiante, intuitiva'.


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