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Sobre aquelas dicas que a gente gosta de dar na internet | Terceiro Olhar #2

Dicas de viagem, indicações culturais, curadoria gastronômica. Estamos disseminando conhecimento ou ficando ainda mais exibidos?

Se você perguntar para a sua avó, sua mãe, seus tios, eles vão falar que vivemos em um mundo cava vez mais individualista. “As pessoas não se ajudam mais como antigamente”, “hoje é cada um por si”, “na minha época não era assim”, “por que eu não posso comentar com suas fotos de criança nos seus posts do Facebook?”, eles vão dizer, ainda que a última frase não tenha exatamente muito a ver com o tema, é mais coisa da sua mãe, mãe no Facebook é assim mesmo.

Mas, ao mesmo tempo que vivemos em uma era marcada pela ideia de que estamos todos competindo entre nós mesmos por fatias cada vez menores do bolo, cabendo a cada um superar a concorrência que está logo ao lado pra conseguir o que quer, a gente provavelmente nunca antes na história humana fez tanta coisa por causa do próximo. Talvez não pra ajudar o próximo, possivelmente não pra ver o próximo feliz, não exatamente dizendo um “rapaz, essa o próximo vai adorar”, mas com certeza pensando no próximo.

"Vem, deixa eu mostrar pras pessoas como eu sou l... como aqui é legal! 

Isso porque, ainda que a preocupação com imagem e reputação seja uma constante na vida em sociedade desde que o primeiro homem das cavernas notou que o homem da caverna ao lado tinha uma caverna maior do que a dele, nunca antes esse tema ditou tanto a  maneira como vivemos, pensamos, nos comportamos, já que nunca antes foi tão presente a discussão da imagem de cada um de nós e nunca foi tão fácil construir e editar a percepção que os outros tem de nós.

Afinal, antes do Facebook, do Instagram, do Snapchat, para mostrar que você tinha uma casa bonita, as pessoas teriam que visitar a sua casa. Para mostrar que você tinha um carro caro, você teria que passar com esse carro na frente de alguém. Para dizer que foi ao Caribe, você teria que levar o álbum de fotos até o escritório e ir chamar todo mundo na copa pra mostrar as que saíram melhores naquele filme de 36 poses, o que não apenas limitava o volume de pessoas atingidas como criava algumas complexas questões de logística (“amor, qual a maneira mais fácil de fazer todo mundo saber da lava-louças nova? a gente leva ela no almoço na casa da sua mãe?”).

Mas hoje em dia, com as facilidades para projetar uma imagem e construir uma reputação proporcionadas pelos meios digitais, essa atividade de impressionar o outro que era de meio-período acabou se tornando um trabalho de tempo integral. As férias são transmitidas ao vivo pelo celular, a foto do carro é postada no Instagram assim que ele sai da concessionária, até a manhã de sábado ganha a responsabilidade de ostentar ao menos um “cafézinho delícia na cama” em alguma rede social para o fim de semana não ter sido em vão. Mas até aí, nada de mais, nada de novo. Até aí, já apareceram uns 15 textos no seu Facebook falando exatamente a mesma coisa. Até aí, todo mundo já falou disso no Medium essa semana.

Cafézinho delícia

E um reflexo que talvez a gente não perceba desse processo de querer se exibir para o próximo é a nossa curiosa compulsão por “dar dicas”.

Sim, dicas. Aquele nosso blogzinho de viagem, nossa postagem recomendando um restaurante, uma foto descrevendo a praiazinha paradisíaca. Parece um gesto bacana e bonito de boa vontade? Parece, claro. Tô querendo orientar meu amiguinho sobre onde passar as férias, estou querendo que mais gente saiba sobre aquele bife alto com batata corada, não quero que apenas eu aproveite o pôr-do-sol daquele litoralzinho gostoso.

Mas o quanto disso é realmente preocupação em ajudar alguém e o quanto é apenas mais uma etapa, agora um pouco mais dissimulada, da nossa eterna vontade de exibir para os outros o que a gente tem, só que agora disfarçado de “o que a gente sabe”? O blog de viagem que serve menos para dar dicas mas sim para exibir, de maneira periódica e organizada um “olha só pra onde eu viajei enquanto você trabalhava?”, aquela recomendação de prato que serve pra dizer “olha o restaurante caro onde eu comi, como minha vida está dando certo”, aquela postagem de casal sobre a viagem pra praia que é um “não apenas estou ganhando bem e viajando como aqueles boatos sobre divórcio eram claramente infundados, quem nunca teve amante, não estou entendendo esses olhares de reprovação”.

E isso se estende a diversos outros tipos de dica, claro. Recomendações de livros feita apenas pra parecer culto, links compartilhados não porque pode ser do interesse de alguém, mas pra marcar sua posição sobre algum tema, toda uma vasta gama de movimentos de construção de imagem que a gente faz alegando que está “compartilhando um conteúdo interessante”, “dividindo uma experiência”, sem admitir que, bem, a gente tá apenas querendo impressionar a galera do trabalho, mostra pra ex-colega de colégio que a gente deu certo na vida, deixar claro pra gatinha que sobrevivemos ao término e não estamos apenas comendo brigadeiro de panela assistindo O diário de Bridget Jones (por sinal saiu o trailer do terceiro filme, soube que Lestá com uma cara boa).

Link YouTube | Claro, por que não?

E existe algo de errado nisso? Não, claro que não. Tentar aparecer da melhor maneira possível para as outras pessoas, mesmo se isso exigir alguma edições no photoshop e uns truques de perspectiva para fazer o Cristinho de Juiz de Fora parecer o Cristo Redentor é um instinto natural do ser humano e ninguém deveria sentir vergonha disso. O que é realmente engraçado, e talvez diga muito sobre o mundo em que vivemos, é o ímpeto de tentar disfarçar com um verniz de “difusão de conhecimento” coisas que claramente estamos fazendo apenas pra nos sentirmos melhores com a gente mesmo e em comparação com os outros.

Em suma, é muito bacana você querer escrever sobre as suas férias, apenas é meio engraçado que você finja que está fazendo isso por minha causa.


publicado em 31 de Março de 2016, 00:10
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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