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Sobre remakes, memória, revisionismo e a artilharia do campeonato goiano de 97

Quase todo mundo odeia remakes e reboots. Fato.

Responda com toda a sinceridade do mundo: quem levaria a melhor nesse embate?

Reclamamos que são desnecessários, alegamos que eles existem apenas pela grana, discutimos a validade artística de reinterpretar obras já prontas, consideramos cada idéia do tipo “vamos refazer o Footloose” ou “vocês não acham que já é hora de um novo Homem-Aranha?” como provas cabais do quanto Hollywood abandonou qualquer traço de criatividade e depois de refilmagens e reinterpretações começou a achar que qualquer atração da Disney ou brinquedo da Hasbro serve de base pra um filme – e sério, não fique surpreso sem em dez anos tivermos Pac-Man – The Movie ou uma franquia com Johnny Depp e o brinquedo bobo da xícara que fica rodando.

Mas mais do que atestar a falta de inspiração dos roteiristas, o mínimo denominador comum criativo dos grandes estúdios ou a covardia das mega corporações na hora de investir em conceitos e idéias novas, toda essa onda de remakes, reboots e “director’s cuts” trás a tona uma verdade que às vezes acabamos não percebendo: nenhuma geração antes da nossa, em toda história da humanidade, teve acesso a tanta memória.

Eu, você e nossos hds pessoais

Sim, memória. E não, não falo de memória orgânica, no sentido de que esquecemos menos as chaves do carro, lembramos o nome daquela garota da festinha na manhã seguinte ou nos recordamos exatamente em quem votamos nas eleições pra vereador em 2004. Falo de memória no sentido mais físico, no sentido mais estrito e técnico possível, que é da memória enquanto armazenamento e acúmulo puro de dados.

Afinal, numa era em que é fácil, viável e até mesmo barato acumular informações, somos capazes de manter, guardar e armazenar memórias de uma forma que nossos pais, avós e bisavós jamais seriam capazes de imaginar.

Viagens de dois dias geram milhares de fotos, romances de duas semanas geram horas de vídeos, conversas de cinco minutos geram logs que podemos acessar quando quiseremos. Se o casamento dos seus pais tem como lembranças um álbum grande guardado no armário da sala e um vídeo em Super-8 em que parece que a Bruxa de Blair vai aparecer a qualquer momento,o casamento do seu irmão pode ter um tera de lembranças entre fotos de alta resolução, vídeos em HD, um site relatando como os noivos se conheceram e possivelmente um histórico de MSN ou Gtalk com todas as conversas virtuais que eles tiveram nos últimos 8 anos – incluindo aquela briga que surgiu exatamente do fato da sua cunhada ter descoberto que não era apenas com ela que ele andava conversando. Tudo salvo, tudo guardado, tudo registrado. Tudo memória.

No tempo do seu avô não tinha essa moleza de pen-drive de 8 giga, amigão

Lacuna Inc. e a era das memórias obrigatórias

É exatamente por vivermos em uma era que existe tanta praticidade para guardar memórias e tanta facilidade para acessá-las que nunca foi tão complicado “esquecer” essas informações. E da mesma forma que é muito fácil acumular todas essas memórias fisicamente, entulhando hds, pendrives, DVDs e Blu-Rays com imagens e sons do passado se torna impressionantemente complicado se livrar das partes dele que não gostamos ou não queremos mais ver.

Términos que antes se limitavam a duas fotos rasgadas e meia dúzia de cartas no triturador de papel hoje envolvem formatações de HD, abandono de redes sociais e cartões de memória na lixeira. Discussões que antes seriam esquecidas agora tem registros sólidos que podem ser trazidos a tona pra comprovar que sim, você tinha dito que era a última vez ou que não, ela não tinha te avisado que ele ia estar naquela festa.

Histórias não são contadas, são exibidas e existe um registro claro e acessível de tudo, desde quem era o namorado da Isabel quando vocês se conheceram em 2008 até quem foi o artilheiro do campeonato goiano de 1997 (Aloísio, por sinal. com 27 gols).

E com toda essa memória diariamente ao nosso redor, surgem duas tentações e, entre elas, uma das maiores com que a humanidade já conviveu: a de alterar essas informações. Mas se para Stalin apagar uma pessoa da história era preciso só queimar umas fotos, rasurar uns livros didáticos e mandar meia dúzia de mencheviques pra Sibéria e pro seu pai dizer que nunca saiu com nenhuma mulher chamada “Selminha” era preciso só emprestar duas vezes o carro pro seu tio e pagar uma grade de cerveja, nós vivemos numa era de provas físicas indiscutíveis.

Você e aquela gordinha na formatura geraram fotos, aquele seu ex-namorado canalha gerou um blog de poesia do qual você vai sentir vergonha pra sempre e aquela noite de bebedeira gerou aquele vídeo no youtube que faz com que até hoje seu apelido seja “Soraya queimada”.

Tudo que você faz hoje em dia fica salvo, vira memória. E isso vale pra você também, Scarlett

A outra tentação? Viver para as memórias. Assim como aquelas pessoas que se sentem obrigadas a fotografar tudo que fazem numa viagem ou parecem sair menos para se divertir e mais para ter o que atualizar no status do Facebook, algumas pessoas erram o sentido da equação e não vêem as lembranças como produto da vida e sim a vida como uma forma de gerar lembranças, o que é triste, preocupante e, claro, enche o saco de todo mundo nas redes sociais.

E sempre teremos Paris. Mas podemos esquecer aquela noite na Cobal do Humaitá se você quiser

E voltamos aos remakes. Afinal, o que é uma refilmagem, o que é um reboot, o que é uma versão do diretor lançada em blu-ray senão uma tentativa de alterar o passado, de mexer com as memórias, de oferecer uma versão que a nossa cabeça de hoje considera melhor para aqueles eventos de 5, 10, 30 anos atrás?

Um Daniel San que nunca se fantasiou de chuveiro, um Han-Solo que nunca atirou primeiro, um Peter Parker que nunca teve cabelo de emo ou dançou em cima de um piano não são exatamente muito diferentes de um Alberto que nunca enfiou o carro naquele barranco em Barbacena, um João que não quebrou o pé chutando uma cerca ou uma Carolina que nunca bebeu demais e telefonou pro ex-namorado só pra se declarar durante quinze minutos e depois descobrir que o pai dele é que tinha atendido.

O que precisamos aprender talvez seja exatamente a aceitar melhor o passado e tirar de toda essa memória o que ela realmente pode oferecer. Não no sentido de abusar das lembranças ou virar refém delas, não no sentido de tratar o passado como um dossiê de provas contra nós – ainda que eu realmente sinta uma certa vergonha do episódio da cerca.

Mas sim no sentido de entender o que a gente não quer lembrar, o que fica como lição e o que apenas e simplesmente passa. E isso vale pra erros, acertos, amores, amigos, viagens, conversas e claro, também pra filmes. Porque eu sinceramente não consigo imaginar o que um remake de Casablanca com o Ben Affleck e a Jennifer Lopez poderia ter trazido de bom pra qualquer um de nós.


publicado em 03 de Outubro de 2011, 05:08
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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