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Sobre ideologia de gênero, conservadorismo, liberdade, política e educação

Ou como podemos abrir um diálogo genuíno sobre como auxiliar a percepção e vivência das pessoas para além do gênero binário

Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava na segunda série e a cartilha trazia um exercício de completar frases. De repente, uma "pegadinha" com meu nome. A frase era: 

Danilo é uma linda __________________.

Muitos tiraram sarro e morri de vergonha pelo bullying.

A resposta "certa" era/poderia ser criança, mas imaginem só se meus colegas de sala iam perder essa oportunidade de zoar o coleguinha! Não me recordo de a professora ter falado qualquer coisa sobre a situação, apenas de ter dado a resposta rapidinho para abafar a algazarra dos mini-opressores.

Hoje penso que seria tão legal se ela tivesse aberto um diálogo naquele momento; questionado os que tiraram sarro e introduzisse um tema de forma mais lúdica, com a linguagem ideal para nossa idade...

Toda essa polêmica me voltou à cabeça ao ver nas redes sociais discussões sobre a inclusão (ou não) de temas relacionados à identidade de gênero nos planos de educação locais, que tinham data limite para ficarem prontos até o último dia 24.

O Plano Nacional de Educação, sancionado há um ano, previa originalmente que fossem incluídos nas grandes curriculares, desde o ensino básico, temas relacionados a sexualidade. Infelizmente os tópicos foram retirados do PNE antes de sua aprovação. A decisão ficou para as câmaras de vereadores.

Conservadores, como sempre, são contra a discussão sobre sexualidade e gênero nas escolas e, em uma tentativa de inviabilizar a pauta, dizem que falar sobre isso em sala de aula é criar a tal da ideologia de gênero. Então questiono: por que homem e mulher têm que se diferenciar apenas pelo sexo e não pela identificação de cada indivíduo com um gênero? 

Ser homem, mulher, gay, trans, nenhuma das anteriores, tem muitos mais a ver com as vivências, fatores psicológicos e biológicos, decisões individuais e, muito menos, por imposição de padrões socialmente aceitos. Binários. 

Qual o grande problema de discutir isso na fase de formação de opinões e caráter?

Voltando às redes sociais, o grande tribunal do mundo atual, percebo que, em primeiro lugar, os críticos digitais, na maioria das vezes, não se informam sobre o tema que estão fortemente criticando. Segundo que existe uma resistência absurda em dar liberdade e empoderar as pessoas (crianças e adultas) para que sejam o que elas querem ou entendem ser. Ou não ser. Percebo também que, ao invés de irmos contra o que não é bom para todos, nossa sociedade tem como default ser egoísta.

Enfim, somos livres ou não?

Tudo isso para ilustrar que as discussões sobre gênero são, sim, importantes de acontecerem na escola. Não é uma imposição, é uma reflexão, é um espaço para a criança pensar sobre si própria e sentir-se livre a respeito dela mesmo, desde sempre.

Afinal é na infância que se aprende o que é "certo" e o que é "errado", não? O que é certo e o que é errado? Por que o azul é dos meninos e rosa é das meninas e ninguém pode questionar?

Se queremos de verdade mesmo um mundo melhor, é também na educação básica que as crianças podem tornar-se seres mais esclarecidos e livres pra entender o mundo, sem imposições. Não?

A fórmula é simples: antes de sair palpitando sobre a vida alheia, do alto do seu pedestal inatingível, pense: "e se fosse um meu?"


publicado em 26 de Junho de 2015, 09:00
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Danilo Gonçalves

Um cara alegre e gosta de ser lembrado assim. Jornalista de formação, com um pé na publicidade, gosta de Novos Baianos, Doces Bárbaros e Beatles. Já gostou de Calypso e como todo gay que se preze, é fã da Beyonce.


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